Sobra dinheiro, falta gestão

05/12/2011

A última pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT), divulgada ao final de outubro de 2011, mostra que 12,6% da malha rodoviária nacional estão em ótimo estado; 30% das rodovias são consideradas boas; 30,5%, regulares; e 18,1%, ruins, enquanto 8,8% estão em péssimas condições. Foram avaliados 92.747 quilômetros, o que representa 100% da malha federal pavimentada, as principais rodovias estaduais pavimentadas e as que atuam sob concessão.

Das vias sob concessão (15.374 quilômetros), 48% foram classificadas como ótimas; 38,9% como boas; 12% como regulares; 1,1% como ruins e nenhuma foi avaliada como péssima. Já entre as rodovias sob gestão pública (77.373 km), apenas 5,6% foram avaliadas como ótimas; 28,2% como boas; 34,2% como regulares; 21,5% como ruins e 10,5% como péssimas.

Segundo a CNT, em 2010, R$ 9,85 bilhões foram investidos em infraestrutura, o que corresponde a 0,26% do Produto Interno Bruto (PIB). Ainda que esse valor esteja longe de ser considerado suficiente, 2010 foi o ano em que o governo federal mais fez investimentos na infraestrutura rodoviária. Só que as condições das rodovias não melhoraram.

Em razão disso, segundo a CNT, o prejuízo causado às empresas transportadoras devido a falhas nas vias somou R$ 14,1 bilhões, ou seja, 0,4% do PIB. E, obviamente, esse custo tem sido repassado para a população com acréscimos nos valores de produtos que todos consomem. Sem contar as perdas humanas, número que não para de crescer. Só em 2010 foram mais de oito mil aqueles que perderam a vida nas rodovias federais.

Embora na prática os resultados não apareçam – ou custem a aparecer –, é de reconhecer que houve um crescimento de 27% nos investimentos feitos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no período de 2009 a 2012, em comparação com o período anterior (2005 a 2008). Até o final de 2012, a previsão é que sejam investidos R$ 28 bilhões, montante que se aproxima daquele que a CNT considera mínimo para que a situação das rodovias saia do estágio crítico em que se encontra – ou seja, R$ 32 bilhões.

Como o Estado sempre se tem revelado um péssimo gestor, os números dos investimentos não são traduzidos em segurança e competitividade. Tanto que as melhores rodovias do País, com menores índices de acidentes, são aquelas geridas por concessionárias que, em contrapartida, costumam escalpelar os usuários com pedágios a preços escorchantes.

Como se vê, a situação continua longe de ser animadora porque a matriz de transporte continua majoritariamente rodoviária, ou seja, 61,1% da carga transportada no Brasil passam por rodovias, enquanto 20,7% seguem por ferrovias, 13,6% por sistema hidroviário, 4,2% por avião e 0,4% por dutos, segundo dados da Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT). Para alterar (e procurar equilibrar) essa matriz de transporte, o governo tem investido mais em ferrovias. Os investimentos do BNDES em ferrovias são de R$ 37 bilhões para o período de 2009 a 201.

Acontece, porém, que, mais uma vez, os números, vistos sem análise detalhada, podem enganar. Embora a malha ferroviária represente 20,7% da matriz de transporte, o seu atendimento é limitado e concentrado na região Sudeste, pois 75% de carga transportada são de minério de ferro e carvão mineral.

Para piorar, o que se tem visto é que quanto mais o governo eleva o volume de seus investimentos na infraestrutura mais recursos sobram nos caixas dos ministérios. Em outras palavras: sobram recursos, faltam gestores.

Mauro Lourenço Dias é vice-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São Paulo-SP, e professor de pós-graduação em Transportes e Logística no Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Site: www.fiorde.com.br  E-mail: fiorde@fiorde.com.br

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