Frete Valor não é seguro!

03/02/2020

Marcelo Rodrigues. Vice-presidente e diretor de Especialidade de Seguros do SETCESP

 

Ao contrário do que muitos pensam, Frete Valor não é seguro.

Seguro só pode ser co‑ brado por seguradoras devidamente reconhecidas pela SUSEP – Superintendência de Seguros Privados.

As transportadoras não cobram seguros em suas operações, mas sim o Frete Valor, que é o preço calculado sobre o risco assumido pela empresa de transporte que está em poder transitório da mercadoria. Sendo assim, o valor agregado do produto ou da mercadoria a ser transportada é majorado pelo risco que ele representa na operação de transporte, na qual é preciso considerar diversos fatores relacionados à prevenção da possível avaria ou extravio, tanto no trajeto da viagem como por motivos de força maior.

O Frete Valor destacado no CTe (Conhecimento de Transporte) é calculado como percentual sobre o valor de nota fiscal da carga adicionando, como componente, à soma do frete a ser cobrado pela prestação de serviços de transporte. O que ocorre exatamente para cobrir os custos da operação de carga e descarga, deslocamento, manuseio, eventuais ocorrências e demais itens que estão nas apólices obrigatórias de seguros de transporte de cargas.

Além de ser indispensável a cobrança de Frete Valor para suprir as carências específicas do transporte da carga, há também a necessidade de cobrar a taxa GRIS (Gerenciamento de Riscos e Segurança), que não deve ser confundida com a cobrança de Frete Valor, pois o GRIS destina-se a cobrir os custos inerentes ao Gerenciamento de Risco, no qual entram as mais diversas necessidades, dentre elas as exigências das seguradoras, das transportadoras e dos embarcadores.

Outra típica confusão que temos no mercado é quando algumas tabelas ou concorrências BIDs (bidding process) misturam o termo Ad Valorem com o seguro do transporte rodoviário de cargas. Então, vale esclarecer que o Ad Valorem surgiu da necessidade do transporte marítimo e foi considerado, por um bom tempo, como termo relacionado ao seguro de cargas para o modal rodoviário. Porém, isso não reflete mais a realidade, já que foi instituído o Frete Valor conforme exposto acima.

Isto posto, vamos entender um pouco sobre duas situações nas quais o corretor de seguros do embarcador sugere ao mesmo, para que a transportadora deixe de cobrar o Frete Valor, e não podemos confundir as duas situações – uma delas é a Apólice Estipulada de RCTR-C e a outra é uma carta de DDR que é proveniente do seguro de TN (apólice de transporte nacional – obrigatória do embarcador –, que cobre os riscos não cobertos pelo RCTR-C e notadamente tem feito o papel do RCF-DC para cobrir riscos de roubos:

  • Apólice de Seguros Estipulada é uma apólice de seguros de RCTR-C emitida pela seguradora do embarcador, por conta e ordem do embarcador “em nome da transportadora”;
  • Carta DDR (Carta de Dispensa de Direito de Regresso), que significa que a “seguradora”, e NÃO o “corretor”, concede uma carta dispensando o direito sob qual poderia exercer uma ação regressiva contra a transportadora por algo que a empresa de transporte não cumpriu no GR (Gerenciamento de Riscos), que deve ser parte integrante da carta para que o transportador possa aceitar as condições impostas pela seguradora para aceitação do RISCO.

Portanto, meus caros leitores, seguro quem cobra é a seguradora! Ao transportador cabe cobrar pela operação e serviços adicionais especiais para atender a necessidade do contratante com segurança, eficiência e qualidade.

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A combinação de juros elevados e restrição ao crédito tem levado o setor de transporte rodoviário a buscar novas estratégias de geração de receita. Diante da queda nas vendas de caminhões, empresas da cadeia logística passaram a acelerar a adoção de modelos baseados em serviços e receita recorrente no transporte, com foco em maior previsibilidade financeira. De acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), as vendas de caminhões recuaram 34,6% em janeiro deste ano em relação a dezembro de 2025. Além disso, na comparação com janeiro do ano anterior, a retração foi de 30,14%. Esse cenário reforça a necessidade de diversificação das fontes de receita em um ambiente mais volátil. Nesse contexto, a mudança de modelo reflete uma tentativa de reduzir a dependência de vendas pontuais de ativos. Ao mesmo tempo, empresas passam a incorporar soluções tecnológicas embarcadas nas frotas não apenas para ganho operacional, mas também como nova fonte de faturamento para concessionárias, revendedores e companhias de software. Receita recorrente no transporte avança com uso de tecnologia logística Segundo Rony Neri, diretor-executivo LATAM da Platform Science, multinacional americana especializada em soluções de segurança e tecnologia para o setor de transporte, a lógica do mercado está em transformação. “A lógica do setor está mudando. Antes, a receita estava concentrada na venda do ativo. Agora, com o uso de tecnologia, é possível construir uma base recorrente de faturamento, mais previsível e menos exposta às oscilações do mercado”, afirma. A empresa atua no desenvolvimento de plataformas tecnológicas para gestão de frotas e segurança operacional, permitindo a integração de dados e serviços no ambiente logístico. Dessa forma, soluções como telemetria, videomonitoramento e plataformas digitais passam a viabilizar modelos de assinatura, ampliando o ticket médio e a retenção de clientes. “A tecnologia passa a funcionar como uma camada de inteligência que fortalece o negócio principal e cria novas oportunidades de receita ao longo do tempo”, reforça Neri. Além disso, o movimento também alcança o agronegócio, onde a digitalização da logística tem impacto direto nos custos operacionais. Com o uso de dados e monitoramento em tempo real, produtores e operadores conseguem reduzir desperdícios, evitar falhas mecânicas e aumentar a eficiência no transporte da safra. “Esses ganhos operacionais têm impacto direto na rentabilidade, especialmente em um cenário em que o custo logístico é um dos principais fatores de pressão para o produtor rural”, detalha o executivo. Para empresas de software, a incorporação de dados operacionais das frotas abre espaço para expansão de portfólio sem necessidade de novos investimentos em hardware. Assim, aumenta-se o valor agregado das plataformas e amplia-se a oferta de serviços. Por fim, o modelo de receita recorrente no transporte tende a apresentar maior estabilidade em comparação à comercialização de produtos físicos. A venda de serviços contínuos, baseada em assinaturas, contribui para reduzir a sazonalidade típica do setor e cria uma base mais previsível de faturamento ao longo do tempo. “A recorrência permite que empresas atravessem períodos de baixa venda de ativos sem perda significativa de receita. É uma mudança estrutural na forma como o setor captura valor”, finaliza Neri.
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