Para onde deve estar o olhar do gestor de logística em 2026 no Brasil?

Adriana Bueno oferece uma análise clara e objetiva sobre onde deve se concentrar o olhar do gestor de logística em 2026 no Brasil. Em um cenário marcado por transformações tecnológicas, pressões operacionais e comportamentos distintos entre os principais setores da economia, a autora destaca como a visão estratégica e integrada será decisiva para o sucesso das operações logísticas no país.

Tecnologia, estratégia, processos, skills e a visão necessária frente aos grandes setores da economia

A logística brasileira entra em 2026 com mudanças profundas, impulsionadas por digitalização, pressão de custos, maior exigência dos clientes e uma economia que se move de maneira assimétrica entre indústrias. O gestor de logística precisa compreender que cada setor econômico tem seus próprios desafios estruturais — e isso altera tanto a estratégia quanto a tecnologia a ser adotada.

O novo líder logístico deve transitar entre análise de dados, visão sistêmica, integração digital e resiliência operacional, ajustando essas capacidades ao contexto setorial.

A seguir, uma visão contundente: onde precisa estar o olhar do gestor em 2026, sob a perspectiva dos setores que impulsionam o PIB brasileiro.

Para onde deve estar o olhar do gestor de logística em 2026 no Brasil?

1. Agronegócio: logística para grandes distâncias e janelas críticas

O agronegócio segue como grande motor da economia brasileira, representando mais de 25% do PIB. Para o gestor logístico desse segmento, o olhar em 2026 deve estar em:

• Infraestrutura multimodal inteligente

O aumento da capacidade ferroviária e hidroviária exige integração mais profunda entre modais e sistemas TMS multimodais para reduzir dependência do modal rodoviário.

• Previsibilidade em janelas de safra

A IA preditiva será crucial para:

– prever janelas de colheita,

– antecipar gargalos em portos,

– modelar rotas alternativas,

– ajustar capacidade de frota e armazenagem temporária.

• Monitoramento avançado e compliance sanitário

IoT e telemetria são obrigatórios para controlar temperatura, umidade e integridade do produto, especialmente em proteínas, sementes e perecíveis.

• Gestão de custos altamente variável

Fretes indexados, volatilidade de combustíveis e longas distâncias exigem modelagem analítica forte para evitar erosão de margem.

O gestor de logística do agro em 2026 precisa ser um gestor de risco, acima de tudo.

2. Bens de Consumo: velocidade, capilaridade e consistência.

O mercado de bens de consumo (FMCG) seguirá pressionado pela demanda por agilidade e disponibilidade de produto.

• OTIF e Fill Rate como diferenciais competitivos

Comércio e varejo penalizam cada vez mais falhas de entrega.

O gestor precisa integrar vendas + Supply + transporte para garantir consistência de abastecimento.

• Centros de distribuição mais próximos do consumidor

A descentralização logística exige:

– micro hubs,

– dark stores,

– rotas urbanas otimizadas,

– estoque mais inteligente.

• Automação dentro dos CDs

Sorters, AMRs (robôs móveis) e conferência inteligente reduzem erros e aceleram o fluxo.

• Sustentabilidade praticável

Empresas precisam mensurar emissões e mostrar redução real para varejistas e consumidores.

Aqui, o olhar do gestor é: como ser rápido, preciso e sustentável ao mesmo tempo.

3. E-commerce: eficiência total, last mile e custo por pedido

O e-commerce cresce, mas o desafio agora é rentabilidade.

• Last mile sob pressão extrema

O gestor precisa trabalhar:

– lockers,

– entregas programadas,

– rotas inteligentes,

– consolidação urbana,

– crowdsourcing profissionalizado.

• Estoque distribuído e fulfillment híbrido.

O grande dilema: como reduzir custo sem perder velocidade?

Digital twins e algoritmos de posicionamento de estoque serão decisivos.

• Gestão do volume de devoluções (reverse logistics)

A logística reversa explodiu.

Automação e centralização do fluxo de retornos são vitais.

• Monitoramento de qualidade da experiência (QoE)

UX logístico passa por:

– rastreamento claro,

– comunicação proativa,

– transparência total.

