Fechamento do Aeroporto Salgado Filho em Porto Alegre, RS, provoca uma série de desafios logísticos

17/05/2024

A tragédia que se abate sobre o Rio Grande do Sul provoca inúmeras consequências, tanto humanitárias, quanto econômicas. No que se refere à logística em si, o “destaque” fica com o fechamento do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre.

Para Jackson Campos, Diretor de Relações Institucionais da AGL Cargo e que atua com comércio exterior e relações governamentais há anos, a interrupção temporária das operações no Aeroporto provoca uma série de desafios econômicos e logísticos para as empresas da região e além.

Jackson Campos, Diretor de Relações Institucionais da AGL Cargo

“Com previsão de reabertura em setembro, a retomada das atividades no aeroporto terá impactos significativos, inclusive nas cadeias de suprimentos. As empresas que dependem do transporte aéreo para envio e recebimento de mercadorias enfrentarão desafios durante o período de fechamento, como atrasos na produção, falta de insumos e aumento nos custos logísticos”, adverte Campos.

Outro ponto de atenção que o especialista ressalta é a necessidade de agilidade nas doações, já que há uma rota a menos e tendo em mente que parte das doações ao Rio Grande do Sul chegam pelo modal aéreo.
Veja a seguir a avaliação feita pelo especialista, nesta matéria especial para o Portal Logweb.

Empresas prejudicadas

Para Campos, considerando os principais impactos econômicos e logísticos, as empresas que produzem produtos farmacêuticos e que oferecem frutas, flores e carnes devem ser as mais prejudicadas na exportação em razão da necessidade de um tempo de trânsito curto. Também neste nicho estão os eletrônicos, componentes industriais de alta tecnologia e outros produtos que, apesar de pequenos, possuem alto valor e seriam afetados pelo aumento dos custos de transporte em relação ao seu valor e pelo risco de movimentação pelas estradas.

A verdade é que, com o transporte aéreo sendo interrompido, empresas que dependem do modal para envio e recebimento de mercadorias são as mais afetas, incluindo as doações para ajudar quem precisa durante a catástrofe. Isso pode gerar atrasos na produção, falta de insumos e aumento nos custos logísticos.

“Em se tratando de exportação, os desafios a serem considerando incluem o aumento dos custos logísticos e os atrasos nas entregas, que poderiam tornar os produtos exportados pela região menos competitivos no mercado internacional. Os prazos não deverão ser cumpridos e produtos perecíveis correm o risco de estragarem ou se tornarem inviáveis por conta da velocidade que precisam ser entregues. O transporte rodoviário adicional para trazer as mercadorias de outros aeroportos até Porto Alegre aumenta os custos de importação, impactando a competitividade das empresas da região, fazendo com que muitas delas não consigam absorver os custos ou repassar aos consumidores, que também estão em momento crítico”, aponta Campos.

Ele faz outro alerta: com o fechamento do aeroporto por tempo indeterminado, as mercadorias importadas terão que ser redirecionadas para outros aeroportos, como o de Caxias do Sul (com diversas limitações) ou o de Florianópolis, SC, aumentando o tempo de trânsito e os custos logísticos, além de congestionar estes outros locais com cargas.

Crédito: Ricardo Stuckert

Retomada

A retomada de atividades do Aeroporto Salgado Filho poderá influenciar as operações das empresas a curto e longo prazo a depender de quando irá acontecer, aponta o especialista. “Apesar de a concessionária do aeroporto refutar a paralisação até setembro, a ANAC – Agência Nacional de Aviação Civil proibiu a venda de passagens aéreas por tempo indeterminado e a logística aérea para Porto Alegre acontece substancialmente em voos comerciais. Menos de 5% acontece com aeronave de carga.”

Abordando a questão das alternativas disponíveis para as empresas lidarem com os desafios logísticos decorrentes do fechamento temporário do aeroporto, Campos lembra que, no que se refere ao transporte aéreo, as alternativas são o aeroporto de Navegantes e Florianópolis, em Santa Catarina, e Canoas, ainda no Rio Grande do Sul, mas com diversas limitações. Ainda há a opção rodoviária, onde há acesso, e o porto de Rio Grande segue operando normalmente.

