Em seu primeiro artigo de 2026, o colunista Victor Adriano Tavares discute a transição para o IVA em 2026 como um desafio logístico e operacional de grande impacto. O autor aponta que a convivência de dois sistemas tributários exigirá integração tecnológica, revisão da malha de distribuição e maior controle sobre custos de transporte e estoques. A análise reforça que a reforma vai além do aspecto fiscal e que a eficiência logística será decisiva para a competitividade das empresas no período de transição.

1. Introdução
A aprovação da Reforma Tributária (Emenda Constitucional 132/2023) representa a mudança mais profunda no ambiente de negócios brasileiro das últimas décadas. A substituição de cinco tributos (PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS) pelo modelo de IVA Dual — composto pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) — visa simplificar o sistema e eliminar distorções históricas.
Contudo, a transição que se inicia em 2026 impõe um paradoxo: a promessa de simplificação futura exige uma complexidade logística e operacional sem precedentes no curto prazo. Durante sete anos, o Brasil operará sob dois regimes simultâneos, exigindo que as empresas gerenciem uma “dupla camada” de obrigações.
Este artigo analisa os gargalos logísticos, o impacto nos custos de transporte e as transformações estruturais necessárias para sobreviver à transição.
2. Desenvolvimento
2.1. A Gestão do Sistema Híbrido e o Risco de Compliance
A partir de 2026, com a alíquota teste de 1% (0,9% de CBS e 0,1% de IBS), as empresas entrarão em um regime de coexistência. O desafio não é apenas contábil, mas de fluxo físico de mercadorias.
– Dualidade de Sistemas (ERP): A logística de faturamento precisará calcular e segregar os impostos do regime antigo e do novo para cada item transportado. Se os sistemas de TI não estiverem perfeitamente integrados, o risco de rejeição de Notas Fiscais Eletrônicas (NF-e) aumenta drasticamente, resultando em caminhões parados em pátios e quebra de contratos de nível de serviço (SLA).
– O Mecanismo de Split Payment: A liquidação do imposto no momento do pagamento da fatura exige uma integração logística-financeira em tempo real. Se o tributo não for liquidado instantaneamente no ato do pagamento, o crédito tributário pode não ser liberado para o adquirente, gerando atrito nas relações comerciais da cadeia de suprimentos.
2.2. Reconfiguração da Malha de Distribuição e o Fim da Guerra Fiscal
Por décadas, a logística brasileira foi desenhada por advogados tributaristas, não por engenheiros. Centros de Distribuição (CDs) foram instalados em locais geograficamente ineficientes apenas para capturar benefícios de ICMS.
– Migração para o Princípio do Destino: Com o IVA cobrado onde o bem é consumido, o incentivo fiscal na origem perde o sentido. Logística e Supply Chain deverão ser redesenhados com foco em eficiência de transporte e redução de distância.
– Impacto no Imobiliário Logístico: Prevemos uma corrida por galpões em estados próximos aos grandes centros consumidores (como o Sudeste), enquanto regiões que antes eram “paraísos fiscais” logísticos podem sofrer com a ociosidade de infraestrutura.
2.3. O Custo do Frete e o Setor de Transportes
O transporte de cargas é um dos setores mais sensíveis. Atualmente, o setor de serviços goza de alíquotas de ISS e PIS/Cofins muitas vezes inferiores à futura alíquota padrão do IVA (estimada entre 26% e 28%).
– Pressão nos Contratos de Transporte: A impossibilidade de manter regimes especiais elevará o custo nominal do frete. Transportadoras precisarão de uma gestão de custos extremamente rigorosa para repassar esse aumento sem perder competitividade.
– Desafio dos Transportadores Autônomos (TACs): Grande parte da frota brasileira é de autônomos. No sistema de IVA, o crédito é gerado pela nota fiscal do serviço. Se o transportador não estiver formalizado ou integrado ao novo regime, a empresa contratante não gera crédito, tornando o frete do autônomo “mais caro” indiretamente.
2.4. Logística Reversa e Devoluções
Um dos pontos mais críticos e pouco discutidos é a devolução de mercadorias.
– Complexidade de Estorno: Em um sistema dual, a logística reversa exigirá o estorno proporcional de PIS/Cofins/ICMS e também de IBS/CBS. O rastreio físico da mercadoria para garantir que o crédito tributário seja recuperado corretamente nas devoluções será um pesadelo logístico se não houver automação total.
3. Desafios Logísticos Emergentes para 2026
1. Capacitação de Mão de Obra: Falta de profissionais que dominem a nova legislação aplicada à operação de armazéns e transportes.
2. Sincronização de Estoques: Manter estoques em locais com diferentes regras de transição pode gerar desequilíbrios de preços no mesmo SKU (unidade de estoque).
3. Auditoria de Fretes: A conferência de faturas de transporte (CT-e) se tornará duas vezes mais complexa devido à cumulatividade parcial de créditos durante a transição.
4. Conclusão
A transição para o IVA em 2026 não é apenas uma mudança de alíquotas; é uma reengenharia da movimentação de riqueza no Brasil. A fase de convivência entre os dois sistemas (2026-2032) exigirá uma resiliência operacional inédita.
As empresas que tratarem a reforma apenas como um projeto do departamento fiscal estarão fadadas a gargalos logísticos e perda de margem. A vitória competitiva pertencerá às organizações que utilizarem este período para redesenhar suas malhas de distribuição, automatizar a rastreabilidade de créditos e preparar sua infraestrutura tecnológica para o modelo de destino. O sucesso logístico pós-2026 será definido pela capacidade de transformar a conformidade tributária em um diferencial de agilidade.










