Por que as bolsas em todo o mundo estão caindo?

23/01/2008

Nos últimos cinco anos experimentamos diversas crises, refletidas, como agora, em expressivas quedas nas bolsas de valores. A crise que começou em 26 de janeiro de 2004 levou a uma queda de 27,7% no índice Bovespa e a crise política de 2005, em torno do "mensalão", levou primeiro a uma queda de 18,9% no índice a partir de sete de março daquele ano e a seguir, começando em nove de maio, a uma queda de 11,4%. A atual crise do crédito já produziu uma queda de 17,4% no índice Bovespa tomando por base 19 de julho, e assistimos agora a uma queda de 18,4% tomando como ponto inicial o pico prévio da bolsa de São Paulo em 6 de dezembro de 2007 e a segunda-feira, dia 21 de janeiro.

Por que as bolsas em todo o mundo estão caindo? Fundamentalmente, as bolsas estão caindo porque os investidores estão antecipando que as empresas não terão resultados tão bons como se imaginava. Antevendo que os resultados poderão ser menores que os esperados, os preços das ações se tornaram caros. A única maneira de alguém ganhar com uma alta de preços em uma bolsa de valores é vendendo os papéis cujos preços subiram. Se muitos investidores antecipam uma queda no resultado das empresas, em relação ao que esperavam anteriormente, procurarão vender; outros se disporão a comprar, desde que a preços menores. É esse movimento, e a diferença de opiniões entre compradores e vendedores, que leva os preços a cair (no caso presente) ou a subir (como havia ocorrido anteriormente).

Não faltam explicações para o fenômeno das crises periódicas que afetam os mercados. Não é certamente o fato de que algumas empresas têm um mau resultado que faz os índices caírem; isso ocorre todos os dias, compensando-se os maus resultados de umas com os bons resultados de outras. Não há crise alguma e os índices dos preços das ações permanecem estáveis ou sobem sem grandes saltos. É assim que operam em situações normais as economias de mercado dinâmicas.

Diferente é a perspectiva de um grande número de empresas apresentando resultados aquém dos esperados pelos investidores. Alguma coisa precipitou os maus resultados.

Alguns atribuem os movimentos nas bolsas a fatores psicológicos, associados à "confiança" dos investidores (ou, no caso dos EUA, à "confiança" dos consumidores). Se os consumidores passam a acreditar que a economia "vai mal", deixam de consumir; pela mesma razão, as empresas deixam de investir. Se caírem o consumo e o investimento, o resultado só pode ser um: a queda no PIB, confirmando o que esperavam consumidores e investidores.

Que essa teoria é ingênua, não pairam dúvidas. Se tudo fosse comandado por movimentos irracionais de consumidores e investidores, bastaria que alguém com credibilidade suficiente afirmasse o contrário para que os resultados se revertessem. Deve haver alguma mudança nos fundamentos econômicos que justifiquem as mudanças de opinião.

Em uma obra clássica de 1912 ( A Teoria da Moeda e do Crédito ), Ludwig von Mises apontou os efeitos das taxas de juros sobre as decisões de investimentos. Em uma economia de mercado com pouca intervenção do governo, as taxas de juros são determinadas pela oferta e demanda de crédito.

Quando um banco central intervém no mercado de crédito fixando uma taxa de juros artificialmente baixa, incentiva projetos de investimento de baixa rentabilidade e induz consumidores a endividarem-se para financiar o consumo de residências e outros bens duráveis. Se esse processo dura o suficiente para induzir um grande aumento na oferta monetária, mais cedo ou mais tarde surgirão pressões inflacionárias na economia. E, se para combater as pressões inflacionárias, o mesmo banco central eleva as taxas de juros, investidores e consumidores poderão ficar inadimplentes, particularmente se os empréstimos foram contratados a taxas de juros flutuantes.

Qualquer semelhança dessa história com o caso real dos EUA não é mera coincidência. Se o valor presente de pagar uma casa, aos novos juros, é maior que o valor de mercado dessa casa, a decisão mais inteligente para o mutuário é deixar de pagar e entregar a casa ao financiador. Se muita gente faz isso, o mercado imobiliário entra em uma espiral de queda; daí para a transmissão para outros mercados e outros países, é um passo.

 

Fonte: Diário do Comércio

 

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