Portos: longe da modernização

31/10/2011

A levar-se em conta as posições que a diretoria da Agência Nacional dos Transportes Aquaviários (Antaq) tem dado a público, o governo federal não alimenta nenhuma disposição de alterar o decreto nº 6.620, de 2008, que mudou em parte a Lei nº 8.630, de 25/2/1993, a chamada Lei de Modernização dos Portos, a pretexto de estabelecer uma política pública portuária para incentivar novos investimentos em portos públicos, parcerias público-privadas e participação da iniciativa privada nas concorrências e nas operações portuárias.

Como se sabe, aquele decreto, em relação aos terminais de uso privativo (TUPs), passou a estimular a sua implementação, desde que façam parte do processo produtivo ou estejam integrados à cadeia produtiva de determinada empresa. Em outras palavras: a legislação passou a estabelecer que novos terminais do setor privado só seriam concedidos para empreendimentos que procurassem atender , majoritariamente, cargas próprias – na maioria, de empresas exportadoras – e não de terceiros.

Não se questiona os benefícios que o decreto tem trazido, inclusive com incentivos à ampliação dos terminais existentes, em busca de sua modernização e de oferta de novas áreas para licitação em portos públicos. Mas, nos caso específico dos TUPs, a medida restritiva tem atuado como obstáculo aos investimentos que vinham sendo dirigidos à ampliação de antigos e à construção de novos terminais portuários. Basta ver que, desde então, poucas concessões foram feitas, o que tem favorecido o congestionamento de contêineres nos portos brasileiros.

Obviamente, se não fosse essa restrição – que limita (e muito) a perspectiva de retorno ao capital investido –, com certeza, novos investimentos privados poderiam ter sido feitos nos portos brasileiros. E as condições de operacionalidade seriam outras e mais favoráveis. Diante das dificuldades levantadas por essa restrição e também em razão de questões burocráticas, o que se tem visto é que os investidores têm optado por adquirir participação em terminais privados já em operação.

Dessa forma, volta-se ao tempo do Brasil colônia quando a Coroa portuguesa estabelecia que a exploração de determinados ramos de atividade econômica dependia de sua autorização explícita, o que favorecia comerciantes ou pequenos grupos que viviam à sombra do Estado – os chamados estancos (monopólios). É a chamada mentalidade cartorial que obriga o investidor que quiser ingressar no setor portuário a disputar os leilões dos terminais que tiveram ou terão seus contratos de arrendamentos por vencer. É de lembrar que até 2014 só no Porto de Santos, responsável por 32% do comércio exterior brasileiro, vencerão 12 contratos de arrendamento de terminais.

É verdade que as nuvens da economia mundial continuam carregadas e não se sabe quando se dissolverão, mas o País, bem ou mal, tem suportado a crise mundial e seu comércio exterior avançado, ainda que à custa das exportações de commodities, na maior parte, devendo crescer pelo menos 15% em relação a 2010. Portanto, foge à luz da razão que tenha de ficar pelo menos mais dois anos e meio à espera de novos investimentos que possam dar início a um efetivo processo de modernização de sua estrutura portuária. 

Aliás, a modernização só virá mesmo no dia em que não houver distinção entre portos públicos e terminais privativos, com a completa privatização dos portos, ficando o governo apenas com a função de regular o setor por meio da atuação de uma agência. Isso, porém, significa tirar as companhias docas do tabuleiro do jogo político-partidário em que sempre servem de moeda de troca. É por isso que a privatização não sai. E a modernização custa a chegar.

Mauro Lourenço Dias é vice-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São Paulo-SP, e professor de pós-graduação em Transportes e Logística no Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br

 

Compartilhe:
Fulwood investe R$ 90 milhões na expansão do Betim Business Park em Minas Gerais
Fulwood investe R$ 90 milhões na expansão do Betim Business Park em Minas Gerais
Inteligência artificial na logística ganha relevância para empreendedores, aponta pesquisa da Loggi
Inteligência artificial na logística ganha relevância para empreendedores, aponta pesquisa da Loggi
Em parceria com a Transvale, Green Cargo avança em testes com caminhões a gás em rotas para o Porto de Santos, SP
Em parceria com a Transvale, Green Cargo avança em testes com caminhões a gás em rotas para o Porto de Santos
Master Trading amplia atuação na importação aeronáutica com operação Full Service para helicópteros
Master Trading amplia atuação na importação aeronáutica com operação Full Service para helicópteros
Movimentação de veículos impulsiona Porto de Paranaguá, e TCP destaca avanço nas operações automotivas
Movimentação de veículos impulsiona Porto de Paranaguá, e TCP destaca avanço nas operações automotivas
CMA CGM anuncia aquisição da FedEx Supply Chain por US$ 1,4 bilhão para ampliar logística na América do Norte
CMA CGM anuncia aquisição da FedEx Supply Chain por US$ 1,4 bilhão para ampliar logística na América do Norte

As mais lidas

01

Expansão da cabotagem e retroáreas logísticas depende de capital fora dos navios, aponta FLG
Expansão da cabotagem e retroáreas logísticas depende de capital fora dos navios, aponta FLG

02

Intelipost amplia plataforma de inteligência logística com soluções para operação omnichannel 
Intelipost amplia plataforma de inteligência logística com soluções para operação omnichannel 

03

Frota elétrica da FedEx no Brasil cresce com 17 veículos e reforça logística sustentável
Frota elétrica da FedEx no Brasil cresce com 17 veículos e reforça logística sustentável