Ainda há que se considerar a questão das doações, que requerem agilidade. “O transporte aéreo é sempre o modal mais rápido para grandes distâncias, então o fechamento do aeroporto que está no centro dos locais que mais precisam receber doações certamente impacta diretamente o recebimento, que acaba tendo que tomar uma das alternativas disponíveis.”

Sobre as medidas que as empresas podem adotar para mitigar os impactos negativos do fechamento do Aeroporto Salgado Filho em suas operações, Castro destaca que, quando for possível, se planejar para uma logística mais ajustável. Qualquer alternativa que precise ser desenhada às pressas será cara. Se as empresas conseguirem ter estoques de segurança maiores na importação, elas podem importar no marítimo, e ele vale para a exportação. Outra forma é levar a carga de caminhão até os aeroportos de Santa Catarina que estão operando. No fundo, aponta, todos sabem da gravidade e da situação do Estado. “É importante que compradores e vendedores se sensibilizem e flexibilizem penalidades previstas em contratos neste momento de dificuldade.”

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A combinação de juros elevados e restrição ao crédito tem levado o setor de transporte rodoviário a buscar novas estratégias de geração de receita. Diante da queda nas vendas de caminhões, empresas da cadeia logística passaram a acelerar a adoção de modelos baseados em serviços e receita recorrente no transporte, com foco em maior previsibilidade financeira. De acordo com dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), as vendas de caminhões recuaram 34,6% em janeiro deste ano em relação a dezembro de 2025. Além disso, na comparação com janeiro do ano anterior, a retração foi de 30,14%. Esse cenário reforça a necessidade de diversificação das fontes de receita em um ambiente mais volátil. Nesse contexto, a mudança de modelo reflete uma tentativa de reduzir a dependência de vendas pontuais de ativos. Ao mesmo tempo, empresas passam a incorporar soluções tecnológicas embarcadas nas frotas não apenas para ganho operacional, mas também como nova fonte de faturamento para concessionárias, revendedores e companhias de software. Receita recorrente no transporte avança com uso de tecnologia logística Segundo Rony Neri, diretor-executivo LATAM da Platform Science, multinacional americana especializada em soluções de segurança e tecnologia para o setor de transporte, a lógica do mercado está em transformação. “A lógica do setor está mudando. Antes, a receita estava concentrada na venda do ativo. Agora, com o uso de tecnologia, é possível construir uma base recorrente de faturamento, mais previsível e menos exposta às oscilações do mercado”, afirma. A empresa atua no desenvolvimento de plataformas tecnológicas para gestão de frotas e segurança operacional, permitindo a integração de dados e serviços no ambiente logístico. Dessa forma, soluções como telemetria, videomonitoramento e plataformas digitais passam a viabilizar modelos de assinatura, ampliando o ticket médio e a retenção de clientes. “A tecnologia passa a funcionar como uma camada de inteligência que fortalece o negócio principal e cria novas oportunidades de receita ao longo do tempo”, reforça Neri. Além disso, o movimento também alcança o agronegócio, onde a digitalização da logística tem impacto direto nos custos operacionais. Com o uso de dados e monitoramento em tempo real, produtores e operadores conseguem reduzir desperdícios, evitar falhas mecânicas e aumentar a eficiência no transporte da safra. “Esses ganhos operacionais têm impacto direto na rentabilidade, especialmente em um cenário em que o custo logístico é um dos principais fatores de pressão para o produtor rural”, detalha o executivo. Para empresas de software, a incorporação de dados operacionais das frotas abre espaço para expansão de portfólio sem necessidade de novos investimentos em hardware. Assim, aumenta-se o valor agregado das plataformas e amplia-se a oferta de serviços. Por fim, o modelo de receita recorrente no transporte tende a apresentar maior estabilidade em comparação à comercialização de produtos físicos. A venda de serviços contínuos, baseada em assinaturas, contribui para reduzir a sazonalidade típica do setor e cria uma base mais previsível de faturamento ao longo do tempo. “A recorrência permite que empresas atravessem períodos de baixa venda de ativos sem perda significativa de receita. É uma mudança estrutural na forma como o setor captura valor”, finaliza Neri.
Queda nas vendas de caminhões impulsiona receita recorrente no transporte, sinaliza Platform Science

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