*Por Mateus Vitoria Oliveira
O Estreito de Ormuz tem pouco mais de 30 quilômetros em seu ponto mais estreito, mas concentra aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido no planeta. Segundo dados da U.S. Energy Information Administration, circulam pela região algo entre 20 e 21 milhões de barris por dia, além de quase um terço do comércio marítimo global de gás natural liquefeito. Trata-se de um dos principais “choke points” energéticos do mundo. Não existe rota alternativa com capacidade equivalente para absorver integralmente esse fluxo.
Em um sistema global integrado, o simples aumento da percepção de risco nessa região já é suficiente para gerar distorções nos preços internacionais. O petróleo é negociado majoritariamente no mercado futuro. Quando há tensão geopolítica no Golfo Pérsico, o prêmio de risco é incorporado imediatamente às cotações do Brent.

Em episódios anteriores de instabilidade, o preço internacional registrou altas superiores a 10% em questão de dias, mesmo sem interrupção física do fluxo. Essa alta tem efeito direto sobre o custo logístico global. O combustível representa entre 40% e 60% do custo operacional de um navio porta-contêiner. Qualquer variação relevante no petróleo impacta o bunker marítimo e, consequentemente, os fretes internacionais.
Além disso, seguradoras reclassificam áreas como zonas de risco elevado, elevando o prêmio de seguro de guerra para embarcações que transitam na região. Em momentos críticos, esses adicionais já chegaram a representar frações do valor do navio por viagem, pressionando ainda mais o custo final do transporte. Mesmo que não haja bloqueio total, o simples redirecionamento de rotas ou aumento do tempo de trânsito amplia o consumo de combustível, reduz eficiência operacional e compromete cadeias produtivas que operam sob modelos just-in-time. O impacto não é apenas financeiro; é também temporal.
Em cadeias globais, dias adicionais significam ruptura de programação industrial e necessidade de capital de giro maior. O Brasil, embora geograficamente distante, não está isolado dessa dinâmica. O país exporta mais de US$ 330 bilhões por ano, com forte dependência de commodities agrícolas e minerais, setores altamente sensíveis a custo logístico. Ao mesmo tempo, cerca de 65% da carga interna brasileira depende do transporte rodoviário. O diesel, cujo preço acompanha referências internacionais, é o principal insumo do sistema logístico doméstico. Quando o petróleo sobe, o impacto é imediato na estrutura de frete interno, pressionando custos desde a origem produtiva até o porto.
Há ainda uma vulnerabilidade estrutural mais sensível: fertilizantes. O Brasil importa aproximadamente 85% dos fertilizantes que consome. Parte relevante da ureia nitrogenada utilizada no país tem origem no Oriente Médio, cuja produção depende diretamente do gás natural. Uma instabilidade prolongada na região pressiona o preço do gás, encarece a produção de fertilizantes e afeta o custo agrícola da próxima safra. O impacto não é instantâneo, mas é inevitável.
O ciclo é claro: energia mais cara encarece insumos, que elevam o custo de produção agrícola, pressionando alimentos e contribuindo para inflação estrutural. Esse movimento macroeconômico não termina na cadeia produtiva. O petróleo tem peso direto e indireto nos índices de inflação. A elevação persistente de combustíveis e energia pressiona expectativas inflacionárias e pode influenciar decisões de política monetária.
Juros mais elevados encarecem o crédito, reduzem investimento produtivo e afetam o crescimento do PIB. Em outras palavras, um gargalo logístico localizado no Oriente Médio pode repercutir no custo de capital das empresas brasileiras. A diferença em relação a outros conflitos recentes está na natureza da concentração. O Estreito de Ormuz é um corredor logístico por onde transita uma parcela da energia global. Trata-se de uma concentração física de fluxo. Quando gargalos se formam em pontos assim, o impacto é sistêmico.
Na logística internacional, o risco é precificado antes do evento. Armadores ajustam contratos antecipadamente, seguradoras recalculam exposição, traders incorporam prêmio de risco nos contratos futuros. O custo sobe na expectativa, não apenas na ocorrência. Empresas que operam no comércio exterior não podem trabalhar apenas com o cenário atual, precisam incorporar modelagem de risco geopolítico às suas decisões estratégicas.
A competitividade internacional brasileira depende da capacidade de mitigar vulnerabilidades externas. Diversificação de fornecedores, gestão estruturada de hedge energético e contratos logísticos com cláusulas de flexibilidade deixam de ser ferramentas financeiras e passam a ser instrumentos de proteção estratégica.
O Estreito de Ormuz é um ponto geográfico pequeno no mapa. Mas, sob a ótica econômica, é um nó central que conecta energia, logística, inflação e crescimento. Em um ambiente global cada vez mais sensível a rupturas, a logística deixa de ser função operacional e passa a ser variável determinante de soberania econômica e competitividade nacional. Empresas que entendem essa interdependência se antecipam, às demais reagem. E, em cadeias globais, quem reage paga mais caro.
* Mateus Vitoria Oliveira, CEO da Private Log









