Gêmeos digitais mostram o futuro da manutenção em guindastes e pontes rolantes

Por Fernando Fuerte*

A manutenção de equipamentos de içamento e movimentação de cargas está prestes a passar por uma profunda transformação. A tecnologia de gêmeos digitais vem se apresentando como uma aliada poderosa para prever falhas, otimizar inspeções e garantir a segurança dos diferentes materiais utilizados em operações diversas, como em portos e na indústria.

Embora ainda de forma inicial, empresas e pesquisadores ao redor do mundo já aplicam a tecnologia de gêmeos digitais para monitorar em tempo real cargas, vibrações e deformações, obtendo como resultado menos paradas não planejadas, menor custo de manutenção e equipamentos mais seguros com maior disponibilidade.

Gêmeos digitais mostram o futuro da manutenção em guindastes e pontes rolantes

Mas o que, exatamente, é esta tecnologia de gêmeos digitais? Trata-se de uma réplica virtual do equipamento ou de toda a infraestrutura na qual ele está inserido. Uma simulação computacional que recebe, por meio de sensores de IoT, dados em tempo real do comportamento de cada componente e de sua utilização. Diferentemente de um modelo 3D estático, o que temos é um “organismo vivo” digital, sincronizado com o ativo físico, sendo que qualquer alteração ou condição no mundo real se reflete no modelo virtual quase instantaneamente.

Ao registrar todos esses dados, a simulação pode calcular desgastes efetivos nos materiais em vez de depender de projeções, o que traz muito mais precisão na programação de manutenção, no controle da fadiga e de eventuais anomalias que podem ser antecipadas. Na prática, isso permite um planejamento mais efetivo de paradas para a realização de inspeção e manutenção, o que também aumenta os níveis de segurança.

Impactos na elevação e movimentação de cargas

Nos equipamentos de içamento e movimentação de cargas, como pontes rolantes industriais, guindastes de porto ou gruas de construção, essa cópia digital permite visualizar as cargas efetivas de trabalho. Vibrações, deformações e condições ambientais são analisadas em tempo real com a operação em andamento. Isso viabiliza um acompanhamento 24/7 do estado do equipamento, identificando padrões de desgaste e permitindo até mesmo realizar testes virtuais, simulando cenários extremos, como rajadas de vento ou falhas severas sem arriscar o equipamento real.

Ao avaliar os efeitos no modelo digital, é possível ajustar procedimentos antes de enfrentar essas condições de verdade. Um exemplo prático disso pode ser visto no porto de Roterdã, onde sensores de vibração integrados ao gêmeo digital das pontes rolantes permitiram detectar problemas mecânicos antecipadamente, resultando em 28% menos paradas de manutenção não programadas nesses equipamentos.

Esta tecnologia traz ganhos de segurança ao monitorar também tensões estruturais e oscilações, prevenindo sobrecargas e situações de risco antes que coloquem em perigo operadores e instalações. Por exemplo, se um guindaste móvel se aproxima de levantar uma carga que excede o limite seguro, ou se ventos fortes impõem esforços além do projetado, o gêmeo digital reconhece o cenário perigoso imediatamente e pode desacelerar movimentos ou emitir alertas automáticos, evitando acidentes.

Além disso, a alta capacidade de realizar testes virtuais ajuda fabricantes e operadores a aprimorar constantemente os protocolos de segurança e os limites operacionais. Esse monitoramento proativo já se reflete em resultados concretos: estudos reportam 40% menos incidentes em operações que utilizam gêmeos digitais, graças à identificação e mitigação de condições inseguras antes de se agravarem.

O potencial dessa tecnologia é ainda uma área a ser amplamente explorada e que faz parte da transformação digital que vem sendo demandada em quase todas as áreas. Atualmente, é um recurso implantado em poucas operações pelo mundo, mas com tendência a ter sua adoção acelerada nos próximos anos.

