Revisão da NR-1 tem impacto direto para profissionais e empresas do setor logístico

Por Andréa Simões*

De acordo com dados do Ministério da Previdência Social (MPS), em 2024 foram registradas mais de 472 mil licenças médicas concedidas para afastamentos de trabalho por ansiedade e depressão, registrando um crescimento de 68% em relação ao ano anterior e destacando-se como o maior número desde 2014. Esse cenário impacta diretamente o setor logístico, que depende de equipes operacionais e administrativas em constante ritmo de produtividade e coordenação. A saúde mental, portanto, vem deixando de ser uma pauta apenas de recursos humanos para se tornar um fator determinante de eficiência, segurança e continuidade dos serviços.

Com a recente revisão da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), cuidar da saúde mental dos colaboradores deixou de ser uma opção para as empresas e tornou-se obrigação legal. A principal alteração da norma está em exigir que os riscos psicossociais passem a integrar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), promovendo uma mudança significativa ao incluí-los entre as responsabilidades obrigatórias das companhias. O descumprimento pode gerar multas, fiscalizações, interdições e até responsabilizações trabalhistas, civis e criminais, colocando em risco a continuidade das operações.

Revisão da NR-1 tem impacto direto para profissionais e empresas do setor logístico

No entanto, diante destas mudanças, setores de alta pressão, estão diante de um marco regulatório que além de impor desafios, revela oportunidades para transformar a gestão de pessoas em uma vantagem competitiva. Essa exigência abre espaço para uma mudança cultural onde organizações que investem em prevenção, em protocolos de acolhimento e na capacitação de líderes, colherão resultados não apenas em conformidade legal, mas também em eficiência operacional.

Para isso, saúde mental e produtividade não podem ser vistas como dimensões separadas, colaboradores emocionalmente equilibrados são mais engajados, resilientes e colaborativos, qualidades fundamentais para lidar com a complexidade operacional em setores que exigem precisão e agilidade, como é o caso do setor logístico.

Saúde mental e logística de alto desempenho

Na navegação, as equipes em terra e a bordo devem ser treinadas para identificar sinais de esgotamento mental e atuar de maneira humanizada. Nesse contexto, canais de escuta ativa e sigilosos cumprem um papel essencial ao permitir que colaboradores relatem dificuldades sem receio ou estigma.

Diante disto, a revisão da NR-1 pode ser um divisor de águas para o setor. Ao incorporar o cuidado com a saúde mental às práticas de gestão, as empresas deixam de tratar o tema como despesa e passam a reconhecê-lo como investimento estratégico, capaz de gerar eficiência, segurança, além de outros diferenciais competitivos em um mercado cada vez mais exigente.

O desafio cultura, entretanto, permanece, já que o setor logístico, tradicionalmente, valoriza a resiliência e a resistência emocional, o que ainda dificulta a abertura de espaço para a vulnerabilidade e para o diálogo sobre saúde mental. A revisão da NR-1 exige justamente o oposto, líderes preparados para escutar, acolher e intervir preventivamente. No entanto, romper esse estigma requer tempo, consistência e investimentos estratégicos para prevenir crises, reduzir acidentes e manter colaboradores saudáveis, protegendo a competitividade das operações.

Mudanças e efeitos

As alterações não devem ser encaradas apenas como um desafio regulatório, mas como uma oportunidade de repensar a maneira como as empresas cuidam das suas equipes. Afinal, tratar a saúde mental como um pilar estratégico, e não apenas como cumprimento de lei, é reconhecer que produtividade e bem-estar estão intrinsecamente conectados. Diante disto, a revisão da NR-1 torna-se um convite para repensar a cultura organizacional, integrar a prevenção de riscos psicossociais à gestão estratégica e reconhecer que cuidar das pessoas é também cuidar da operação.

A implementação de programas contínuos de suporte à saúde mental, que tragam acolhimento e encaminhamento individualizado, e campanhas de conscientização com workshops, são opções que promovem a cultura do autocuidado e desmistificam tabus relacionados à saúde mental. Além disso, com a evolução digital, a coleta e a análise de dados, são considerados pontos fundamentais para monitorar o impacto das ações, permitindo ajustes estratégicos e demonstração dos benefícios para a empresa e os colaboradores.

A adequação, também requer o avanço de programas com a finalidade de contemplar riscos físicos e psicossociais de forma integrada, reforçando a prevenção e a capacitação. Por isso, para que empresas se adaptem a revisão da norma, é importante visar a estruturação deste modelo de programa como uma oportunidade para consolidar iniciativas voltadas especificamente ao cuidado mental, estimulando a saúde física, emocional e social.

Da prevenção ao resultado concreto

Essas iniciativas, quando integradas, trazem impactos positivos e resultados perceptíveis, isto porque indicadores como absenteísmo e clima organizacional, por exemplo, tendem a apresentar melhora. Quando priorizado um trabalho baseado em dados, acompanhamento contínuo e ajustes estratégicos, esse ciclo não só atende às exigências regulatórias, como também fortalece a cultura da empresa e a confiança dos colaboradores.

Para organizações que ainda não sabem por onde começar, é viável entender que não é preciso iniciar com grandes estruturas, desde que exista espaços de diálogo e escuta. A criação de canais acessíveis é um primeiro passo importante para valorização do bem-estar das equipes. Com consistência, apoio especializado, treinamentos e integração, essas ações evoluem e se consolidam como programas robustos e iniciativas estruturadas.

Empresas que investem em programas internos de desenvolvimento, capacitando lideranças e incorporando métricas de bem-estar em sua gestão, atendem à lei, e conquistam equipes mais engajadas e colaborativas, com resultados sustentáveis, e isso inclui também o aspecto financeiro. Afinal, cuidar da saúde mental daqueles que fazem parte do setor logístico é investir na força humana que move toda a cadeia de todos as indústrias.

* Andréa Simões é Diretora de Gente, Cultura e Transformação Digital da Informação na Log-In Logística Integrada, grupo de soluções logísticas, movimentação portuária, navegação de Cabotagem e Mercosul, além de atuação na ponta rodoviária.

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