A escolha foi feita

09/02/2008

No final de janeiro, o Federal Reserve escreveu em negrito uma das páginas mais importantes da história dos EUA, pelo menos nessa década.

Contrariando as expectativas mais racionais, a autoridade monetária norte-americana promoveu a segunda queda de juros em oito dias.

E isso esta sendo feito sob um contexto inédito: a perspectiva de recessão ocorre em paralelo com a alta inflacionária. Aumentando juros, a economia realmente entraria em baixa, mas isso teria o poder de conter os preços. Ocorrendo o contrário, a possibilidade de queda do nível de atividade torna-se menor, mas a inflação deve se acelerar ainda mais.

Veja bem: pela primeira vez na sua história os EUA estão claramente abrindo mão da sua estabilidade monetária, um dos principais alicerces da consolidação de qualquer país na liderança econômica mundial. Se antes o dólar já começava a ser visto como provável mico no mercado operacional, agora a moeda mais negociada do mundo parece ter-se tornado realmente uma encrenca para quem a tem suas reservas.

Ao contrário de outros momentos históricos, dessa vez os norte-americanos parecem estar dispostos a pagar qualquer preço para evitar a desaceleração da sua economia (entende-se que as decorrências globais da recessão norte-americana sejam, em principio, de interesse secundário para os próprios). E essa é uma das questões centrais a serem analisadas para entender o momento atual do mundo.

Antes, vejamos uma lógica crua: a população estadunidense está demasiadamente endividada por ter entrado num canto da sereia e extrapolado sua capacidade de contrair crédito. Reduzindo os juros, o governo está dizendo: pessoal, continuem gastando. Assim as dívidas aumentarão ainda mais e a não ser que haja alguma mágica mirabolante, a inconsistência financeira dos Estados Unidos continuará progredindo e a inflação avançando. Você investiria em um pais assim? Provavelmente não.

Em outras palavras, parece que o dólar está sendo usado como avião camicase: vai entregar sua vida em nome de uma causa maior, como acreditam fazer os homens bomba do Oriente Médio. Mas o que será que está por trás disso?

Seguramente alguma estratégia mais ousada de sustentação da hegemonia econômica mundial, inegavelmente ameaçada pela expansão chinesa e consolidação da União Européia. E quando se menciona ousadia, não estamos longe de falar arriscado.

Bem, talvez tudo não passe de uma tentativa de empurrar o problema econômico com a barriga até a definição do próximo presidente dos EUA. Mas essa seria uma tradição do populismo latino-americano, não condizente com aquela poderosa nação. Ou será que as coisas estão mudando por lá?

Mais fácil imaginar de que se trata mesmo de posicionamento estratégico. E pensando assim é possível que nos próximos meses nos depararemos com alguma uma novidade no âmbito das relações internacionais, comparável com o abandono do padrão ouro nos inicio dos anos 70.

Por enquanto, não há nada mais a fazer do que esperar. Esperar por mudanças… e conflito de interesses.

 

Eduardo Starosta – eduardostarosta@uol.com.br

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