O setor portuário tem assumido a vanguarda na utilização de gêmeos digitais. Grandes portos globais, como Roterdã, Houston e Tianjin, já implementaram projetos-piloto e relatam ganhos de eficiência e segurança. No Brasil, o Porto de Santos iniciou em 2024 a implantação de seu gêmeo digital, desenvolvendo uma réplica virtual do canal de navegação e da infraestrutura portuária para monitorar operações em tempo real e antecipar problemas antes que impactem as atividades.

Aplicações em cabos de aço e içamentos

A possibilidade de ensaiar virtualmente manobras complexas, como a movimentação de uma peça excêntrica sob vento lateral, permite refinar o plano de içamento e a definição de pontos de ancoragem antes da execução. Quando a tomada de decisão passa a ser treinada com base em simulações coerentes com o equipamento real, há uma redução significativa de acidentes e danos no material.

Para quem vive o universo de cabos de aço e rigging, a pergunta principal é onde essa tecnologia toca o núcleo do içamento, que envolve cabo, polia e tambor. A resposta passa por três camadas. A primeira diz respeito à carga e ao ciclo operacional. Um gêmeo que registra, a cada içamento, o peso aplicado, as acelerações, o ângulo da lança e a duração do ciclo constrói um histórico fiel de esforços no sistema. Isso muda a discussão sobre fadiga do cabo, já que a vida útil não depende apenas do tempo transcorrido, mas do número de flexões sob carga ao passar pelas polias e ao se acomodar em camadas no tambor.

A segunda camada é geométrica e envolve a razão D/d, isto é, o diâmetro da polia dividido pelo diâmetro do cabo, além dos raios de curvatura efetivos. Quando o gêmeo mostra que a operação passou a utilizar uma configuração com D/d menor, por exemplo após a troca de uma polia, a predição de vida do cabo deve ser revisada para baixo.

Já a terceira camada é a condição física do próprio cabo, que inclui amassamentos por esmagamento em multicamadas, fios rompidos, corrosão e deformações localizadas. Nessa etapa entram os métodos de inspeção que a engenharia já domina e que podem ser integrados ao gêmeo digital, desde a inspeção visual padronizada até o ensaio eletromagnético do cabo, capaz de detectar perda de seção metálica e falhas internas.

Gêmeos digitais ainda estão no começo de sua curva de adoção, mas já apontam para um horizonte em que a manutenção deixa de ser um departamento reativo e passa a compor a estratégia de performance. Com sensores mais precisos, conectividade industrial confiável e modelos de análise maduros, o gêmeo digital tende a se tornar tão rotineiro quanto o plano de manutenção. Nesse estágio, guindastes, pontes rolantes e sistemas de rigging operarão com parâmetros definidos pelo histórico real de cada ativo, com limites e janelas de serviço calibrados por dados. O efeito disso será uma engenharia mais precisa, menos incerteza e maior disponibilidade de equipamentos convertida em produtividade.

