Novos valores para a educação e a capacitação de pessoas

No seu novo artigo, Paulo Roberto Guedes – colunista do Portal Logweb – reflete sobre os novos valores que devem orientar a educação e a capacitação de pessoas, à luz das reflexões do cientista Marcelo Gleiser sobre ética, sustentabilidade, consciência social e o papel das organizações no futuro da humanidade.

O cientista Marcelo Gleiser (1), ao defender que a única esperança da humanidade, para vencer a crise ambiental atual, “é repensar nossa relação com a história e com o mundo”, de tal forma que tenhamos condições de desenvolver um jeito melhor de nos relacionar com o universo.

É essencial que nos mobilizemos, continua Gleiser, “contra o sofrimento desnecessário de tantas comunidades espalhadas por todo o mundo, contra o sofrimento e o abuso dos animais e o desespero silencioso das florestas, que continuam sendo cortadas e queimadas sem trégua”.

Para tanto, dois obstáculos precisam ser superados: a de que o homem está “acima da natureza, acima de todas as outras formas de vida, como os donos do planeta” e mudar a postura global que ainda está a favor do “material em detrimento do espiritual”. E aqui é preciso esclarecer o sentido da palavra espiritual, que vem do latim “spirare” (respirar) e que significa “aquilo que nos inspira” (2).

Uma das críticas de Gleiser, entre outras apresentadas, é a de que a civilização, como a conhecemos atualmente, trouxe grande prosperidade, mas muito especificamente para um subgrupo da população mundial, “criando, também, uma enorme disparidade econômica e devastação ambiental. O que trouxe riqueza para alguns trouxe miséria para muitos outros” (grifos meus). Recomenda-se, portanto, lutarmos “contra o que fomos no passado para criar um novo futuro para todos”.

Precisamos esclarecer, continua Gleiser, que “não é o homem que é primário, mas a Terra”. E se por mais de dez mil anos, tratamos a Terra como sendo nossa propriedade, assim como seus recursos, e “o seu uso o nosso direito”, chegamos à situação atual – e crítica –, na qual se constata “que tal atitude é moralmente injusta e economicamente insustentável” (3).

Agora, neste início de ano, Gleiser lançou um novo livro (4), no qual defende a “criação de um espaço no qual pessoas que pensam diferente, possam conversar, um espaço de convergência civilizada”. Fundamental, segundo ele, posto que o “mundo e as grandes empresas da mídia digital, controladas por cinco ou seis grandes grupos, fazem o contrário”, pois “elas tentam robotizar as pessoas, tirar essa visão mais ampla da realidade e criar o que chamo de uma escravidão digital. Quanto mais você busca um assunto, mais recebe ofertas para mergulhar mais fundo nele. Isso é um buraco negro. Você entra e começa a ter uma visão monolítica da realidade” (grifos meus).

Estou fazendo esses comentários, pois tem sido muito comum, hoje em dia, novas propostas sobre educação e capacitação de pessoas. Entretanto, e lamentavelmente, após diagnósticos semelhantes, os modelos e as receitas sugeridas, embora parcialmente corretas e muito parecidas, quase nunca se ocupam dos temas aqui mencionados.

É óbvio que a pandemia e os grandes conflitos mundiais da atualidade obrigaram quase todos os países do mundo reconhecerem quão frágil é a situação econômica e social, e consequentemente política, do mundo atual. O conjunto crescente de mobilizações a favor da vida, do meio ambiente, da natureza, da saúde e da igualdade e contra o racismo e todos os tipos de discriminação indica essa percepção de vulnerabilidade do ser humano.

Apesar de alguns “retrocessos” e as exceções de sempre, muitos foram os especialistas, políticos e líderes, dos mais diversos setores da atividade humana, que ao compreenderam a situação alcançada, posicionaram-se a favor da humanidade e da melhoria do bem-estar de todos.

