A integração multimodal voltou a ganhar destaque no setor de transporte e infraestrutura no Brasil. De acordo com o Ministério dos Transportes, o ano de 2026 deverá marcar um ponto de inflexão na reorganização da matriz logística nacional, com a previsão de oito leilões ferroviários e investimentos estimados em R$ 140 bilhões. A proposta é reativar trechos hoje subutilizados e transformá-los em corredores logísticos mais eficientes, ampliando a conexão entre ferrovias, rodovias, portos, terminais e hidrovias.
Esse movimento está alinhado ao Plano Nacional de Logística 2035 (PNL 2035), que projeta uma integração mais profunda entre os modais e a expansão da malha ferroviária, conectando as cinco regiões do país entre si e às vias navegáveis da Bacia Amazônica. O objetivo central é reduzir gargalos estruturais e reequilibrar a matriz de transportes, hoje fortemente dependente do modal rodoviário.

Atualmente, os caminhões respondem por 62,2% do transporte de mercadorias no Brasil. Para 2035, o PNL projeta um crescimento expressivo de outros modais, com destaque para o transporte ferroviário, que pode avançar 193%, seguido pelo aeroviário (60%), dutoviário (58%), cabotagem (57%), hidroviário (44%) e pelo próprio rodoviário, com crescimento mais moderado, de 5%. O plano também prevê maior participação do trem no transporte de cargas de maior valor agregado e em longas distâncias, onde apresenta ganhos de escala e eficiência.
Para os operadores logísticos, a multimodalidade é vista como um caminho estratégico. “Quando há articulação entre diferentes modais, o país ganha escala, previsibilidade e competitividade. Não se trata de substituir o caminhão, mas de fazer com que cada meio opere onde é mais eficiente”, afirma Luciano Johnsson, CEO da Brado.
Integração multimodal logística e ganhos operacionais
Nesse contexto, a integração promove uma redistribuição de funções entre os modais. O rodoviário tende a atuar como alimentador dos fluxos ferroviários, hidroviários e portuários, enquanto a cabotagem absorve percursos costeiros mais longos. Já o modal aéreo ganha espaço em cargas urgentes e de alto valor agregado, e o dutoviário permanece estratégico no transporte de combustíveis e líquidos. Essa complementaridade reduz custos sobrepostos e melhora o planejamento logístico.
“No transporte terrestre, a integração entre ferrovia e rodovia mostra o valor da complementaridade, o trem garante competitividade e eficiência em longos percursos, enquanto o caminhão oferece agilidade e capilaridade no atendimento, fortalecendo o desempenho logístico de ponta a ponta”, ressalta Johnsson.
Além dos ganhos operacionais, a integração multimodal logística também traz benefícios ambientais. Segundo a Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANTF), o transporte ferroviário pode emitir até 85% menos CO² em comparação ao rodoviário. A Brado, responsável por 85% da movimentação de contêineres em ferrovias brasileiras (em TKU), registrou até setembro do último ano a redução de mais de 242 mil toneladas de Gases de Efeito Estufa (GEE).
Outro elemento que favorece essa integração é o uso de contêineres, que padronizam a operação entre os modais. Com isso, a transferência de cargas se torna mais rápida e previsível. Além disso, como as unidades permanecem lacradas ao longo do trajeto, há redução de avarias, maior proteção contra furtos e menor exposição a condições climáticas adversas.
Na avaliação do executivo, o ambiente brasileiro mostra maior maturidade para esse modelo. “O país já discutiu multimodalidade antes, mas agora existe convergência entre regulação, infraestrutura e interesse econômico. Quando governo, indústria e operadores enxergam valor no mesmo ponto, a logística avança”, afirma.








