Do gargalo à oportunidade: otimizar a ocupação do transporte transforma a cadeia de suprimentos 

Por Emanuela Mascarenhas Borges*

Eficiência e sustentabilidade deixaram de ser diferenciais de negócios para se tornarem premissas básicas, por isso, as cadeias de suprimentos enfrentam o desafio de conciliar custo, agilidade e responsabilidade ambiental. O transporte de mercadorias, em especial, ainda carrega gargalos que parecem invisíveis à primeira vista, mas que geram impactos significativos, seja no bolso das empresas ou na pegada de carbono que deixam no planeta.

Um exemplo recorrente está nos deslocamentos desnecessários de caminhões. De acordo com uma pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT), a média de viagens rodoviárias de retorno com os caminhões parcialmente vazios ou mesmo sem carga é de 33%. Isso aponta um sintoma claro do desequilíbrio entre pontos de origem e destino, o que amplia custos, pressiona a malha viária e aumenta as emissões de CO₂. Resolver essa equação é essencial para empresas que querem não apenas sobreviver, mas prosperar em um cenário cada vez mais exigente.

Do gargalo à oportunidade: otimizar a ocupação do transporte transforma a cadeia de suprimentos

Foi com essa visão que uma solução foi desenvolvida para reorganizar cargas e otimizar a ocupação dos caminhões. Em poucos meses de operação, o projeto já eliminou centenas de viagens e reduziu as emissões de CO₂ em quase 10%, mostrando que é possível aliar eficiência operacional e impacto ambiental positivo.

O diferencial está na lógica simples e poderosa: em vez de permitir que veículos circulem sem aproveitamento total, a solução ajusta a frequência de coleta ao volume real de cada cliente e redistribui as cargas, garantindo maior taxa de ocupação. Desta maneira, as empresas têm suas operações mais enxutas e sustentáveis, já que o ajuste na frequência permite aos clientes otimizarem seus recursos no momento da entrega e/ou da coleta, com menor quantidade de agendamento de docas, redução de alocação de recursos com mão de obra e empilhadeiras, entre outros benefícios. Com isso, o setor de logística passa a contar com um modelo replicável em diferentes mercados, promovendo padronização e escalabilidade das operações.

O sucesso da iniciativa depende da colaboração entre empresas, fornecedores e operadores logísticos. Afinal, a logística circular, que promove o uso compartilhado e reutilização de ativos, em que se encaixam os paletes azuis, só se viabiliza plenamente quando todos os elos da cadeia entendem seu papel e contribuem com dados, disciplina e engajamento.

Relatórios recentes reforçam essa necessidade. Segundo a McKinsey, a adoção de práticas de logística sustentável pode reduzir em até 35% as emissões totais da cadeia de suprimentos de bens de consumo até 2030. 

A transformação não é apenas desejável, ela é necessária e o sistema implantado prova que inovação e sustentabilidade não são conceitos distantes, mas partes de uma mesma estratégia. Se cada viagem evitada representa menos custos e menos emissões, o impacto positivo se multiplica quando a solução é ampliada e replicada. Nosso objetivo é mostrar que a logística pode, sim, ser regenerativa. Ao invés de esgotar recursos, podemos contribuir para um futuro mais equilibrado e resiliente.

No fim, trata-se de um convite para que empresas revejam seus fluxos, clientes participem ativamente das devoluções de paletes e que todo o ecossistema logístico se una em torno de uma agenda comum: fazer mais com menos, aplicando sustentabilidade ao negócio, respeitando os limites do planeta e respondendo às demandas de uma sociedade que valoriza eficiência e responsabilidade ambiental. Apostamos neste caminho e acreditamos que é aí que está o verdadeiro futuro da logística. 

* Emanuela Mascarenhas Borges é Supply Chain Sr. Manager da CHEP Brasil

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