No e-commerce, o olhar é: como entregar mais, mais rápido, gastando menos.

4. Indústria Química e Petroquímica: segurança, compliance e alta criticidade

Logística química é sensível, regulada e complexa.

• Compliance como eixo central

Gestores precisam olhar para:

– protocolos de NRs,

– documentação digital,

– compatibilidade de carga,

– restrições ambientais,

– auditorias em transportadoras.

• Transporte especializado e monitoramento 24/7

Telemetria avançada, sensores de pressão, temperatura, vibração e rota, além de inteligência de risco georreferenciada.

• Minimização de estoques com máxima confiabilidade

A indústria química exige abastecimento preciso para evitar parada de linha.

Aqui o olhar é: segurança + continuidade operacional.

5. Mercado de Tecnologia: velocidade e SLAs rígidos

Equipamentos, data centers e componentes eletrônicos exigem uma logística com foco em precisão.

• Entregas técnicas e white glove

Muitos produtos precisam de:

– instalação,

– configuração,

– transporte sem vibração,

– áreas limpas.

• Risco zero de avarias ou extravios

Rastreamento ultradetalhado e roteirização inteligente reduzem riscos.

• Integração digital ponta a ponta

Nesse setor, sistemas desintegrados simplesmente não funcionam.

O olhar do gestor aqui é: precisão absoluta e experiência premium.

6. Outros Setores (Farmacêutico, Automotivo, Construção, Moda, etc.)

Farmacêutico

– Cadeia fria avançada

– Rastreabilidade compulsória

– Rigor extremo em prazos e integridade

Automotivo

– Just in Time + Just in Sequence

– Logística interna automatizada

– Redução de paradas de linha

Construção

– Projetos de alta complexidade

– Entrega programada

– Controle sobre operações pesadas

Moda e Vestuário

– Altíssima sazonalidade

– Volumes não lineares

– Devoluções intensas

7. As Skills e Competências do Gestor de Logística 2026

Independente do setor, o gestor precisa dominar:

• Análise de dados e modelagem de cenários

Não existe decisão logística sem número.

• Liderança colaborativa

Integra comercial, compras, indústria e transporte.

• Pensamento sistêmico

Entender como cada setor se conecta ao Supply Chain.

• Digital fluency

IA, automação, IoT, integração e analytics são o novo básico.

• Gestão de risco

Clima, custos, mercado, abastecimento, mão de obra, segurança.

Conclusão: 2026 exige um gestor democrático em visão e radical em eficiência

O gestor de 2026 precisa enxergar o Brasil como ele realmente é: um país de múltiplos setores, com múltiplas necessidades e múltiplas pressões logísticas.

Seu olhar deve ser:

– tecnológico,

– analítico,

– setorialmente inteligente,

– colaborativo,

– orientado ao cliente,

– voltado para custo e eficiência,

– e profundamente humano.

Quem conseguir integrar esses elementos será protagonista da nova logística brasileira.

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Adriana Bueno

Adriana Bueno

25 anos de experiência profissional em Supply Chain, com atuação em diferentes segmentos: bens de consumo, químicos, agronegócio e varejo (incluindo cadeia de frio). Líder de equipes de alta performance com foco em resultados e desenvolvimento humano. Responsável por implantação de novos fluxos operacionais, processos, controles e governança. Gestão de Operações, Orçamento e Projetos. Ações de Inovação. Expertise em Route to Market e Gestão do Ciclo do Pedido (Order to Cash/Order to Delivery) para otimização de custo logístico total. Estratégia de Compras e Suprimentos. Ciclo S&OP. Fortaleza em Governança Corporativa, Compliance e ESG. Expertise em reestruturação de áreas funcionais, definição e revisão de bases processuais e requerimentos técnicos de sistemas, gestão de indicadores e performance. Grande conhecimento em Distribuição Nacional, Last Mille, 4PL e Malha Logística. Consultoria em Projetos de Estruturação Logística. Customer Success para clientes estratégicos. Engenheira Agronômica pela Universidade Estadual Paulista – UNESP, com pós-graduação em Gestão de Logística Empresarial pela FAAP e MBA em Gestão de Negócios e Inovação pela FIA – USP.

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