* Fernando Fuertes é engenheiro e Desenvolvedor de Novos Negócios na Acro Cabos

Compartilhe:
Demanda de PMEs ultrapassa 30 milhões de envios e impulsiona logística no e-commerce, aponta Melhor Envio
Demanda de PMEs ultrapassa 30 milhões de envios e impulsiona logística no e-commerce, aponta Melhor Envio
Frete mínimo da ANTT: o que muda para embarcadores e transportadoras no TRC, segundo a Mundo Seguro
Frete mínimo da ANTT: o que muda para embarcadores e transportadoras no TRC, segundo a Mundo Seguro
A combinação de juros elevados e restrição ao crédito tem levado o setor de transporte rodoviário a buscar novas estratégias de geração de receita. Diante da queda nas vendas de caminhões, empresas da cadeia logística passaram a acelerar a adoção de modelos baseados em serviços e receita recorrente no transporte, com foco em maior previsibilidade financeira. De acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), as vendas de caminhões recuaram 34,6% em janeiro deste ano em relação a dezembro de 2025. Além disso, na comparação com janeiro do ano anterior, a retração foi de 30,14%. Esse cenário reforça a necessidade de diversificação das fontes de receita em um ambiente mais volátil. Nesse contexto, a mudança de modelo reflete uma tentativa de reduzir a dependência de vendas pontuais de ativos. Ao mesmo tempo, empresas passam a incorporar soluções tecnológicas embarcadas nas frotas não apenas para ganho operacional, mas também como nova fonte de faturamento para concessionárias, revendedores e companhias de software. Receita recorrente no transporte avança com uso de tecnologia logística Segundo Rony Neri, diretor-executivo LATAM da Platform Science, multinacional americana especializada em soluções de segurança e tecnologia para o setor de transporte, a lógica do mercado está em transformação. “A lógica do setor está mudando. Antes, a receita estava concentrada na venda do ativo. Agora, com o uso de tecnologia, é possível construir uma base recorrente de faturamento, mais previsível e menos exposta às oscilações do mercado”, afirma. A empresa atua no desenvolvimento de plataformas tecnológicas para gestão de frotas e segurança operacional, permitindo a integração de dados e serviços no ambiente logístico. Dessa forma, soluções como telemetria, videomonitoramento e plataformas digitais passam a viabilizar modelos de assinatura, ampliando o ticket médio e a retenção de clientes. “A tecnologia passa a funcionar como uma camada de inteligência que fortalece o negócio principal e cria novas oportunidades de receita ao longo do tempo”, reforça Neri. Além disso, o movimento também alcança o agronegócio, onde a digitalização da logística tem impacto direto nos custos operacionais. Com o uso de dados e monitoramento em tempo real, produtores e operadores conseguem reduzir desperdícios, evitar falhas mecânicas e aumentar a eficiência no transporte da safra. “Esses ganhos operacionais têm impacto direto na rentabilidade, especialmente em um cenário em que o custo logístico é um dos principais fatores de pressão para o produtor rural”, detalha o executivo. Para empresas de software, a incorporação de dados operacionais das frotas abre espaço para expansão de portfólio sem necessidade de novos investimentos em hardware. Assim, aumenta-se o valor agregado das plataformas e amplia-se a oferta de serviços. Por fim, o modelo de receita recorrente no transporte tende a apresentar maior estabilidade em comparação à comercialização de produtos físicos. A venda de serviços contínuos, baseada em assinaturas, contribui para reduzir a sazonalidade típica do setor e cria uma base mais previsível de faturamento ao longo do tempo. “A recorrência permite que empresas atravessem períodos de baixa venda de ativos sem perda significativa de receita. É uma mudança estrutural na forma como o setor captura valor”, finaliza Neri.
Queda nas vendas de caminhões impulsiona receita recorrente no transporte, sinaliza Platform Science
Fundo da Marinha Mercante aprova R$ 136,9 milhões para indústria naval no Nordeste
Fundo da Marinha Mercante aprova R$ 136,9 milhões para indústria naval no Nordeste
Intermodal 2026 chega à 30ª edição como hub estratégico da logística global e vitrine de inovação, negócios e integração multimodal
Intermodal 2026 chega à 30ª edição como hub estratégico da logística global e vitrine de inovação, negócios e integração multimodal
Shopee inaugura centro de distribuição fulfillment em Minas Gerais e reduz prazos de entrega
Shopee inaugura centro de distribuição fulfillment em Minas Gerais e reduz prazos de entrega

As mais lidas

01

Transporte de cargas perigosas: falhas operacionais aumentam riscos e exigem mais segurança, adverte consultor
Transporte de cargas perigosas: falhas operacionais aumentam riscos e exigem mais segurança, adverte consultor

02

Shopee inaugura centro de distribuição fulfillment em Minas Gerais e reduz prazos de entrega
Shopee inaugura centro de distribuição fulfillment em Minas Gerais e reduz prazos de entrega

03

Intermodal 2026 chega à 30ª edição como hub estratégico da logística global e vitrine de inovação, negócios e integração multimodal
Intermodal 2026 chega à 30ª edição como hub estratégico da logística global e vitrine de inovação, negócios e integração multimodal