Economia Instituto Logweb – Ed. 178

05/04/2017

A CARNE É FRACA OU OS ARREGANHOS DAS BUROCRACIAS

Restaurada a democracia nos idos de 1985, os brasileiros imaginaram, ao menos alguns, que a nova ordem estaria amparada em instituições que acomodassem o princípio da interdependência e do equilíbrio de poderes e exigissem comportamentos sóbrios das burocracias encarregadas de vigiar e punir.
A Operação Carne Fraca denuncia as fragilidades que hoje infestam a República Federativa do Brasil.
Nas repúblicas modernas – se é que temos por aqui alguma coisa parecida – figuram entre as cláusulas pétreas aqueles relativos à representação legitimada pelo voto, à impessoalidade na administração da coisa pública, à constituição de um sistema de poderes e garantias fundados na lei. Parece banal, mas é necessário repetir: é a consciência do dever legal que garante legitimidade à ação dos agentes do Estado – nunca a invocação narcisista e autorreferida às próprias virtudes. Na Terra Brasilis a coisa anda mal, inclusive porque os agentes do Estado, em todas as esferas, são useiros e vezeiros em colocar seus sentimentos (e, digamos, impulsos) pessoais acima da lei.
Esses sistemas de poderes e garantias ancorados na lei é o núcleo central do Estado moderno. É isto que o obriga a punir – no exercício do monopólio da violência – as tentativas de opressão arbitrária de um indivíduo sobre o outro. Não há como pensar na sobrevivência da sociedade dos indivíduos-cidadãos sem imaginar a presença do poder repressivo do Estado. O descumprimento de esse dever pelo ente público termina por solapar a solidariedade que cimenta a vida civilizada, lançando a sociedade no desamparo e na violência sem quartel.
O Estado brasileiro ocupa-se com vigor da produção da insegurança: omite-se diante das tragédias do desemprego, da falta de saúde e de moradia e recua diante da violência dos criminosos. O Estado mostra-se negligente com a vida dos seus cidadãos porque é pressuroso na submissão ao império do particularismo, hoje comandado pelos arreganhos dos prepotentes. Como é de conhecimento geral, os ferrados morrem como moscas, sem atendimento médico, sem oportunidades de vida ou pelas armas dos assassinos à solta. Tal descaso é cúmplice da violação sistemática dos códigos da cidadania moderna, que foram concebidos como uma reação da maioria mais fraca contra o individualismo anarquista e reacionário dos que se imaginam com mais direitos e poderes. Estes, no Brasil, invariavelmente imaginam uma sociedade sem a presença de um Estado democrático e forte, capaz de intimidar os que pretendem – ricos ou pobres – se impor através da intimidação da maioria.
No mundo da rivalidade entre grandes empresas e da inevitável mediação do Estado nas disputas entre os competidores privados, a exceção tende a se tornar a regra. Tal estado de excepcionalidade deságua na proliferação legislativa casuística e na ameaça permanente ao caráter abstrato e universal da norma jurídica. A contradição se torna aguda: de um lado, a liberdade dos indivíduos no mercado exige a independência do Judiciário e a disciplina das forças policiais, certeiros no cumprimento da lei e cuidadosos em seus procedimentos, de outra parte, a “corrupção” engendrada pela concorrência econômica inexoravelmente mediada pelo Estado, estimula a formação de correntes de opinião que propugnam por formas primitivas de punição e de vingança.
Isso suscita a legitimação de tropelias e ilegalidades praticadas pelas burocracias públicas e promove a subversão da hierarquia entre os poderes do Estado. As empresas corrompem a política e, assim, degradam o instituto da representação popular. Procuradores e policiais fazem gravações clandestinas ou inventam provas e assim corrompem o princípio da legalidade e da impessoalidade nos atos da administração pública. Nas altas esferas do Olimpo midiático, a imprensa diária dispara a cortina de relâmpagos, trata de manipular a opinião pública, atemorizar juízes e fomentar a arbitrariedade dos esbirros e beleguins.

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo – Doutor em economia. Autor de vários livros e professor titular da Unicamp e Facamp.

Compartilhe:
Veja também em Conteúdo
Grupo Casas Bahia amplia monetização da operação logística e fortalece nova frente de negócios
Grupo Casas Bahia amplia monetização da operação logística e fortalece nova frente de negócios
Imediato Nexway assume centro de distribuição da Ambev em Araçatuba, SP
Imediato Nexway assume gestão do Centro de Distribuição da Ambev em Araçatuba, SP
Hub logístico multimodal do BH Airport concentra operações da mineração em Minas Gerais
Hub logístico multimodal do BH Airport concentra operações da mineração em Minas Gerais
Certificação ABNT para big bags cria padrão técnico para transporte e armazenamento de cargas não perigosas
Certificação ABNT para big bags cria padrão para transporte e armazenagem de cargas não perigosas
Centro Logístico Rio Claro recebe investimento de R$ 15 milhões para expansão da capacidade operacional
Centro Logístico Rio Claro recebe investimento de R$ 15 milhões para expansão da capacidade operacional
Exportações brasileiras ao Golfo recuam em abril, mas agronegócio mantém crescimento nas vendas
Exportações brasileiras ao Golfo recuam em abril, mas agronegócio mantém crescimento nas vendas

As mais lidas

01

Eduardo Barreiros assume liderança da Miebach Consulting no Brasil após mudança na estrutura executiva
Eduardo Barreiros assume liderança da Miebach Consulting no Brasil após mudança na estrutura executiva

02

Leilão de imóveis dos Correios inclui Complexo Baumann, em São Paulo, SP, e outros 33 ativos em várias regiões do Brasil
Leilão de imóveis dos Correios inclui Complexo Baumann, em São Paulo, SP, e outros 33 ativos em várias regiões do Brasil

03

Prestex reduz banco de horas em 80% e amplia produtividade com foco em saúde mental e adequação à NR-1
Prestex reduz banco de horas em 80% e amplia produtividade com foco em saúde mental e adequação à NR-1