A própria ONU, na Assembleia Geral que comemorou seu 75º aniversário, ao desenvolver o tema “O futuro que queremos”, não teve dúvidas ao estabelecer suas prioridades. Pela ordem foram: (a) acesso a serviços de saúde, água, saneamento e educação, (b) mais solidariedade internacional e apoio aos lugares mais impactados pela pandemia, (c) enfrentamento às mudanças climáticas, (d) combate à pobreza, à corrupção, à violência e ao desemprego e respeito aos direitos humanos. Faz parte da Agenda 2030 da ONU, por exemplo, difundir ao máximo o conceito de “economia circular”, conceito que implica em se desenvolver modelos de produção e consumo que reduzam a dependência em relação a recursos naturais não renováveis e ainda auxilie na diminuição da degradação ambiental e da produção de resíduos. 

Investidores e empresários, inclusive, já defendem vários desses conceitos, tais como “economia circular”, “economia da vida”, “capitalismo consciente” e “ESG”. Paralelamente, consumidores, principalmente os mais jovens, estão preferindo adquirir bens e serviços de empresas que, além de valores morais e éticos já consagrados pela sociedade, também pratiquem atividades que podem ser caracterizadas como de “responsabilidade social”. São consumidores que se dispõem, inclusive, a pagar mais por produtos e serviços oriundos de empresas com essas características.

Não à toa, bolsas de valores em todo o mundo divulgam índices para classificar as empresas, por exemplo, baseado na aplicação do conceito “ESG”, posto que há uma clara exigência dos investidores para que as empresas passem a praticá-lo. São diversos os exemplos em todo o mundo, de bancos que apenas emprestam, financiam ou realizam investimentos em empresas com o “Green Bond”, isto é, selo de sustentabilidade. Conclui-se, portanto, se já era essencial que investidores avaliassem os riscos econômicos e financeiros de suas aplicações, agora passou a ser fundamental, também, optar por investimentos que consigam dar algum tipo de resposta às demandas aqui comentadas.

Nota-se, consequentemente, quaram a ser um excelente negócio e fundamental para aumento de competitividade. Não há dúvidas, pois se nos planos de negócios é necessário considerar, por exemplo, o risco climático ou a eventualidade de novas pandemias ou guerras, essencial é ocupar-se de tarefas que diminuam essas possibilidades ao máximo. Motivos mais do que suficientes para transformar a governança ambiental em assunto estratégico. É o mundo empresarial, espera-se, fazendo a sua parte!

Não há dúvidas, pois, que esses aspectos, talvez diferentemente de outras épocas, precisarão ser devidamente considerados quando as empresas forem planejar o futuro. Temas voltados à proteção e à segurança das pessoas, à descarbonização, ao aumento da resiliência, à necessidade de se reduzir as exposições a riscos, apenas como alguns exemplos, alcançarão, em quaisquer agendas, importância muito maior do que antes. Será necessário revisar, inclusive, os sistemas de seguro, de financiamento, de auditoria e de controle, de tal forma que se introduzam indicadores para retratar os temas aqui abordados. E em especial quando relativos aos próprios funcionários, posto que manter trabalhadores bem cuidados, além de ser uma atitude correta e digna, também aumenta a produtividade empresarial.

É cada vez mais perceptível que essas novas práticas precisam atender as exigências dos “stakeholders”, uma vez que fazer o que é certo está no radar de acionistas, funcionários, clientes, fornecedores e de toda a sociedade no qual essas empresas estão inseridas. Aliás, pelo que demonstram algumas pesquisas, os líderes e executivos empresariais de todo o mundo, principalmente os brasileiros, percebem que “ocupar-se com a sustentabilidade” é uma forma de “impulsionar os negócios e ganhar mercado”. Isso tem direcionado mais investimentos na defesa da sustentabilidade, o que, implica dizer, na busca da diminuição dos eventuais impactos negativos de suas atuações, sob todos os aspectos.

Entretanto, se bem que não se podem ignorar as considerações feitas com relação à mportância econômico/financeira dessas práticas, uma vez que implicam em aumento de competitividade empresarial, vale ressaltar os aspectos éticos, morais e de responsabilidade social envolvidos.

