O aumento das entregas urbanas e o retorno gradual ao trabalho presencial estão redesenhando a dinâmica da mobilidade urbana nas grandes cidades brasileiras. Em São Paulo, esse movimento ficou evidente no início de dezembro de 2025, quando a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) registrou mais de 1.400 quilômetros de lentidão, o maior índice já contabilizado na capital paulista.
Segundo dados da CET, o paulistano gasta atualmente, em média, 1h40 em cada deslocamento. Esse cenário é resultado da sobreposição de fluxos: carros particulares e ônibus passaram a dividir ainda mais espaço com motoboys, vans e caminhões, impulsionados pelo crescimento do e-commerce e das remessas expressas. Assim, o desafio da mobilidade deixa de se limitar ao transporte de pessoas e passa a envolver, também, a circulação diária de milhões de mercadorias.

“Desde a pandemia, a cultura de compras on-line só aumenta, o que criou uma pressão estrutural sobre as cidades. O trânsito que vemos hoje é, também, resultado da volta ao presencial e do aumento das entregas.”, afirma Álvaro Echeverría, CEO da SimpliRoute, empresa de software que utiliza inteligência artificial para gestão logística. De acordo com ele, “a solução para esse cenário é operações mais inteligentes, que é a integração de tecnologias avançadas, como a inteligência artificial, capaz de analisar dados em tempo real para otimizar o tempo e a quantidade de veículos necessários para entregas. Isso tem impacto direto no tempo das pessoas, no custo das empresas e na emissão de CO2 dentro das cidades”.
Além do crescimento do comércio eletrônico, estudos indicam uma mudança consistente no modelo de trabalho. Um levantamento do Insper aponta que os brasileiros atuam, em média, 2,7 dias por semana de forma presencial, com tendência de aumento gradual. Esse retorno intensifica o fluxo urbano e ocorre simultaneamente à expansão da logística de última milha, ampliando a pressão sobre a infraestrutura viária.
Para Echeverría, a resposta passa por integrar a logística ao planejamento urbano. Plataformas de roteirização baseadas em IA permitem reduzir atrasos, melhorar a ocupação dos veículos e eliminar quilômetros rodados sem necessidade. Como resultado, há liberação de milhares de horas de trabalho e aumento da capacidade de entrega sem ampliação da frota. “Não é apenas um ganho para as empresas, mas para toda a cidade. Rotas melhores significam menos trânsito e mais eficiência para a economia urbana.”
A expectativa para 2026 é que a eficiência da última milha se torne tão estratégica quanto o transporte público. Segundo o executivo, sem integração entre tecnologia, empresas e políticas urbanas, os recordes de congestionamento tendem a se tornar recorrentes. “Se as cidades não integrarem tecnologia, empresas e planejamento urbano, os recordes de lentidão vão deixar de ser exceção e virar rotina. A boa notícia é que já existe tecnologia capaz de reverter esse quadro”, finaliza.









