O transporte rodoviário de cargas enfrenta um desafio estrutural relacionado à disponibilidade de mão de obra qualificada. Nos últimos dez anos, o Brasil perdeu cerca de 1,2 milhão de motoristas profissionais, segundo dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). Desde 2015, o número total de condutores caiu 22%, passando de 5,6 milhões para 4,4 milhões, em um movimento que preocupa o setor diante do crescimento contínuo da frota de veículos pesados no país.

Além da redução no contingente de profissionais, o perfil etário dos motoristas reforça o alerta. Aproximadamente 60% têm idade igual ou superior a 51 anos, enquanto 11% já ultrapassam os 70 anos. Em contraste, apenas 4% dos motoristas profissionais têm até 30 anos, o que evidencia dificuldades na renovação da mão de obra e no interesse das novas gerações pela atividade.
Esse cenário se torna ainda mais relevante quando comparado à evolução da frota nacional. No mesmo período de dez anos, o número de caminhões em circulação saltou de 5,3 milhões para 8 milhões, um crescimento de 50%. Para enfrentar possíveis gargalos logísticos e reduzir o risco de um apagão operacional, o Ministério dos Transportes lançou um novo modelo de CNH, por meio do programa CNH do Brasil, que promete reduzir em até 80% os custos para obtenção da habilitação.
No novo formato, motoristas em formação para as categorias C, D e E poderão optar entre seguir o processo tradicional ou aderir às novas regras. A proposta busca simplificar etapas e diminuir entraves burocráticos, mantendo, no entanto, a possibilidade de escolha pelo modelo anterior, o que amplia a flexibilidade do sistema.
Para Rafaela Cozar, presidente do Sindicato das Empresas de Transportes e Cargas de Campinas e Região (SINDICAMP), a iniciativa pode representar um avanço importante para o setor. “Estamos falando de uma atividade essencial para a economia do país, que precisa ser valorizada, modernizada e tornar-se novamente atrativa para as novas gerações. A atualização das regras para obtenção da CNH sinaliza um movimento de modernização da legislação, que busca simplificar processos e reduzir entraves burocráticos”, comenta.
CNH e qualificação no transporte rodoviário de cargas
Apesar dos benefícios apontados, a dirigente destaca que a flexibilização das regras exige atenção contínua à qualificação técnica. “Essa mudança nas regras ainda exige atenção contínua à formação dos condutores. Dirigir veículos de carga exige preparo, responsabilidade e conhecimento das normas de segurança”, afirma. Segundo ela, a ampliação do acesso deve caminhar junto com treinamento, fiscalização e políticas de conscientização.
Nesse contexto, Rafaela Cozar reforça que o equilíbrio entre inclusão e capacitação será decisivo para o futuro do transporte rodoviário de cargas. “Medidas que facilitam o acesso à CNH podem contribuir para atrair novos profissionais, mas precisam estar integradas a políticas de formação técnica, conscientização e boas práticas operacionais. O equilíbrio entre inclusão, capacitação e segurança será determinante para a sustentabilidade do TRC nos próximos anos”, completa.
Por fim, a presidente do SINDICAMP ressalta que a recomposição da mão de obra passa também pelo papel das empresas. “O futuro do Transporte Rodoviário de Cargas passa, necessariamente, pela recomposição e renovação da mão de obra. Com as novas regras, o papel das empresas ganha ainda mais relevância. Programas internos de capacitação, acompanhamento e avaliação contínua passam a ser instrumentos essenciais para manter padrões elevados de segurança e desempenho”, afirma. Ela acrescenta que o sindicato acompanha de perto as mudanças regulatórias e reforça a importância do diálogo entre governo, entidades e empresas para avaliar os impactos práticos das medidas no dia a dia das operações.