Em artigo (“Três chaves para uma recuperação pós-pandemia resiliente”) escrito por Klaus Schwab e Bob Sternfels e publicado no site das Mckinsey dia 18.02.22, fica claro que “além de construir resiliência nos negócios e na economia, os líderes públicos e privados também devem construir resiliência social”. Ora, o que isso significa? Que o crescimento sustentável e inclusivo está muito “além da melhoria do desempenho empresarial e econômico”, posto que é preciso contribuir “para a reparação e sustento do ambiente natural”, na medida em que isso enriquece “países de baixa renda e realmente melhora a vida e os meios de subsistência de segmentos populacionais historicamente marginalizados”. 

Já escrevi por diversas vezes que não há qualquer dúvida quanto aos impactos diários causados pelas ações de executivos empresariais, sejam eles nos aspectos sociais, econômicos, tecnológicos, políticos ou ambientais, mas é essencial que, no mínimo, esses executivos os compreendam e tenham plena consciência de seus efeitos na sociedade como um todo. É necessário eliminar, sempre que possível, todo e qualquer impacto negativo. 

Executivos e dirigentes empresariais, além de “compreender o quanto é grandioso trabalhar para o sucesso e para a sobrevivência de seus subordinados, seus familiares, suas empresas e seus países”, também precisam “entender os reais impactos de nossas ações junto a toda a sociedade, e não somente junto às nossas empresas”, pois ao final de tudo, de um jeito ou de outro, essas ações impactam – para o bem ou para o mal – a vida de milhões de pessoas.

Portanto, a educação e a capacitação das pessoas, desde a infância, “devem incluir a história do universo e da vida em seus currículos, beneficiando alunos de todas as idades e ampliando detalhes para estudantes mais velhos” (Marcelo Gleiser).

Mas é preciso um movimento global no sentido de sensibilizar as pessoas para essa necessidade, pois como escreveu Gleiser, “todo indivíduo tem um papel a cumprir. Por sorte, esse papel não requer os sacrifícios de uma revolução sangrenta. Em vez de pagarmos com nossas vidas, celebramos e preservamos a vida, alinhando nossos valores e ações segundo três princípios: o princípio do menos, para garantir a sustentabilidade; o princípio do mais, para nos reaproximar do mundo natural; e o princípio da consciência na compra e no consumo de produtos e bens”

Maximizar o valor da empresa, agora e no futuro, é um dos principais objetivos empresariais, mas é dever compreender a respeito dos problemas que estão além, posto que os riscos de um pequeno desleixo, notadamente com relação aos temas aqui expostos, poderão provocar danos ainda maiores. Mas muito maiores.

(1) “O despertar do universo consciente” – Um manifesto para o futuro da humanidade (Record, 2024), livro de Marcelo Gleiser, cientista brasileiro e professor titular de Filosofia Natural, Física e Astronomia na Faculdade de Dartmouth College (USA).

(2) “Todo ser humano é um ser espiritual. Precisamos viver vidas com propósito, passar por experiências transformadoras que nos levem ao transcendente, aqueles raros momentos em que, abertos emocionalmente, nos deparamos com o sagrado”.

(3) Sabe-se, por exemplo, que o aumento da temperatura, as inundações e os deslizamentos de terra ou a falta de água quase sempre são causados pela ação do ser humano, assim como o aumento da emissão de CO2 e outros gases de efeito estufa, do desmatamento e dos incêndios florestais. O aumento do calor, por exemplo, gera baixa produtividade dos trabalhadores que operam ao ar livre, enquanto que inundações, seja pelo excesso de chuvas ou do avanço dos oceanos, implicam em danos físicos irreversíveis ou cuja recuperação é de altíssimo custo. Óbvio que as correspondentes interrupções dos processos de produção, com impactos e frequência maiores, desestruturam as cadeias de abastecimento e desorganizam quase toda a economia. Aumentos de custos e de preços, e certa generalização no processo inflacionário serão sentidos por todos.

(4) “Mentes brilhantes não pensam igual”, publicado pela Record (2026) é o livro mais recente de Marcelo Gleiser.

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Paulo Roberto Guedes

Paulo Roberto Guedes

Consultor Empresarial

 

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