Cachorro atrás do caminhão

02/08/2008

Até bem recentemente, o Brasil agia como aquele cachorro que caiu do caminhão de mudanças: não conhece o lugar onde está, não sabe para onde o caminhão foi, já não consegue voltar ao distante lugar de onde saiu. Perdido, anda para lá, para cá, avança, recua, acaba no mesmo lugar, ganindo baixinho, desamparado.

Na grande onda da globalização e abertura irrestrita de mercados, o Brasil correu para abrir, esqueceu de proteger a retaguarda, caiu, ficou parado, lamentou-se, virou à esquerda e à direita, voltou ao mesmo lugar. Já não pode voltar à situação de origem, do mercado fechado e protegido, mas também não consegue chegar ao destino, da competição livre entre iguais num mercado mundial. Não consegue traçar rumos – as políticas econômicas que traduzam claramente suas opções sobre o que fazer ou não fazer perante um mundo em que todos dizem como tem de ser feito, mas ninguém faz o que diz.

Liberdade irrestrita nos mercados dos outros, mas protecionismos de todo tipo quando o assunto é o próprio mercado – assim fizeram os Estados Unidos (algodão…), Europa (produtos agrícolas…), Ásia (subsídios às matérias-primas, trabalho escravo…). Só agora o Brasil arregaça as mangas e tenta ir à luta, para desbravar um mercado internacional e recuperar a parcela a que – pelo tamanho de sua economia – teria direito. Enquanto o "cachorro" brasileiro ficou lamentando ter caído do "caminhão" da economia mundial – foram bem duas décadas de lamentações -, esse "caminhão" se distanciou mais e mais…

Mesmo assim, o Brasil sobreviveu, encontrou forças para se recuperar da queda, retomou o caminho – mesmo sem saber direito qual a melhor estrada. E, lá na frente, o "caminhão" da globalização parece ter atolado, pesado demais para o frágil piso da estrada por onde seguia. Talvez, se o "cachorro" brasileiro começar a correr, ainda consiga alcançar o "caminhão" da economia mundial…
 
E, enquanto o dólar norte-americano cai aos menores valores cambiais das duas últimas décadas, e a zona do euro apenas mantém a estabilidade, o real brasileiro se destaca, alavancado pelas recentes descobertas petrolíferas, pela oferta de energia renovável a um mundo carente de energia, sem falar na permanente fartura de alimentos e água, que apenas precisaria ser melhor administrada. Financeiramente, deixou de ser um risco para investimentos, o que pode atrair muito capital hoje sem outras opções melhores para ser aplicado.

Com um cenário tão otimista, o que falta? Justamente, falta quem olhe para esse cenário e perceba suas belezas. Falta quem indique o caminho a seguir para chegar a esse belo horizonte. Faltam ao governo brasileiro pessoas que formulem a política econômica, indicando os caminhos em vez de apenas optar por este ou aquele que apareçam, a cada bifurcação da estrada. Talvez seja necessário abrir uma nova estrada, sob medida, em lugar de apenas seguir pelas já existentes – uma das quais levou o citado "caminhão" ao atoleiro.

Então, vem à mente uma nova imagem. O cachorro que caiu do caminhão finalmente sai correndo atrás do veículo em movimento, quer dar uma mordida nele. E, no momento em que o "caminhão" pára, o cachorro pára também, ainda não sabe o que fazer com essa situação inusitada, de ter o "caminhão" ali ao seu alcance. Não foi preparado para aproveitar e pular de volta para dentro do alegórico veículo da economia globalizada…
 

* Carlos Pimentel Mendes é jornalista e edita o site Novo Milênio: pimentel@pimentel.jor.br

 

Fonte: PortoGente – www.portogente.com.br

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