*Por Ruy Cortez
Em um país de dimensões continentais como o Brasil, a logística se consolidou como um dos principais fatores de competitividade empresarial. Transportar, armazenar e distribuir mercadorias com eficiência influencia diretamente custos, prazos e nível de serviço. O desafio é que operar logística no país ainda é caro.
Estimativas do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS) indicam que os custos logísticos brasileiros representam cerca de 15,5% do Produto Interno Bruto (PIB), o equivalente a aproximadamente R$ 1,96 trilhão por ano. Em economias mais maduras, como os Estados Unidos, esse percentual costuma ficar abaixo de 10% do PIB, evidenciando um gap relevante de eficiência.
Parte dessa diferença está ligada à estrutura da matriz logística nacional. O transporte rodoviário responde por mais de 60% da movimentação de cargas, segundo o Plano Nacional de Logística (PNL 2025). Embora ofereça capilaridade, a forte dependência desse modal aumenta a exposição a variáveis como custo de combustível, congestionamentos e condições de infraestrutura. A Pesquisa CNT de Rodovias 2024 mostra que apenas 33% das estradas avaliadas são classificadas como boas ou ótimas, o que impacta diretamente prazos, previsibilidade e custos operacionais.

Frente a este contexto, cresce a percepção de que ganhos de eficiência logística não dependem apenas de grandes investimentos em infraestrutura ou tecnologia. O diferencial competitivo está, sobretudo, na forma como os processos são estruturados e gerenciados dentro das empresas.
É nesse ambiente de pressão que as metodologias de melhoria contínua ganham relevância estratégica. Inspirada em modelos de gestão como Lean e Kaizen, essa abordagem busca aprimorar operações de forma sistemática por meio da eliminação de desperdícios, padronização de processos e análise estruturada de problemas. Sem depender exclusivamente de mudanças pontuais, cria-se um sistema de gestão capaz de gerar melhorias consistentes ao longo do tempo.
Na logística, esse processo começa pela análise detalhada dos fluxos operacionais. Ferramentas como o Mapeamento do Fluxo de Valor (Value Stream Mapping) ajudam a identificar gargalos desde o recebimento até a entrega final. Nos Centros de Distribuição, ganhos relevantes costumam surgir da reorganização de layouts, da revisão do endereçamento de produtos e da aplicação de técnicas de slotting, reduzindo deslocamentos internos e aumentando a produtividade na separação de pedidos. O avanço tecnológico também amplia esse potencial, com sistemas de automação de armazenagem e análise que permitem decisões mais rápidas e baseadas em dados.
Outro ponto crítico está na gestão de estoques. Em ambientes logísticos com alta variabilidade, muitas empresas mantêm estoques elevados para evitar rupturas. O resultado costuma ser capital imobilizado e aumento dos custos de armazenagem. A melhoria contínua atua justamente na redução desse desequilíbrio ao integrar planejamento de demanda, produção e distribuição.
Mas talvez o impacto mais transformador dessa metodologia esteja na mudança cultural dentro das organizações. Diferentemente de projetos isolados de eficiência, ela depende do envolvimento das equipes operacionais. Supervisores, analistas e operadores passam a identificar problemas no dia a dia, analisar causas raiz e propor soluções baseadas em dados. Com isso, a operação logística deixa de ser apenas execução e passa a funcionar como um sistema permanente de aprendizado e evolução.
Em um setor marcado por custos elevados e variabilidade, empresas que estruturam processos baseados em dados, padronização e aprendizado constante conseguem reduzir desperdícios, aumentar previsibilidade e elevar o nível de serviço ao cliente. Em outras palavras, mais do que uma metodologia, a melhoria contínua se torna um caminho consistente para tornar a logística brasileira mais eficiente e competitiva.
*Ruy Cortez – CEO do KAIZEN Institute Consulting Group Brasil








