Ocupação ou Saturação

Integrado na coluna do Portal Logweb, o artigo de Felipe Montini de Abreu analisa a diferença entre ocupação e saturação de um centro de distribuição e os critérios que devem orientar decisões sobre expansão, verticalização e automação.

Seu CD está cheio — ou apenas mal dimensionado?

Ocupação não é saturação. Antes de alugar mais espaço, verticalizar ou automatizar, é preciso entender qual capacidade realmente está faltando.

Alugamos piso, mas usamos volume.

Seu CD tem 10.000 m². Você alugou 120.000 m³?

A pergunta parece estranha, mas é assim que deveríamos discutir capacidade: o imóvel é alugado por metro quadrado, mas a operação usa volume. Um CD de 10.000 m² com grande altura útil pode ter capacidade muito diferente de outro com a mesma área e menor pé-direito — ou com mais espaço comprometido por picking, staging e circulação.

E o mercado mostra o custo dessa decisão. Segundo a JLL, o preço médio pedido dos galpões de alto padrão chegou a R$ 30,70/m² por mês ao fim de 2025; no 1º trimestre de 2026, a vacância nacional caiu para 6,5%, menor patamar da série histórica, com 77% do novo estoque já pré-locado.

Antes de concluir que “precisamos de um CD maior”, portanto, vale perguntar: quanto da capacidade que já temos está realmente sendo utilizada?

Ocupação não é saturação

Ocupação é uma medida física. Saturação é uma condição operacional.

Podemos ter quase todas as posições ocupadas e ainda assim conseguir receber, movimentar, separar e expedir. E podemos ter espaço disponível e não conseguir nada disso, porque circulação, picking, staging e movimentação interna já estão estrangulados.

A faixa de 80% a 90% aparece como referência de alerta, usada para preservar flexibilidade. Não é uma regra universal: SKU, variabilidade da demanda, layout e processo mudam a resposta.

O sintoma aparece no armazém antes do relatório: o palete demora para chegar à posição; um movimento vira dois; o mesmo SKU se espalha em posições parciais; a carreta vira estoque no pátio; e as horas extras crescem sem aumento proporcional do volume expedido.

Quando esses sinais se acumulam, a operação pode estar saturada mesmo com 85% de ocupação.

Verticalizar: o que sobe e a que custo?

Quando falta capacidade, a primeira alternativa nem sempre deveria ser procurar outro imóvel. Talvez exista espaço acima da nossa cabeça.

Verticalizar aumenta a capacidade sem ampliar a área ocupada. Mas mais posições não significam mais capacidade operacional: se SKUs de alto giro sobem demais, ganhamos armazenagem e perdemos tempo no acesso. O problema deixa de ser “onde guardar?” e passa a ser “quanto custa acessar?” — porque um CD não existe apenas para armazenar: ele recebe, movimenta, separa e expede.

Por isso, a melhor posição não é a que maximiza paletes, mas a que equilibra capacidade, acessibilidade e produtividade — lógica da curva PQR, que leva os SKUs mais populares às zonas acessíveis e o estoque de menor giro às posições altas.

A ASCM usa picks per hour como indicador de produtividade: 120 a 175 peças ou caixas por hora para um operador médio e mais de 250 em operações best-in-class. Tecnologias como voice picking podem elevar a taxa de separação em cerca de 30%. A posição do SKU na vertical mexe justamente nesse indicador: cada metro a mais entre o item e o operador é tempo somado ao ciclo de separação.

De que adianta ganhar armazenagem se perdemos produtividade no processo que alimenta a expedição? A decisão, portanto, não é “subir ou não subir”, mas definir o que sobe: classificar os SKUs por giro, peso e volume antes de projetar a altura evita transformar ganho de posições em perda de produtividade. Definido o que vai para o alto, resta a pergunta que a estrutura não responde: quem alcança essas posições?

