Em um cenário logístico cada vez mais pressionado por eficiência e redução de custos, o Compliance no Supply Chain assume papel estratégico nas organizações. Adriana Bueno, colunista do Portal Logweb, destaca que a integridade é fator decisivo para mitigar riscos, proteger a reputação e fortalecer a governança na logística moderna.
Em um cenário onde eficiência operacional, redução de custos e performance são prioridades constantes, falar de Compliance no Supply Chain ainda causa certo desconforto. Muitas vezes tratado como um tema jurídico ou burocrático, ele é, na prática, um dos principais pilares de sustentabilidade e reputação das organizações.
Quando analisamos a cadeia como um todo — da área de Compras à Logística, passando por armazenagem, transporte, distribuição e gestão de terceiros — percebemos um ponto sensível: são áreas intensivas em negociação, volume financeiro e relacionamento com fornecedores. E onde há dinheiro, pressão por resultado e autonomia operacional, há risco.

A questão central é clara: o maior agente de risco não é o processo. É a conduta humana.
Por que Logística e Compras são áreas críticas?
Supply Chain lida diariamente com:
– Contratação e gestão de fornecedores
– Negociação de fretes e tabelas tarifárias
– Reajustes contratuais
– Definição de rotas e modais
– Pagamentos e validações financeiras
– Gestão de multas, exceções e contingências
Esse ambiente é naturalmente suscetível a desvios quando coexistem:
– Falta de segregação de funções
– Controles frágeis ou inexistentes
– Auditorias esporádicas
– Metas agressivas sem balizas éticas claras
– Cultura permissiva ao informalismo. Não é raro que o problema não surja da má-fé inicial, mas da combinação entre oportunidade e racionalização. Quando o ambiente facilita, o desvio encontra espaço.
– Riscos práticos na operação logística
– Direcionamento de fornecedores: A seleção de um transportador ou operador logístico pode ser contaminada por interesses paralelos. O favorecimento indevido, muitas vezes justificado como “parceria estratégica”, pode esconder benefícios pessoais ou relações de conveniência.
O impacto vai além do custo. Afeta a competitividade, a qualidade do serviço e a reputação institucional.
A pergunta que deveria sempre ser feita é: essa escolha foi técnica ou relacional?
– Manipulação de tabelas de frete
– A complexidade tarifária é um campo fértil para inconsistências. Entre contrato, pedido, CTE e pagamento, podem surgir:
– Reajustes não formalizados
– Inclusão de taxas indevidas
– Divergências de cálculo
– Pagamentos acima do contratado
– Sem cruzamento estruturado de dados e auditoria contínua, essas distorções passam despercebidas e se acumulam silenciosamente.
– Conivência operacional
– Há também o risco da omissão: gestores que deixam de registrar não conformidades para evitar conflitos com fornecedores ou preservar prazos.
– Ignorar falhas recorrentes, documentação irregular ou descumprimento de SLA pode parecer pragmatismo operacional, mas é, na prática, institucionalização do risco.
– Vulnerabilidades em armazenagem e inventário
Ajustes indevidos de estoque, lançamentos sistêmicos inconsistentes e conluio entre operadores e terceiros são exemplos clássicos quando não há inventários rotativos frequentes, trilhas de auditoria e supervisão adequada.
Nesse contexto, a ausência de controle é convite ao desvio.
O fator humano: a raiz do problema
Diversos estudos sobre fraude organizacional apontam três elementos recorrentes:
– Pressão por resultado
– Oportunidade criada pela fragilidade dos controles
– Justificativa moral (“ninguém será prejudicado”, “sempre foi assim”)
Na Logística, a pressão por reduzir custo, garantir prazo e manter fornecedores operacionais é constante. Quando essa pressão não é acompanhada de governança sólida, cria-se o ambiente perfeito para decisões equivocadas.
O desvio raramente começa grande. Ele se inicia pequeno, tolerado, justificado — até se tornar parte da cultura.
Compliance como estratégia operacional
Implementar Compliance em Supply Chain não significa burocratizar a operação. Significa protegê-la.
Alguns pilares essenciais incluem:
– Segregação clara de responsabilidades
– Dupla validação em contratos e reajustes
– Auditorias periódicas de fretes e pagamentos
– Homologação estruturada de fornecedores
– Monitoramento de indicadores de risco
– Canal de denúncia seguro e independente
– Código de conduta aplicado na prática
– Mais do que políticas escritas, é necessária coerência entre discurso e liderança. Cultura ética não nasce em manuais; nasce no exemplo.
O ambiente organizacional como fator decisivo
Empresas que priorizam exclusivamente resultado, negligenciam controles ou toleram pequenas irregularidades acabam sinalizando que “o fim justifica os meios”.
Em Supply Chain, essa mentalidade é especialmente perigosa. A cadeia é extensa, envolve múltiplos stakeholders e impactos financeiros relevantes. Um desvio local pode gerar consequências sistêmicas.
Compliance, portanto, não é um tema periférico. É estratégico.
Uma reflexão para o setor:
– Quantos custos logísticos classificados como “ineficiência” não escondem falhas de controle?
– Quantos contratos são renovados por conveniência, e não por performance?
– Quantos problemas poderiam ser evitados se a cultura de integridade fosse tratada com a mesma prioridade que o indicador de saving?
A Logística moderna é movida por dados, tecnologia e performance. Mas sua sustentabilidade depende de algo mais profundo: integridade.
Eficiência sem ética é um risco silencioso.
Governança sem aplicação é apenas retórica.
No Supply Chain, a verdadeira vantagem competitiva não está apenas em reduzir custos ou acelerar entregas. Está em construir uma operação sólida o suficiente para resistir a tentações invisíveis.
E isso começa nas pessoas.










