Tarifaço: Impactos na logística brasileira

Em seu artigo como colunista do Portal Logweb, Rafael Doria analisa os efeitos da sobretaxa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros e suas consequências imediatas e estruturais para a logística nacional. O texto mostra como o setor, já pressionado por crises recentes, enfrenta alta de custos, colapso no modelo just-in-time e risco de retração das exportações em até 75%. Destaca ainda o impacto sobre pequenos operadores, a possibilidade de concentração de mercado e o risco de efeito cascata no transporte interno.

Desde 2020, a logística brasileira vive em modo sobrevivência: pandemia, bloqueios de rotas, crises geopolíticas, eventos climáticos extremos. Mas 2025 decidiu aumentar o nível do jogo. Em julho, os Estados Unidos anunciaram um tarifaço de 40% sobre diversos produtos brasileiros, somando-se aos 10% já vigentes. Em agosto, a bomba estourou.

O reflexo foi imediato: corrida contra o relógio para embarcar mercadorias, Porto de Santos batendo recordes, carga aérea disputada a preço de ouro e muita aposta no improviso. Ainda assim, a maré não perdoou: navios parados, contratos rasgados e clientes sem previsão de entrega.

A boa notícia? Nem tudo foi para a guilhotina — 694 produtos escaparam da tarifa, mas 36% das exportações para os EUA continuam na linha de fogo. A má notícia? Isso já bastou para inflar fretes marítimos em até 18%, aumentar custos logísticos médios em 12%, derrubar o OTIF de 92% para 73% e colocar o modelo just-in-time no corredor da morte. Agora, é just-in-case: estoques 15% a 25% maiores, mais capital parado, menos competitividade.

Tarifaço: Impactos na logística brasileira

O impacto não é só imediato. Se essa taxação durar, analistas já falam em um encolhimento de até 75% das exportações para os EUA — com redução drástica de linhas marítimas, cancelamento de rotas, ociosidade de terminais e consolidação forçada no setor logístico. Operadores pequenos podem desaparecer; empresas de transporte rodoviário perder seu fluxo de carga; investimentos privados mudar de endereço.

Essa crise deixa evidente algo que já sabíamos, mas preferíamos ignorar: nossa logística não está preparada para reagir rapidamente a choques externos. Redirecionar cargas para Ásia, Europa ou Oriente Médio não é apertar um botão. É renegociar contratos, adaptar infraestrutura, lidar com exigências fitossanitárias e vencer a burocracia que ainda sufoca o comércio exterior.

O tarifaço também deve provocar uma mudança silenciosa nas cadeias de suprimentos: diversificação de portfólio, ajustes técnicos e, em alguns casos, realocação parcial da produção para países com acordos comerciais mais vantajosos. Isso pode significar joint ventures estratégicas e uso de zonas francas como forma de “driblar” tarifas.

Há ainda o risco de um efeito cascata doméstico. Menos exportações significam menos carga para escoar internamente, pressionando o transporte rodoviário e ferroviário. Isso pode acelerar fusões e aquisições no setor, concentrando mercado nas mãos de poucos e encarecendo serviços para pequenos e médios exportadores.

Por outro lado, se o país souber ler o momento, há espaço para um salto qualitativo. Digitalização aduaneira, ampliação de corredores logísticos para novos mercados e acordos comerciais estratégicos podem transformar o choque atual em trampolim para maior presença global. Mas isso exige visão de longo prazo e coragem política para mexer nas estruturas que há anos funcionam no modo remendo.

O tarifaço é, ao mesmo tempo, um problema e um recado: dependemos demais de poucos mercados, nossa infraestrutura ainda patina e a logística brasileira opera no limite. Sem reformas estruturais, continuaremos a reagir às crises com improviso — e cada golpe será mais difícil de absorver.

Três futuros possíveis para o tarifaço de 50%

1. Cenário Otimista – “Virando o jogo”
Governo e setor privado agem rápido: portos modernizados, aduana digital, acordos emergenciais e diversificação real de mercados. Em dois anos, a dependência dos EUA cai para menos de 8% das exportações. Novas rotas para Ásia e Oriente Médio aumentam a resiliência e melhoram indicadores logísticos. O tarifaço vira case de transformação.

2. Cenário Realista – “Remendando o barco”
A adaptação acontece, mas de forma parcial e desigual. As exportações para os EUA caem pela metade, parte compensada por novos mercados com custos mais altos. A logística melhora em alguns pontos, mas a infraestrutura continua no limite, deixando o Brasil vulnerável ao próximo choque.

3. Cenário Pessimista – “Afundando aos poucos”
As tarifas se tornam permanentes, o fluxo Brasil–EUA despenca 75%, linhas marítimas são cortadas e operadores menores desaparecem. O mercado logístico se concentra, fretes disparam e a falta de diversificação mantém o país preso a um ciclo de baixa competitividade. O tarifaço entra para a história como um golpe sem recuperação plena.

Se o Brasil vai transformar o tarifaço em trampolim ou em naufrágio, ainda não sabemos. Mas uma coisa é certa: ficar parado não é opção.

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Rafael Doria

Rafael Dória

Bacharel em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), possui experiência em logística e operações, liderando projetos de otimização e transformação operacional. Atuou na Leroy Merlin e, atualmente, é consultor de Supply Chain na Andersen Consulting (Ex- Connexxion).

 

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