Movimentação vertical: o equipamento define o teto

Verticalizar é também uma decisão sobre equipamento: a altura só vale se a máquina alcança — e cada equipamento impõe uma largura de corredor, alterando quantas posições cabem na mesma área.

Contrabalançada exige corredores mais largos; retrátil permite maior densidade; trilateral trabalha em corredores estreitos e alcança grandes alturas. A escolha, porém, envolve piso, guiamento, velocidade e custo por movimento.

Na prática, “até que altura vamos?” é outra forma de perguntar: “qual equipamento vamos operar — e a que custo por movimento?”

Porta-paletes, mezanino ou automação?

O erro é escolher a tecnologia antes de definir o problema. Se o gargalo é capacidade de pallets, porta-paletes mais altos resolvem. Se é densidade e não seletividade, drive-in, push-back ou dinâmico ampliam posições. Se há muitos SKUs e alto volume de caixas, um mezanino cria um segundo nível de picking na mesma planta.

Já VLMs, AS/RS e sistemas goods-to-person podem combinar densidade e produtividade, mas exigem análise de investimento, manutenção, processo e estabilidade da demanda.

Não existe solução universal. Verticalizar não significa automatizar, e automatizar não significa verticalizar. A pergunta deve ser: qual gargalo estamos tentando eliminar?

 O que ganhamos — e o que perdemos?

Verticalização pode trazer mais posições, melhor aproveitamento do pé-direito e a postergação de uma expansão. Mas cobra em produtividade de picking, velocidade de acesso, flexibilidade e investimento.

Por isso, a comparação não é apenas “porta-paletes versus aluguel”. Ao preço médio de São Paulo de R$ 30,54/m² por mês no fechamento de 2025, segundo a Cushman & Wakefield, 2.000 m² adicionais custam cerca de R$ 61 mil por mês — mais de R$ 730 mil por ano, antes de condomínio e IPTU.

É contra esse fluxo recorrente que o investimento em verticalização precisa ser comparado — e a assimetria é esta: estrutura, equipamento e adequação de piso são desembolso único e amortizável; o aluguel de área adicional se repete todo mês, corrigido, enquanto o contrato durar. A pergunta, portanto, é quanto custa cada unidade adicional de capacidade — e por quanto tempo esse custo se repete.

Crescer por fases

O CD não precisa nascer no tamanho final — e a operação também não.

Fasear capacidade é diferente de fasear área: deixar o piso e o pé-direito preparados para verticalizar depois, redistribuir SKUs antes de comprar estrutura, ajustar o picking antes de automatizar. Cada fase resolve o gargalo do momento sem inviabilizar a seguinte.

A vantagem é essa. Cada etapa é decidida com o dado da anterior — e nenhuma delas exige acertar hoje o tamanho que a operação terá em cinco anos.

Conclusão

A discussão sobre ocupação não deveria começar com “quantos metros quadrados precisamos?”, mas com “qual capacidade precisamos entregar — e qual é a melhor forma de construí-la?”.

Às vezes será mais área; às vezes, mais altura. Em outras, um mezanino, um novo modelo de picking, uma redistribuição de SKUs, automação ou simplesmente melhor aproveitamento do espaço que já se paga.

Ocupação é uma fotografia; saturação é o efeito que essa ocupação provoca na operação.

Seu CD está realmente cheio — ou você simplesmente ainda não aprendeu a usar o espaço que já está pagando?

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Felipe Montini de Abreu, Andersen, Colunista

Felipe Montini de Abreu

Engenheiro, com MBA em Gestão de Projetos e Automação Industrial. Possui mais de 10 anos de experiência em Logística e Supply Chain, atuando em empresas como DHL Express, UPS Healthcare (BOMI Group) e Golden Cargo. Liderou projetos de otimização operacional, desenho de operações, custos, produtividade e layout de armazéns, com foco em eficiência, fluxo e melhoria contínua. É consultor na Andersen Consulting

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