
A rápida expansão dos veículos elétricos em todo o mundo — cujas vendas ultrapassaram 20 milhões de unidades em 2025 (um em cada quatro carros novos), segundo a Agência Internacional de Energia (IEA) — traz desafios inéditos para o agronegócio. Elementos minerais essenciais para a fabricação de baterias, como fósforo, ferro, manganês e níquel, também desempenham papel vital na produção de fertilizantes.
O principal ponto de intersecção entre a transição energética e a segurança alimentar está no fósforo. O nutriente é indispensável para a nutrição das plantas e também é amplamente utilizado nas baterias de lítio-ferro-fosfato (LFP), que representaram mais de 55% das unidades instaladas em veículos elétricos no mundo no último ano, conforme dados da IEA.
“Essa coincidência não indica um conflito inevitável. Ela mostra que a transição energética e a segurança alimentar dependem, em alguma medida, dos mesmos recursos minerais”, explica Valter Casarin, engenheiro agrônomo e coordenador-geral e científico da Nutrientes para a Vida (NPV), iniciativa da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA).
O impacto no Brasil e a dependência de importações
O cenário adquire contornos estratégicos no Brasil, país historicamente dependente do mercado externo para nutrir suas lavouras. Em 2025, o Brasil importou 44,96 milhões de toneladas de fertilizantes, enquanto as entregas internas alcançaram o recorde de 49,11 milhões de toneladas, mantendo uma dependência de cerca de 85% de fornecedores estrangeiros.
Estudos publicados pela Royal Society of Chemistry projetam que, até 2045, a fabricação de baterias LFP poderá demandar um volume de rocha fosfática equivalente a entre 4% e 22,8% do total atualmente destinado aos fertilizantes agrícolas.
“O fósforo merece atenção especial porque não possui substituto viável na produção agrícola. Isso não significa que os carros elétricos estejam retirando matéria-prima da fabricação de fertilizantes, mas acrescenta pressão sobre esse mercado e mostra por que precisamos pensar desde já em novas fontes de abastecimento”, pontua Casarin.
Caminhos e alternativas tecnológicas
Para mitigar a vulnerabilidade do setor sem frear a transição energética, especialistas apontam frentes fundamentais de inovação e sustentabilidade:
- Recuperação de nutrientes: Reaproveitamento de fósforo presente em esgotos e efluentes agroindustriais. Exemplo disso é o desenvolvimento de um adubo inovador por pesquisadores da Embrapa, UFSCar, Epagri e do centro alemão Jülich, que combina estruvita com polissulfeto de enxofre (subproduto da indústria petrolífera).
- Exploração e eficiência: Aproveitamento de jazidas nacionais, desenvolvimento de produtos que reduzem perdas no solo e uso complementar de tecnologias biológicas.
O equilíbrio entre alimentar o planeta e eletrificar a frota global dependerá da capacidade de transformar resíduos em insumos e diversificar a matriz de abastecimento tecnológico e mineral nos próximos anos.






