Simone Santos reflete, neste artigo, sobre sua trajetória no Real Estate Logístico e analisa os avanços e desafios da presença feminina em um setor historicamente masculino. A colunista do Portal Logweb destaca a importância da transformação cultural e da ampliação de espaços de liderança.
No Mês Internacional da Mulher, inevitavelmente volto à base que me formou.
Antes mesmo da minha entrada no mercado de trabalho, foram mulheres que me ensinaram a existir no mundo com coragem. Minhas avós, minha mãe, minhas tias. Mulheres que, cada uma à sua maneira, me mostraram que força e sensibilidade não são opostos – são complementares.
Mais tarde, já na vida profissional, encontrei outras referências. Minha primeira líder foi uma mulher extraordinária, que me enxergou para além do gênero e me cobrou como profissional. Aquilo fez toda a diferença. Porque, mais do que abrir portas, ela me ensinou a permanecer nelas.
Essa rede feminina foi essencial quando iniciei minha trajetória, há cerca de 30 anos, em um ambiente empresarial majoritariamente masculino – especialmente no mercado imobiliário logístico, historicamente dominado por homens.
Foi essa base que me deu coragem para resistir, aprender, negociar, me posicionar – e, sobretudo, permanecer.
Ao longo dessas três décadas, vi o setor evoluir. O Real Estate Logístico deixou de ser uma atividade quase exclusivamente técnica e operacional para se tornar estratégica, conectada à transformação das cadeias de suprimento, ao crescimento do e-commerce e à sofisticação dos ativos.

E, junto com essa evolução, algo importante começou a mudar: mais mulheres passaram a ocupar espaços de decisão.
Hoje, vemos mulheres liderando áreas de investimentos, desenvolvimento, comercialização, gestão de ativos e inteligência de mercado. Vemos mulheres sentadas à mesa – e não apenas ao redor dela.
Isso é, sem dúvida, motivo de celebração.
Mas ainda não é suficiente.
O avanço da presença feminina não significa que as estruturas foram completamente transformadas. O machismo estrutural segue presente, muitas vezes de forma sutil – outras, nem tanto.
Recentemente, em um encontro de lideranças, antes mesmo de qualquer apresentação formal, um homem – que, assim como outros, estava acompanhado de sua esposa na viagem – me perguntou se eu iria “fazer compras com as outras esposas”.
Não era uma piada inocente. Era um reflexo claro de uma mentalidade ainda enraizada, que insiste em associar mulheres a papéis secundários, mesmo quando elas estão ali, legitimamente, como protagonistas.
Esse tipo de situação não define o setor – mas revela o quanto ainda precisamos avançar.
Fortalecer mulheres continua sendo essencial. Criar redes de apoio, promover outras mulheres, dar visibilidade e abrir caminhos são atitudes que fazem diferença real.
Mas há um ponto igualmente importante – e que precisa ser dito com clareza: a transformação não é responsabilidade apenas das mulheres.
É fundamental que os homens ampliem sua consciência, revisem comportamentos e reconheçam seus próprios vieses – conscientes ou não. Ambientes mais diversos e equilibrados não são apenas mais justos; são também mais inteligentes, mais inovadores e mais preparados para lidar com a complexidade do mercado atual.
O futuro do trabalho – e, especialmente, do Real Estate Logístico – passa por ambientes onde mulheres não precisem provar continuamente sua competência, nem justificar sua presença à cabeceira da mesa.
Um setor mais diverso não é apenas uma pauta social. É uma vantagem competitiva.
Seguimos avançando. Abrindo caminhos. Ocupando espaços.
E, principalmente, ampliando o terreno para que muitas outras mulheres não apenas cheguem – mas avancem ainda mais.










