
Ainda faltam alguns meses para novembro, mas, para a cadeia logística, o jogo da Black Friday já começou. O período exige que transportadoras e varejistas definam quais veículos estarão nas ruas, homologuem novos motoristas e revisem malhas logísticas que serão submetidas ao maior pico de demanda do ano.
No entanto, o planejamento para a temporada de 2026 ganhou uma camada adicional de complexidade: o perfil do roubo de cargas mudou. O problema deixou de se concentrar apenas nas grandes rodovias e passou a registrar partes expressivas das ocorrências em áreas urbanas e na última milha, justamente no elo em que a mercadoria está mais próxima do consumidor final.
Cenário de perdas e novos riscos
O levantamento anual da NTC & Logística registrou 8.570 roubos de cargas no Brasil em 2025, uma queda de 16,7% em relação ao ano anterior. Apesar da retração nos casos, os prejuízos financeiros continuaram expressivos, alcançando aproximadamente R$ 900 milhões (frente a R$ 1,217 bilhão em 2024).
Os indicadores de 2026 mostram que a vigilância precisa ser constante. Entre janeiro e maio, foram contabilizadas 3.397 ocorrências, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública compilados pelo setor. Além disso, um levantamento da nstech referente ao primeiro trimestre apontou que a participação das áreas urbanas nas ocorrências saltou de 18,9% para 38,5%. Para o setor varejista, a mensagem é direta: blindar a operação hoje vai muito além de proteger a carroceria do caminhão.
A informação como parte da carga
Em operações de alta performance como a da Black Friday, dezenas de empresas e profissionais terceirizados entram em campo. Motoristas agregados, equipes de centros de distribuição e operadores de última milha passam a ter acesso direto às mercadorias, cronogramas, horários e destinos.
É nesse cenário que a inteligência de dados se torna uma aliada estratégica. Em vez de analisar apenas o histórico de ocorrências passadas, as companhias passam a cruzar variáveis como tipo de mercadoria, região, horários críticos e características da operação para identificar gargalos de exposição antes que o volume de entregas exploda.
Prevenção contra a contratação apressada
Iniciar a preparação de frota e parceiros com antecedência ajuda a mitigar um dos maiores gargalos da alta temporada: a contratação feita às pressas. Quanto mais próximo o evento, maior a pressão para colocar veículos na rua, o que pode afrouxer os critérios de seleção.
Plataformas especializadas de background check entram como ferramentas de apoio para verificar dados compatíveis com a função — como identidade, histórico profissional, referências, habilitações e registros exigidos para o exercício da atividade.
Gustavo Sengès, Country Manager da HireRight no Brasil, destaca a importância da mitigação preventiva de riscos:
“O objetivo é oferecer à empresa mais informação para uma decisão de contratação, especialmente em operações nas quais o profissional terá acesso a cargas de alto valor ou informações sensíveis sobre a distribuição.”
Sengès reforça que o processo deve focar na relevância para a função: “Background check não deve ser uma investigação irrestrita sobre a vida de uma pessoa. O ponto é verificar informações relevantes para aquela função e reduzir incertezas antes que o profissional entre na operação.”
O executivo também aponta que o momento da contratação é determinante: “Em períodos de alta demanda, como a Black Friday, existe uma tendência natural de acelerar processos. O problema é quando a velocidade passa a significar abrir mão de controles. A verificação preventiva ajuda a manter o padrão mesmo quando a operação está sob pressão.”
Especialistas lembram que a checagem de antecedentes não substitui tecnologias tradicionais de rastreamento, gerenciamento de risco, apólices de seguro ou controles operacionais, mas atua como uma camada extra de proteção. Além disso, todo o processo deve respeitar rigorosamente a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), garantindo finalidade, base legal adequada e transparência, mantendo a consulta estritamente proporcional à função desempenhada.
Impacto na reputação e margem
O impacto financeiro de uma ocorrência vai muito além do valor monetário da mercadoria roubada. Falhas logísticas na Black Friday podem gerar interrupção na cadeia, atrasos em cascata, custos com reentregas, acionamento de seguros e, o mais crítico, a perda de confiança do consumidor final — um ativo valioso em um momento em que o varejo concentra grande faturamento em poucos dias.







