IA, dados operacionais e descarbonização avançam no transporte marítimo com foco em emissões reais da cadeia logística

A discussão sobre emissões no transporte marítimo ganha novos contornos com o avanço do uso de dados operacionais e inteligência artificial no setor. O tema esteve no centro dos debates da DataSmart Shipping Conference 2026, realizada agora em março, em São Paulo, SP, reunindo especialistas para analisar como essas ferramentas podem transformar decisões estratégicas no comércio exterior.

Durante o evento, o DatamarLab — iniciativa voltada à pesquisa aplicada e inovação tecnológica — apresentou estudos que buscam ampliar o rigor científico na análise das operações marítimas. O objetivo é integrar diferentes fontes de dados e atores da cadeia logística, promovendo decisões mais precisas em um ambiente de crescente complexidade operacional.

A programação foi dividida em duas etapas. Inicialmente, foram apresentados os pilares estratégicos do laboratório, que incluem pesquisa científica, inteligência artificial, inovação e estudos cognitivos aplicados à tomada de decisão. Em seguida, um debate entre executivos e pesquisadores discutiu a aplicação prática desses estudos no setor.

Dados reais redefinem a medição das emissões no transporte marítimo

Um dos principais destaques foi a proposta de um novo modelo para mensuração das emissões transporte marítimo, baseado em dados reais da rota Brasil-Ásia. A abordagem adota um modelo bottom-up, que analisa variáveis operacionais detalhadas, como velocidade do navio, nível de ocupação e decisões logísticas ao longo da operação.

Esse modelo contrasta com os métodos tradicionais, que utilizam médias por embarcação ou capacidade transportada e, segundo os especialistas, simplificam a complexidade das operações. Ao incorporar dados operacionais reais, a nova metodologia permite compreender com maior precisão como as decisões práticas impactam a pegada de carbono.

“O setor marítimo vive uma explosão de dados e novas ferramentas analíticas. O desafio agora não é apenas ter acesso à informação, mas desenvolver modelos científicos e colaborativos que permitam transformar esses dados em decisões melhores para toda a cadeia logística”, afirma Marcos Silva, CIO da Datamar.

Além disso, o estudo propõe uma mudança conceitual relevante ao ampliar o foco da análise. Em vez de considerar apenas as emissões do navio, a proposta passa a avaliar as emissões ao longo de toda a cadeia logística, incluindo armadores, embarcadores e operadores.

Nesse sentido, a discussão envolve temas como a distribuição das responsabilidades ambientais, a criação de métricas mais confiáveis e o alinhamento entre regulamentações e dinâmica econômica do comércio internacional. “Sem compreender como as emissões são geradas na operação real, corremos o risco de tomar decisões estratégicas baseadas em médias que não refletem a realidade operacional”, destaca o CIO da Datamar.

Outro ponto abordado é o papel crescente do carbono como variável econômica. A tendência é que ele deixe de ser apenas um indicador agregado e passe a influenciar diretamente decisões operacionais e estratégicas.

Paralelamente, o avanço da inteligência analítica, com integração entre modelos físico-operacionais e tecnologias de machine learning, abre espaço para análises preditivas e representações digitais mais sofisticadas das operações marítimas.

“A próxima fronteira da sustentabilidade no transporte marítimo será orientada por dados. Não se trata apenas de reduzir emissões, mas de entender onde elas nascem, quem influencia sua geração e como decisões diferentes podem mudar esse resultado”, afirma o especialista.

Com isso, o debate indica que a agenda de descarbonização no transporte marítimo tende a evoluir para uma abordagem mais integrada, baseada em dados reais, inteligência operacional e maior colaboração entre os diferentes agentes da cadeia logística.

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