Liderança na logística moderna: entre o “manda quem pode” e a gestão inteligente de pessoas e processos

Neste artigo, o colunista do Portal Logweb Victor Adriano Tavares propõe uma análise crítica sobre a aplicabilidade desses comportamentos e modelos de liderança na logística atual, explorando a evolução do setor, seus desafios e as competências necessárias para o futuro.

A logística no Brasil ocupa um papel estratégico no desenvolvimento econômico, representando cerca de 12% do Produto Interno Bruto (PIB) e movimentando mais de R$ 1,5 trilhão anualmente. Trata-se de um setor robusto, dinâmico e essencial para o funcionamento do agronegócio, da indústria e do comércio, conectando regiões e garantindo o abastecimento nacional. Apesar dos desafios estruturais, como infraestrutura precária, altos custos operacionais e baixa integração entre modais, o setor apresenta crescimento consistente, impulsionado por investimentos, inovação tecnológica e aumento da demanda, especialmente com o avanço do e-commerce.

Dentro desse cenário promissor, surge uma reflexão importante: modelos de gestão ultrapassados ainda têm espaço na logística moderna? Frases comuns no ambiente corporativo como “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, “não foi culpa minha, eu só estava obedecendo ordens” e até mesmo o clássico da cultura organizacional informal, “a rádio peão nunca falha”, revelam muito sobre práticas e comportamentos ainda presentes no dia a dia das operações logísticas.

Além disso, uma frase histórica atribuída ao Almirante E. J. King — “Eu não sei que diabos é essa ‘logística’ da qual Marshall está sempre falando, mas eu quero um pouco disso.” — mostra como, ao longo do tempo, a logística deixou de ser um conceito pouco compreendido para se tornar um dos pilares estratégicos das organizações.

Desenvolvimento

1. O cenário logístico brasileiro e a necessidade de evolução

O Brasil possui uma matriz de transporte predominantemente rodoviária, responsável por cerca de 60% a 65% do fluxo de cargas. Embora essa predominância ofereça flexibilidade, também expõe o setor a gargalos como estradas mal conservadas, altos custos de manutenção e riscos de segurança. Ferrovias, hidrovias e transporte aéreo ainda são subutilizados, apesar de seu potencial para aumentar a eficiência e reduzir custos.

Além disso, os custos logísticos no Brasil representam aproximadamente 18,4% do PIB, um percentual elevado quando comparado a países mais desenvolvidos. Esse cenário exige não apenas investimentos em infraestrutura, mas também uma transformação na forma como as operações são geridas.

Nesse contexto, frases como “não foi culpa minha, eu só estava obedecendo ordens” evidenciam um problema crítico: a ausência de responsabilização e pensamento crítico nas operações. Em um setor complexo como a logística, onde decisões impactam diretamente custos, prazos e segurança, esse tipo de postura pode gerar prejuízos significativos.

2. O modelo tradicional de liderança: ainda funciona?

A frase “manda quem pode, obedece quem tem juízo” representa um modelo de liderança autoritário, baseado na centralização de poder e na obediência cega. Esse tipo de gestão foi comum em ambientes industriais do passado, onde a padronização e o controle eram prioridades.

Por outro lado, a expressão “a rádio peão nunca falha” revela outro problema típico desse modelo: a falta de comunicação transparente. Quando a informação oficial não flui de forma clara, surgem boatos, ruídos e interpretações equivocadas que podem comprometer toda a operação.

Na logística moderna, esse modelo apresenta diversas limitações:

– Baixa inovação: colaboradores que não se sentem ouvidos tendem a não contribuir com ideias;

– Desmotivação: ambientes autoritários reduzem o engajamento e aumentam a rotatividade;

– Tomada de decisão lenta: a centralização impede respostas rápidas;

– Falta de comunicação confiável: abre espaço para a “rádio peão”;

– Transferência de responsabilidade: erros são justificados com base na obediência.

Em um setor que exige precisão, integração e agilidade, esses fatores tornam-se riscos operacionais.

3. A nova logística exige uma nova liderança

A transformação digital está redefinindo a logística. Tecnologias como inteligência artificial, Internet das Coisas (IoT), big data e automação estão tornando as operações mais complexas e interdependentes.

Curiosamente, a frase do Almirante E. J. King mostra como a logística evoluiu de um conceito pouco compreendido para um ativo estratégico desejado. Hoje, ninguém apenas “quer um pouco disso” — as empresas dependem totalmente da logística para sobreviver e competir.

Nesse cenário, o papel do líder também precisa evoluir. A liderança moderna deve ser:

– Colaborativa: substituir o “manda quem pode” pelo “vamos construir juntos”;

– Responsável: eliminar o “só estava obedecendo ordens”;

– Transparente: combater a “rádio peão” com comunicação clara;

– Orientada por dados: decisões baseadas em informação, não em hierarquia;

– Adaptável: responder rapidamente às mudanças.

4. O impacto da cultura organizacional nos resultados

A cultura organizacional influencia diretamente o desempenho logístico. Empresas que mantêm culturas rígidas e autoritárias tendem a enfrentar:

– Falhas operacionais recorrentes;

– Baixa produtividade;

– Resistência à inovação;

– Problemas de comunicação interna.

