A combinação entre aumento dos custos logísticos e mudanças previstas pela Reforma Tributária tem acelerado investimentos em integração tecnológica e orquestração de dados no setor de comércio exterior brasileiro. Em um cenário no qual a corrente de comércio do país alcançou US$ 629,1 bilhões em 2025, empresas com operações globais passaram a buscar maior visibilidade operacional, rastreabilidade fiscal e integração entre diferentes elos da cadeia logística.
Segundo informações divulgadas pela logtech Flowls – que atua no desenvolvimento de soluções digitais voltadas à integração e automação da cadeia logística internacional –, a pressão sobre as margens das empresas ocorre em meio ao chamado “Custo Brasil”, que atualmente representa 15,5% do Produto Interno Bruto (PIB), índice superior ao registrado em mercados como os Estados Unidos. Além disso, a implementação do novo modelo tributário brasileiro deverá exigir níveis mais elevados de controle de dados e rastreabilidade das operações.
De acordo com análises do setor, um dos principais gargalos operacionais continua sendo a fragmentação de informações entre os agentes da cadeia logística internacional. Estima-se que aproximadamente 80% da gestão entre portos, recintos alfandegados, transportadores, armadores e operadores ainda aconteça de forma descentralizada, utilizando e-mails e planilhas eletrônicas.
Esse cenário, segundo especialistas, amplia riscos operacionais e dificulta o controle sobre custos relacionados à armazenagem, demurrage, atrasos operacionais e multas decorrentes de inconsistências documentais.

Integração tecnológica ganha espaço no comércio exterior
Diante desse contexto, grandes embarcadores com operações complexas, como Gerdau, Nike, Suzano, Unilever e Midea Carrier, têm intensificado a adoção de plataformas voltadas à centralização e integração de dados logísticos em tempo real.
A estratégia envolve conectar sistemas internos das empresas, como os Enterprise Resource Planning (ERP) — sistemas integrados de gestão empresarial —, incluindo plataformas como SAP, a bases de dados de armadores globais, como Maersk, MSC e Hapag-Lloyd, além de sistemas governamentais, entre eles o Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex).
Segundo a Flowls, a consolidação dessas informações em um único ambiente digital tem contribuído para ampliar a previsibilidade operacional e otimizar o controle de rotas e marcos logísticos, permitindo redução de até 60% no lead time de transporte em determinadas operações.
“O Brasil opera em um ambiente de volatilidade estrutural. A visibilidade que a tecnologia proporciona hoje vai além de saber a coordenada do contêiner; trata-se de velocidade de decisão analítica diante de greves, gargalos portuários e flutuações severas no frete spot”, afirma Anna Valle, especialista em logística internacional e COO da Flowls.
Compliance digital passa a ser prioridade
Além dos desafios operacionais relacionados ao transporte internacional de cargas, a transição para o novo sistema tributário brasileiro vem adicionando uma nova camada de complexidade ao setor. Isso porque o novo modelo exigirá maior integração entre movimentações físicas de mercadorias e registros fiscais digitais.
Especialistas alertam que falhas de comunicação entre terminais portuários, despachantes aduaneiros e transportadoras podem elevar riscos de retrabalho documental, inconsistências fiscais e até casos de bitributação.
“Quem iniciar a transição tributária operando de forma analógica enfrentará uma perda direta de competitividade. O dado estruturado e limpo passou a ser um ativo de compliance obrigatório”, pontua Anna Valle.
Segundo a executiva, a próxima etapa da transformação tecnológica no setor deverá envolver aplicações de Inteligência Artificial e análise preditiva para antecipar riscos relacionados a atrasos alfandegários, sinistros logísticos e inconsistências fiscais antes mesmo do fechamento contábil das operações.








