Do estoque à operação: como o desperdício silencioso corrói resultados

Por Lucas Infante

Quando pensamos em desperdício dentro das empresas, normalmente a imagem que vem à cabeça é a de produtos descartados, alimentos vencidos ou materiais indo para o lixo. Mas existe uma camada muito maior de desperdício que raramente recebe a mesma atenção. Ela não aparece de forma explícita nos relatórios, não gera uma fotografia tão evidente quanto uma caçamba cheia de produtos descartados e, justamente por isso, acaba sendo ignorada por muitas organizações.

Ao longo da minha trajetória, acompanhando operações de diferentes segmentos, percebi que boa parte das perdas acontecem longe dos holofotes. Elas estão no estoque acima do necessário, na mercadoria que gira mais devagar do que deveria, nas compras feitas sem previsibilidade adequada, nos processos que exigem retrabalho constante e nas decisões tomadas com informações incompletas ou desencontradas.

O grande desafio é que essas perdas raramente são percebidas de forma isolada. Um produto parado por mais tempo no estoque parece algo irrelevante. Um erro operacional que exige uma correção rápida também. Um processo que leva alguns minutos a mais para ser concluído dificilmente chama atenção. Mas quando esses pequenos desvios acontecem centenas ou milhares de vezes ao longo do mês, o impacto financeiro se torna significativo.

Em um ambiente de negócios cada vez mais competitivo, muitas empresas direcionam seus esforços para aumentar receita, conquistar clientes e acelerar crescimento. Naturalmente, essas iniciativas são importantes. Mas existe uma oportunidade igualmente relevante que nem sempre recebe a mesma prioridade: aumentar a eficiência dos recursos que já estão disponíveis dentro da operação.

O estoque é um exemplo clássico. Além do custo da mercadoria em si, existe capital imobilizado, ocupação de espaço, custos de armazenagem e risco de perda ou obsolescência. Quanto maior o tempo de permanência de um produto sem giro adequado, maior tende a ser o impacto para a rentabilidade do negócio.

O mesmo raciocínio vale para a operação como um todo. Processos mal estruturados geram retrabalho. Falhas de comunicação criam gargalos. Planejamentos imprecisos resultam em excesso ou falta de produtos. Rotas ineficientes aumentam custos logísticos. Em muitos casos, essas situações acabam sendo incorporadas à rotina e passam a ser tratadas como algo normal, quando na verdade representam oportunidades claras de melhoria.

Essa discussão ganha ainda mais relevância quando observamos a evolução da agenda ESG. Durante muito tempo, a sustentabilidade foi associada principalmente a ações ambientais e sociais. Hoje existe uma compreensão mais ampla de que a utilização eficiente dos recursos também faz parte dessa agenda.

Desperdício, em sua essência, é o consumo de recursos sem geração proporcional de valor. Isso vale para recursos financeiros, materiais, energéticos e humanos. Quando uma empresa consegue reduzir perdas e aumentar sua eficiência operacional, ela não apenas melhora seus resultados financeiros. Ela também reduz impactos ambientais, fortalece sua governança e cria uma operação mais preparada para enfrentar cenários de maior pressão econômica.

As organizações que tratam eficiência como uma disciplina permanente costumam desenvolver uma capacidade importante: identificar rapidamente onde estão seus gargalos e agir antes que eles se transformem em problemas maiores. Isso exige acompanhamento de indicadores, processos bem definidos, gestão próxima da operação e uma cultura que valorize melhoria contínua.

No fim das contas, operações mais eficientes não são apenas operações que gastam menos. São operações que utilizam melhor seus recursos para gerar mais valor.

Em um momento em que tantas empresas discutem crescimento, expansão e competitividade, talvez uma das perguntas mais importantes esteja dentro de casa: quanto estamos perdendo sem perceber?

Foto: Jefferson Alcântara

*Lucas Infante é CEO da Food To Save, o app nº1 no Brasil no combate ao desperdício de alimentos. Formado em Administração pela PUC-Campinas e pós-graduado em Gestão de Negócios pela FGV, atuou na administração de grandes negócios, como a Ultragaz e de uma unidade do Carrefour na Espanha, e foi eleito empreendedor do ano pela EY e reconhecido como um dos Top 50 Creators do LinkedIn na categoria Food Industry & Food Tech.

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