Quando a cultura incentiva a passividade, frases como “não foi culpa minha” tornam-se comuns, criando um ambiente onde ninguém assume responsabilidades.

Por outro lado, organizações modernas incentivam:

– Proatividade

– Comunicação aberta

– Aprendizado com erros

– Colaboração entre áreas

Isso reduz significativamente riscos operacionais e melhora os resultados.

5. Pessoas no centro da estratégia logística

Apesar de toda a tecnologia, a logística continua sendo feita por pessoas. E pessoas não funcionam bem sob pressão constante, medo ou falta de reconhecimento.

A mudança de mentalidade passa por:

– Desenvolver líderes que escutam;

– Valorizar equipes operacionais;

– Incentivar pensamento crítico;

– Promover diversidade e inclusão.

Quando o colaborador deixa de ser apenas um executor de ordens e passa a ser parte da solução, a operação se torna mais eficiente e resiliente.

6. Inovação, comunicação e responsabilidade

A logística moderna exige integração total — entre sistemas, processos e pessoas. Nesse contexto:

– A inovação depende da participação de todos;

– A comunicação precisa ser clara e estruturada;

– A responsabilidade deve ser compartilhada.

Ambientes onde predomina a “rádio peão” ou a cultura do “só obedeci” não conseguem sustentar operações complexas e tecnológicas.

7. Afinal, essas frases ainda fazem sentido?

Essas frases não desapareceram — elas ainda existem e refletem problemas reais dentro das organizações. No entanto, como modelo de gestão, elas estão ultrapassadas.

Elas indicam:

– Falta de liderança efetiva

– Comunicação deficiente

– Baixo nível de maturidade organizacional

Na logística atual, o verdadeiro diferencial competitivo está em equipes engajadas, líderes preparados e processos bem estruturados.

Conclusão

A logística brasileira vive um momento de transformação profunda, impulsionada por tecnologia, investimentos e novas demandas do mercado. No entanto, essa evolução não será completa sem uma mudança cultural dentro das organizações.

Frases como “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, “não foi culpa minha, eu só estava obedecendo ordens” e “a rádio peão nunca falha” representam práticas que precisam ser superadas.

A frase do Almirante E. J. King, por sua vez, simboliza o quanto a logística evoluiu — de algo pouco compreendido para um dos pilares mais importantes da estratégia empresarial.

O futuro da logística pertence às organizações que substituem o medo pela confiança, a imposição pela liderança e a obediência cega pela responsabilidade consciente.

Mais do que executar ordens, os profissionais da logística precisam pensar, analisar, decidir e colaborar.

Porque, no cenário atual, não vence quem manda mais — vence quem lidera melhor.

Compartilhe:
Victor Adriano Tavares

Victor Adriano Tavares

Possui graduação em Administração, Especialização em Logística, Docência do Ensino Superior, Gestão de Equipes, Gestão e auditoria ambiental e Gestão escolar e Coordenação Pedagógica. Professor Universitário (Administração e Logística), proprietário da Vs2l Transportes e Analista da Educação Profissional – Firjan/SENAI – Departamento Regional do Rio de Janeiro.

Terceira Parada Fórum ILOS 2026 discutirá a "Eficiência econômica e operacional na eletrificação de frotas na logística de última milha"
Terceira Parada Fórum ILOS 2026 discutirá a “Eficiência econômica e operacional na eletrificação de frotas na logística de última milha”
Silvia Gerber assume presidência do Grupo Volvo na América Latina e marca nova fase na liderança regional
Silvia Gerber assume presidência do Grupo Volvo na América Latina e marca nova fase na liderança regional
Patrus investe R$ 6 milhões na ampliação de frota e inaugura unidade própria em Londrina, PR
Patrus investe R$ 6 milhões na ampliação de frota e inaugura unidade própria em Londrina, PR
Caminhão elétrico eActros da Mercedes-Benz alcança autonomia de 250 km em testes na Suzano
Caminhão elétrico eActros da Mercedes-Benz alcança autonomia de 250 km em testes na Suzano
Ship From Store Nacional da Eu Entrego mira 4 milhões de pedidos e entregas em até 2 dias
Ship From Store Nacional da Eu Entrego mira 4 milhões de pedidos e entregas em até 2 dias
Comércio exterior: Ascensus Group alcança 44,7% da movimentação de veículos registrada em 2025
Comércio exterior: Ascensus Group alcança 44,7% da movimentação de veículos registrada em 2025

As mais lidas

01

IA em Supply Chain ainda enfrenta barreiras em 47% das empresas no Brasil, aponta pesquisa do Procurement Club
IA em Supply Chain ainda enfrenta barreiras em 47% das empresas no Brasil, aponta pesquisa do Procurement Club

02

Imediato Nexway anuncia nova governança e nomeia CEO e Chairman para reforçar estratégia
Imediato Nexway anuncia nova governança e nomeia CEO e Chairman para reforçar estratégia

03

Rede de varejo de calçados e acessórios, Studio Z investe em cabotagem para reduzir emissões e aumentar eficiência logística
Rede de varejo de calçados e acessórios, Studio Z investe em cabotagem para reduzir emissões e aumentar eficiência logística