Especialista em serviços aduaneiros explica a logística que envolve as cargas perigosas

11/08/2020

Incidentes como a explosão de um armazém com nitrato de amônia, que destruiu o porto de Beirute, provocando graves perdas humanas e materiais em toda a capital do Líbano, desafiam o ordenamento legal que rege o transporte e armazenagem das chamadas cargas perigosas. Especialista em comércio exterior, com 20 anos de experiência, Pedro Flores de Souza explica que a legislação internacional que rege o assunto é extensa, detalhada e voltada para salvaguardar a vida humana. Mas episódios como esse colocam em xeque o correto cumprimento das normas e fazem cada país olhar para os seus próprios riscos.

O “safety first” (segurança primeiro) é a principal regra estampada nos veículos de transporte, tanto aquaviário quanto aeroviário. A movimentação de cargas é regulamentada por diversas agências, como a IMO a IATA (siglas em inglês das poderosas Organização Marítima Internacional e Associação Internacional de Transporte Aéreo), responsáveis respectivamente pela IMDG – International Maritime Dangerous Goods Code e pela DGR – Dangerous Good Regulations.

“Como um player global importante no comércio exterior, o Brasil é signatário de acordos internacionais. Somos bastante aplicados na fiscalização das boas práticas de segurança no transporte de cargas perigosas, com a atuação de agências reguladoras como a ANAC, a ANTAQ e a ANTT, que respondem pelas atividades no setor aéreo, aquaviário e rodoferroviário”, diz Souza, que atua como gestor operacional da Pinho, empresa paranaense com grandes clientes na área de gestão logística internacional, com experiência na importação de cargas químicas, inclusive o nitrato de amônia.

O país também tem organizações que formam técnicos especializados em normas e protocolos destinados a garantir a segurança das pessoas, da natureza e das cargas que entram e saem do país, e também das que circulam internamente. Entre elas, algumas bem conhecidas como os comandos de Bombeiros, o Inmetro, a Polícia Federal e o Exército. Instituições como o SEST/SENAT, do Sistema S, promovem cursos e treinamentos que certificam profissionais e empresas.

“Saber qualificar e etiquetar a mercadoria, enquadrá-la na classe de risco correta, é fundamental para que se possa emitir os documentos instrutivos para fazer transporte de cargas especiais”, esclarece. Há diferentes níveis de risco a serem avaliados e a experiência mostra que nada pode ser negligenciado. “O milho, por exemplo, não é um material tóxico ou perigoso. Mas se for mal armazenado produz gases que podem explodir dentro de um silo. E hoje há uma série de normas e cuidados para evitar esse tipo de acidente. Quem desconfiaria de um refrigerante como elemento perigoso? Mas ele é corrosivo e seu transporte por avião é cercado de cuidados especiais.”

O fato é que o mundo vem aprendendo com episódios dramáticos, que chamam a atenção para novas cautelas, e a tragédia de Beirute certamente será um deles. O atentado terrorista do 11 de setembro, nos Estados Unidos, foi um divisor de águas na regulamentação internacional de cargas perigosas. “Protocolos mais rigorosos foram criados e nenhum país faz negócio com os americanos se não seguir a legislação que combate o tráfico de entorpecentes, o terrorismo e a pirataria”, comenta.

Em 2019, o Departamento de Transportes dos EUA e a Administração Federal de Aviação decidiram proibir o armazenamento de células de lítio ou baterias como carga em avião de passageiros. A medida serve para proteger viajantes de incêndios e explosões como a que derrubou um avião da Malaysia em 2014. No Brasil, a explosão do navio chileno Vicunha, no Porto de Paranaguá, em 2004, só não teve desdobramentos piores por causa de procedimentos que permitiram à tripulação desconectar uma mangueira comprometida, que levava combustível para um tanque em terra, lembra Souza, que trabalhava naquele dia na região e acompanhou de perto o acidente.

Além do respeito às normas internacionais, a segurança no manejo, transporte e armazenagem de cargas especiais também está ligada a outros aspectos. “A melhor modalidade de operação é quando toda a logística está sob o guarda-chuva de um único operador. As operações conhecidas como door to door, em que pegamos a mercadoria na porta do cliente e entregamos ao destino final, são a melhor forma de reduzir os pontos de contato com diferentes prestadores de serviço, reduzindo a possibilidade de haver erros e omissões”, acrescenta.

Compartilhe:
Veja também em Conteúdo
Propostas para fortalecer a logística brasileira são apresentadas pela ABOL aos presidenciáveis
Propostas para fortalecer a logística brasileira são apresentadas pela ABOL aos presidenciáveis
BBM Logística nomeia Max Roberto da Silva como diretor comercial para integrar áreas e unidades de negócios
BBM Logística nomeia Max Roberto da Silva como diretor comercial para integrar áreas e unidades de negócios
Terminal de Vila do Conde, PA, reduz em 80% espera de navios após investimentos da Ultracargo
Terminal de Vila do Conde, PA, reduz em 80% espera de navios após investimentos da Ultracargo
Grupo Multilixo adquire RCR Ambiental e amplia atuação em gestão de resíduos e setores regulados
Grupo Multilixo adquire RCR Ambiental e amplia atuação em gestão de resíduos e setores regulados
Viracopos conquista certificação da ANVISA em Boas Práticas de Armazenagem para logística farmacêutica
Viracopos conquista certificação da ANVISA em Boas Práticas de Armazenagem para logística farmacêutica
Jamef, JSL, Braspress, Hidrovias do Brasil, Mercado Livre e Santos Brasil ampliam vagas no setor logístico
Jamef, JSL, Braspress, Hidrovias do Brasil, Mercado Livre e Santos Brasil ampliam vagas no setor logístico

As mais lidas

01

FedEx transforma uniformes em mais de 6 mil cobertores com programa de reciclagem
FedEx transforma uniformes em mais de 6 mil cobertores com programa de reciclagem

02

APS assina contrato para sistema de gerenciamento do tráfego marítimo no Porto de Santos
APS assina contrato para sistema de gerenciamento do tráfego marítimo no Porto de Santos

03

Começa amanhã a Logistique 2026, voltada para logística, transporte multimodal e comércio internacional
Começa amanhã a Logistique 2026, voltada para logística, transporte multimodal e comércio internacional