Antes que o PIB confirme uma retomada, antes que o varejo volte a crescer de forma consistente e antes mesmo da divulgação dos indicadores oficiais, um setor costuma sinalizar mudanças no ciclo econômico: o transporte de cargas. Altamente sensível ao crédito, ao nível de atividade industrial e ao giro de estoques, a logística reage de forma quase imediata às decisões de política monetária, funcionando como um indicador antecedente da economia brasileira.
Em janeiro de 2026, a atenção do mercado está concentrada na primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do ano, marcada para os dias 27 e 28 de janeiro, quando será anunciada a decisão sobre a taxa básica de juros. O encontro ocorre após um período prolongado de juros elevados e em meio à expectativa de ajustes fiscais no início do novo ano. Esse contexto cria um ambiente de cautela, mas também abre espaço para uma possível inflexão no ciclo econômico, com reflexos diretos no setor de transporte.

Nos últimos anos, o impacto do crédito caro foi especialmente sentido no transporte rodoviário de cargas, responsável por mais de 60% da movimentação de mercadorias no país. Com juros elevados, indústrias reduziram pedidos, distribuidores enxugaram estoques e o volume de fretes caiu de forma rápida. Como consequência, transportadoras passaram a operar com maior ociosidade, enfrentando dificuldades para repassar custos e um aumento do endividamento.
“A logística funciona como um termômetro antecipado da economia. Quando os juros apertam, o frete é um dos primeiros a sentir. Quando começam a aliviar, a retomada também aparece primeiro nas consultas e no volume de cargas”, afirma Célio Martins, gerente de novos negócios da Transvias.
Essa sensibilidade ocorre porque o transporte depende diretamente do acesso ao crédito. Em períodos de juros altos, o capital de giro encarece, o risco aumenta e as empresas tendem a adiar compras e investimentos. Quando o custo do dinheiro começa a cair, o movimento se inverte — ainda que de forma gradual — e a logística reage antes que o consumo final apareça nas estatísticas oficiais.
Transporte e economia como indicador antecedente
Na prática, esse comportamento pode ser observado por meio de dados operacionais do setor. “No Transvias, é possível identificar esse movimento com clareza. Em ciclos anteriores de flexibilização monetária, as consultas de frete cresceram entre 8% e 14% nos 30 a 60 dias seguintes às decisões do Comitê de Política Monetária, mesmo antes de qualquer melhora perceptível nos indicadores oficiais. Historicamente, quando há sinalização de redução ou estabilização dos juros, as consultas começam a crescer antes mesmo de o PIB confirmar a retomada”, explica Martins.
Segundo o executivo, o segmento B2B tende a reagir primeiro às mudanças no ambiente econômico. “Em momentos de melhora das condições de crédito, as consultas de frete de indústrias, atacadistas e do agronegócio avançam entre 12% e 18%, enquanto o varejo cresce de forma mais gradual, normalmente entre 4% e 7%, reforçando o papel do transporte como indicador antecedente do ciclo econômico”, completa.
Para 2026, a expectativa do setor é de uma retomada gradual, ainda marcada por cautela e planejamento rigoroso. Mesmo assim, especialistas avaliam que o transporte continuará sendo o primeiro segmento a sinalizar se o país entrou, de fato, em um novo ciclo de crescimento. “Se a decisão do Copom sinalizar redução de juros, o transporte vai mostrar isso antes do PIB. O frete reage primeiro”, resume Martins.









