
Executivos da Anfavea, BYD e ABVE discutem o papel dos híbridos flex, os investimentos industriais e os desafios para ampliar a mobilidade de menor emissão
A combinação de eletrificação e etanol pode abrir caminhos para reduzir as emissões do transporte no Brasil e ampliar a competitividade da indústria automotiva nacional. O tema foi discutido no painel “Eletrificação usando etanol – Tendência no Brasil?”, realizado durante a 26ª Conferência Internacional DATAGRO sobre Açúcar e Etanol, em São Paulo.
Participaram do debate Igor Calvet, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea); Alexandre Baldy, vice-presidente sênior da BYD; e Ricardo Bastos, presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). A conversa abordou o desenvolvimento de veículos híbridos flex, a atração de investimentos e os desafios para estruturar uma cadeia industrial de eletrificação no país.
A discussão considerou que diferentes tecnologias de propulsão podem coexistir na transição energética, dependendo das condições de cada mercado, da infraestrutura disponível e dos custos para consumidores e fabricantes.
Híbridos flex combinam eletricidade e biocombustíveis
Para Igor Calvet, a indústria automotiva brasileira precisa acompanhar as transformações globais sem deixar de explorar as características do mercado nacional. Como as montadoras tomam decisões de investimento em escala internacional, a competitividade do país depende também da capacidade de desenvolver soluções alinhadas às tendências tecnológicas e às condições locais.
O executivo estima que, até 2040, 80% dos novos emplacamentos de veículos no Brasil serão de modelos eletrificados. A projeção foi apresentada durante o painel e não representa necessariamente uma previsão consensual de todo o setor.
Na avaliação de Calvet, a neutralidade tecnológica permite considerar diferentes soluções para reduzir as emissões, em vez de concentrar os investimentos em uma única rota de propulsão.
A BYD, por sua vez, aposta nos híbridos flex como uma alternativa adaptada ao mercado brasileiro. Segundo Alexandre Baldy, a empresa investiu R$ 134 milhões no desenvolvimento dessa tecnologia.
Durante o painel, Baldy citou o BYD ATTO 2 DM-i, apresentado pela empresa como um SUV compacto híbrido plug-in flex. O modelo combina propulsão elétrica com motor a combustão compatível com etanol e gasolina.
Para o executivo, a integração dessas tecnologias permite explorar a matriz elétrica brasileira e a disponibilidade de biocombustíveis. Ele também afirmou que a companhia realizou testes em outros mercados, incluindo a Índia, para avaliar o potencial de aplicação da solução fora do Brasil.
Baldy mencionou relatos de consumidores que indicam autonomia superior a 30 quilômetros por litro em determinadas condições de uso combinado. Como o dado foi apresentado como relato de usuários, sem detalhamento do protocolo de medição, ele não deve ser interpretado como consumo oficial ou resultado de teste padronizado.
Cadeia industrial e baterias estão entre os desafios
Ricardo Bastos, presidente da ABVE, avalia que a eletrificação continuará avançando, mas que os motores a combustão ainda terão espaço em parte da frota. Nesse cenário, o uso de biocombustíveis pode contribuir para reduzir as emissões dos veículos que continuarem utilizando essa tecnologia.
O executivo também defendeu o desenvolvimento de conhecimento e capacidade produtiva no Brasil, envolvendo montadoras, fabricantes de autopeças e empresas de biocombustíveis.
Além da fabricação dos veículos, a transição envolve questões relacionadas à origem das matérias-primas, à produção de baterias e ao tratamento desses componentes após o fim de sua vida útil.
Segundo Bastos, a maior durabilidade das baterias pode adiar o retorno de volumes significativos de unidades usadas para reciclagem. A recuperação de materiais, incluindo lítio, poderá contribuir para o abastecimento industrial, mas depende da maturação da cadeia e da disponibilidade de baterias para processamento.
O desenvolvimento de fornecedores nacionais de componentes e baterias também foi apontado como uma oportunidade para ampliar a participação brasileira nas etapas de maior valor agregado da indústria de eletrificação.
Eletrificação e etanol podem ampliar alternativas de descarbonização
O debate destacou que a redução das emissões no transporte depende de fatores que vão além da tecnologia embarcada nos veículos. A origem da eletricidade, o combustível utilizado, os processos de fabricação e o ciclo de vida dos componentes também influenciam o desempenho ambiental das soluções.
Nesse contexto, a combinação de eletricidade e etanol foi apresentada pelos participantes como uma alternativa que pode aproveitar recursos já disponíveis no Brasil e contribuir para o desenvolvimento de tecnologias aplicáveis a outros mercados.
A viabilidade dessa estratégia, porém, depende de fatores como custo dos veículos, investimentos industriais, infraestrutura, eficiência energética e aceitação dos consumidores.
Moderado por Gerson Borini, consultor em engenharia automotiva do site Autoentusiastas, o painel reuniu representantes da indústria automotiva e do setor de veículos elétricos para discutir as possibilidades de posicionamento do Brasil na transição energética do transporte.









