Santos, um porto fechado para o desenvolvimento regional

07/06/2021

Por José Manoel Ferreira Gonçalves*

Algo muito grave acontece no principal ponto de contato comercial do Brasil com o mundo.

As atividades portuárias em Santos estão sendo pautadas pelo agronegócio. Commodities chegam e partem pelo Atlântico, deixando atrás de si o caos. O movimento cresce de forma desorganizada, sem gestão, nem projeto. Os silos avançam sobre o espaço que pertence à comunidade, quase invadindo as casas de quem mora nos arredores.

Apenas as empresas de navegação, os retroportuários (transportadoras baseadas no uso de caminhões) e a empresa que monopolizou o trecho do sistema ferroviário que dá acesso ao porto de Santos são beneficiados com essa estrutura precária. Enquanto isso, o porto e a cidade estão sitiados. Santos e sua população são penalizados com esse modelo – e correm enorme risco com o que acontece na região portuária, onde são operadas e armazenadas mercadorias perigosas o suficiente para exterminar vidas e comprometer o rico habitat local.

Basta dizer que um navio tanque está atracado entre a entre a ilha Barnabé e Alemoa, sob uma constante possibilidade de explosão, o que seria catastrófico para a Baixada Santista (basta lembrar o acidente ocorrido no ano passado com o armazenamento de nitrato de amônio no Líbano). O estrago aqui seria muito maior. A embarcação em questão é um verdadeiro navio-bomba, com potencial equivalente a 55 artefatos equivalentes ao de Hiroshima. O próprio distrito industrial da Alemoa concentra outras atividades perigosas, tornando o local um verdadeiro barril de pólvora, ao lado de terminais portuários sem controle ambiental e fiscalização adequada

Outra situação gravíssima é a dos trilhos nos portos, e tende a piorar com o tratamento que o governo federal tem dado a esse tipo de transporte, deixando a cargo das empresas fazerem o que bem entendem com o restante de nossa malha ferroviária. O trem que chega até Santos poderia ser um importante vetor de integração e valorização turística, mas está entregue a interesses bem particulares.

Há ainda muitos aspectos que precisariam ser enfrentados e demandam projetos de engenharia, começando pela construção de um túnel entre Santos e Guarujá, a fim de revitalizar a margem esquerda do porto, e chegando até a melhoria de eficiência e disposição da dragagem no canal, que, aliás, está parada há quase dois meses.

O porto de Santos concentra, enfim, uma série de oportunidades de desenvolvimento regional e geração de empregos locais, hoje desperdiçadas pela omissão e negligência das autoridades, com a benção da sociedade civil, que não reage a essa incompetência oficial.

O que o porto de Santos proporciona atualmente em benefícios para a região litorânea é muito pouco para uma cidade que tem na engenharia, no legado de Saturnino de Brito e outros tantos históricos engenheiros, uma de suas maiores virtudes.

Precisamos reviver essa história e tornar o porto um lugar seguro para a cidade voltar a respirar e crescer.

*José Manoel Ferreira Gonçalves é engenheiro, jornalista, advogado, professor doutor, pós-graduado em Ciência Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, integrante do Engenheiros pela Democracia e presidente da Ferrofrente.

Compartilhe:
Consórcio investe em novos berços para ampliar eficiência na movimentação de granéis líquidos no Porto de Santos
CMA CGM e HappyRobot expandem solução global de inteligência artificial por voz para o setor logístico
Loja do Mecânico expande entrega expressa para produtos de médio e grande porte
Estaleiro Rio Grande realiza batimento de quilha do primeiro navio Handymax encomendado pela Transpetro
Diesel sobe 5% em setembro e encerra o mês 17% acima da média de janeiro, aponta TruckPag
Scania anuncia cobertura estendida de trem de força por até cinco anos na Fenatran e detalha investimentos na rede

As mais lidas

01

Estaleiro Rio Grande realiza batimento de quilha do primeiro navio Handymax encomendado pela Transpetro

02

Loja do Mecânico expande entrega expressa para produtos de médio e grande porte

03

CMA CGM e HappyRobot expandem solução global de inteligência artificial por voz para o setor logístico