O pânico e a crise

17/04/2009

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, na última terça-feira, que o governo não está vendendo otimismo e que "às vezes chego a pensar que 50% da crise é um pouco de pânico".

Está correto o senhor presidente em enfatizar o papel das expectativas na duração e intensidade das fases do ciclo econômico. Nesse mundo, como já disse Benjamin Franklin, só temos duas certeza: a da morte e a dos impostos. Todos os nossos atos resultam de uma avaliação que toma por base expectativas, seja na vida econômica, na vida afetiva e em casos mais prosaicos – como a decisão de sair de casa ou não com um guarda-chuva. Um pessimista sempre sairá de casa com um guarda-chuva.

Como disse o presidente, se todos se tornam pessimistas com a economia, a chance da crise aprofundar aumenta. Contudo, não vivemos só de pessimismo. O senhor presidente afirmou também, no discurso feito em Telêmaco Borba, que vivemos um momento de estabilidade e credibilidade política – o que também é fato, graças à austeridade da política monetária e a despeito da frouxidão da política fiscal.

O que alguém deveria fazer é dizer ao senhor presidente a real gravidade da crise que se abateu sobre nós. Não é necessário realizar qualquer pesquisa para coletar os dados e fazer a análise. Está tudo prontinho na Carta IEDI nº 356, A crise internacional e a economia brasileira: o efeito-contágio sobre o mercado de crédito em 2008. Quem disse ao presidente, nos idos de outubro e novembro do ano passado, que o que viria era uma "marolinha", deveria agora retratar-se e mostrar porque a economia brasileira retraiu-se tanto a partir do fatídico 15 de setembro da quebra do banco Lehman Brothers, que precipitou a fase mais aguda da crise.

O mercado de capitais brasileiro já vinha de uma perda de dinamismo muito antes dos sinais mais evidentes da crise, pois desde o início do ano passado as linhas de crédito externas tinha começado a se retrair. Essa retração foi compensada pela expansão do crédito interno, não somente para ocupar o espaço deixado vago pelo encolhimento da liquidez externa, mas também pelo forte aquecimento da economia – que se acentuou ao longo do ano até setembro– e pelo crescente investimento das empresas brasileiras, muitas delas utilizando instrumentos heterodoxos de captação e de hedging contra o que se supunha então ser uma tendência ilimitada de valorização do real.

Todo esse quadro se reverteu, de forma abrupa e forte, a partir de setembro. No exterior, os bancos aumentaram sua demanda por caixa para fazer face às perdas nos mercados de hipotecas subprime e seus derivativos, sugando recursos que estavam anteriormente aplicados em linhas de crédito nos mercados interno e externo.

No Brasil, um grande número de empresas estava se financiando com base em complexos contratos lastreados em derivativos cambiais, negociados nos mercados de balcão. Estima-se que o valor desses contratos tenha ultrapassado R$ 60 bilhões. Coube aos bancos prover a necessária liquidez no momento em que esses contratos trouxeram perdas monstruosas para as empresas que estavam se financiando através deles.

Adicionalmente, a retração das linhas externas agravou os problemas de liquidez, particularmente dos bancos de porte médio e pequeno que constituem a principal fonte de financiamento das pequenas e médias empresas brasileiras.

Em meio às mudanças súbitas no mercado, os bancos se tornaram mais cautelosos na concessão de crédito e a liquidez começou a "empoçar", na linguagem do meio. O BNDES interveio como emprestador da grande empresa e o Banco do Brasil comprou uma parte das carteiras de crédito dos bancos de pequeno e médio portes, para aliviar o aperto na liquidez dessas instituições.

O resultado líquido, contudo, pode ser expresso em um único número: o crédito, que na comparação de setembro de 2008 com setembro de 2007 vinha crescendo a uma taxa de 45%, contraiu-se violenta e subitamente para 39%, na comparação de dezembro contra dezembro – a despeito da liberação dos compulsórios pelo Banco Central bem no início da crise, a partir de 24 de setembro.

Portanto, se pânico houve, é porque havia bons motivos para isso. A questão agora, quando o choque inicial já passou, é saber como se irá gerir a economia em um ambiente a caminho da recessão e com forte queda na receita tributária. Se tudo for bem encaminhado, desta vez não haverá razão para novos pânicos.

Roberto Fendt é economista

Fonte: Diário do Comércio – www.dcomercio.com.br

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