Um CD organizado é meio caminho andado

03/08/2022

Eneas Zamboni* 

 

Minha experiência no setor de logística mostra que uma operação inteligente depende de iniciativas que parecem simples em um primeiro momento, mas que envolvem alto nível de complexidade. A verdade é que, na prática, mesmo os grandes players enfrentam dificuldades para fazerem suas operações serem de fato inteligentes.

Acredito que isso aconteça porque muitos deles ainda mantém práticas comuns no varejo tradicional, que funciona de maneira distinta. No passado, quando as operações físicas não se atinham às necessidades do varejo online, olhava-se para uma grande quantidade de itens, porém com uma quantidade de SKUs menor. Porém, considerando-se as necessidades do comércio eletrônico, é preciso trabalhar com unidades, separando produtos um a um. Isso aumenta significativamente a complexidade, sobretudo com relação ao controle — o que torna a organização do CD uma premissa para que a roda gire.

A dificuldade não é por acaso. Ela existe porque tudo requer conhecimento profundo para que sejam alcançados os índices satisfatórios de produtividade – da organização dos pallets até os espaços para movimentação de mercadorias dentro do CD. São muitos os pontos críticos, mas normalmente costumo elencar como prioritários a inteligência na armazenagem, as pessoas dentro do CD, o planejamento do espaço e as tecnologias adotadas.

Sem dúvidas, a armazenagem é um dos pontos mais importantes porque pensar na facilidade que as equipes encontram para as coletas, na etapa de separação, além de contar com tecnologia para realizar este controle, é simplesmente essencial para que estes itens sejam localizados. Em uma operação que serve o comércio eletrônico e exige agilidade, isto é indiscutível. Caso os produtos não estejam bem guardados fisicamente e não haja tecnologia cumprindo esse papel, fica mais difícil achar os itens no meio de tanta mercadoria e a produtividade acaba comprometida.

Infelizmente, ainda é comum nos depararmos com grandes CDs sem essa organização básica. São locais que acabam dependendo de empilhadeiras para descer produtos de alto giro, por exemplo, o que faz com que a operação não seja fluida nem rápida. Além de tornarem o processo moroso, a dificuldade de localização de mercadorias também leva a outros problemas, como perda de itens, avarias, etc.

Além disso, muitos players ocupam 100% do CD com pallets, esquecendo-se de deixar uma área livre para movimentação de mercadorias. Quando isso acontece, não há espaço para ter inteligência de estoque, perdendo velocidade e produtividade. É como encher o tanque do carro até a boca e ver o combustível vazar. Toda vez que vejo situações como essas, recomendo ao cliente deixar um espaço livre de 10 a 15% dentro do CD para movimentação o estoque, fazer suprimentos, consolidações e agrupamentos.

Outro problema de organização é a crença de que o crescimento da operação está ligado à contratação de mais gente – tudo para garantir rapidez às etapas do e-commerce. Mas isso é quase sempre um tiro no pé: primeiro porque quanto mais pessoas se movimentando dentro de um CD e manuseando as mercadorias, mais difícil manter o estoque em ordem. No meu ponto de vista, o ideal é ter uma equipe enxuta, disciplinada e bem treinada, de forma que possa contribuir com a organização dentro do CD.

Para finalizar, ressalto que a adoção de novas tecnologias é o único caminho possível para o crescimento de forma organizada. As operações logísticas necessitam de parcerias que lhes permitam inovar. Investir em tecnologia é fundamental para permitir a expansão ordenada dos e-commerces, garantindo retaguarda estruturada para mais abrangência em todo o território brasileiro e sem custos elevados.

Vale lembrar que os pequenos, enquanto possuem operações enxutas que ocorrem debaixo dos seus olhos e dentro de suas garagens, conseguem gerenciar seus armazéns. Entretanto, para se tornar uma operação de porte médio, já existe a necessidade de verticalizar estoque. É nesse momento que se cometem erros difíceis de serem corrigidos quando ganham proporções maiores.

É hora de os varejistas perceberem que precisam se focar naquilo que sabem fazer, que é comprar, vender e negociar, e deixar as rotinas de controle de estoque, localização de itens, avarias, perdas e muito mais serem administradas por parceiros especializados em logística. Esse é o segredo para mais organização nos CDs, e consequentemente, mais inteligência na logística.

*Eneas Zamboni é CEO da UX Group

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