Neste artigo, o colunista do Portal Logweb, Paulo Roberto Guedes, analisa as transformações econômicas, sociais e políticas da China e os impactos do modelo chinês sobre os debates globais relacionados à democracia, capitalismo, distribuição de renda e renovação institucional.
Já há algum tempo, venho defendendo que sem Democracia seria muito mais difícil viver. E sempre acreditei, também, que um capitalismo aperfeiçoado com relação ao que temos atualmente, isto é, buscando permanentemente a melhoria e a justeza do processo de distribuição de rendas (1) seria a solução para que se diminuísse alguns dos maiores problemas da humanidade – a miséria e a pobreza.
Como consequência, sempre acreditei na economia de mercado, mas com intervenção e participação significativa do Estado. Algo como propõe a Social- Democracia, que tem como um de seus principais alicerces a concordância das pessoas em relação à ideia de justiça estabelecida a partir da equidade, ao invés do interesse próprio. Aliás, característica comum dos países mais desenvolvidos do mundo atual, essas economias não só admitem o funcionamento dos mercados, como também a participação do Estado, através de políticas que estimulem esses mercados na direção correta e a favor do comércio, do crescimento, do investimento, do desenvolvimento e da inovação.

O prêmio Nobel de Economia de 1993, Douglass North, defendia o Estado, garantidor da ordem e dos direitos de propriedade, igualmente responsável pelo estabelecimento das regras nas quais os seres humanos interagem como trabalhadores, consumidores e investidores. E considerando que a justificativa para um mercado livre totalmente eficiente exigia suposições impossíveis de se encontrar na prática – a “mão invisível” de Adam Smith e os mercados livres jamais conseguiram os melhores resultados quando se tratava de medir o desempenho da economia ou de avaliar a eficiência da sociedade como um todo – a participação do Estado foi cada vez mais requerida.
Escrevi várias vezes a respeito. Os artigos mais recentes publicados por mim estão disponíveis aqui mesmo no site da Logweb: “A democracia brasileira precisa ser defendida por todos nós. E sempre, pois não se pode subestimar o poder e a insistência de seus inimigos para derrubá-la” (30/11/23); “Extremismo ideológico e divergências históricas profundas inviabilizam a construção de uma nova ordem internacional” (14/03/25); “Democracia ainda como prioridade” (14/04/25).
Mais recentemente tive a oportunidade de ler o livro “A nova China – Para além do socialismo e do capitalismo”, editado pela Edipro em 2025. Escrito pela chinesa e professora de economia da London School of Economics and Political Science, Keyu Jin já trabalhou no Banco da China, no Banco Mundial e no FMI.
Mesmo considerando que os chineses construíram um modelo próprio, adaptado às suas características e cultura, e de acordo com seus objetivos bem específicos, o livro demonstra, através da realidade atual, “que é possível reconciliar o que pode parecer contraditório aos olhos ocidentais”. Permito-me trazer, a seguir, algumas das observações – às vezes na íntegra – feitas por Keyu.
Para iniciar, destaco uma frase que considero significativa: a China reinventou-se como potência global, com base na fusão da política e da economia.
Escreveu Keyu: a partir dos anos 2000, quando formados, os estudantes chineses que estavam nos EUA ou em algum outro País mais desenvolvido do mundo ocidental começaram a voltar (2) para a China para se aproveitarem das oportunidades que lá estavam sendo criadas. Fossem por causa dos altos salários, pela montagem de novas equipes de pesquisa ou trabalho ou pelos programas e projetos de desenvolvimento, e em qualquer campo ou disciplina, o que se constatou foi que o sucesso profissional de cada um deles poderia ser alcançado em seu próprio País.
E a China, mesmo considerando que as intervenções do Estado no livre mercado e na economia de uma forma geral pudessem sugerir algo do mundo ocidental, criou um modelo que, ao invés de se contrapor, complementou as forças da concorrência (3) e do mercado livre (4).
Importante: já há quase 50 anos, Deng Xiaoping trabalhou incessantemente para que os membros do partido não se deixassem levar por discussões ideológicas, nas quais predominava o embate entre socialismo e capitalismo. Seu incentivo foi montar um “sistema de governança único”, que utilizasse as ‘boas’ variáveis de cada uma dessas duas correntes.
Como comentado por Keyu, uma estrutura administrativa que combinava linhas de comando verticais com “jurisdições horizontais, ou blocos, em uma rede cujo alcance se estende a todos os cantos do país” foi, e ainda é, “essencial para a capacidade de a China construir novas infraestruturas com velocidade surpreendente, para colher uma safra repentina de medalhas de ouro olímpicas ou para gerenciar uma pandemia global”.
O que se depreende dessa estrutura utilizada é que, às vezes, havia a predominância da autoridade central e, em outras oportunidades, a tendência era a favor dos governos locais. Mas sempre com o completo controle do governo central, posto que se sabia que “todo choque ou crise externa tende a deslocar o poder de volta para a liderança superior”.
Vale lembrar que o governo central jamais deixou de ser proprietário único da terra, de seus respectivos recursos e dos bancos do país. Adicionando-se a isso o completo controle que o governo central tinha sobre as definições a respeito do crescimento da economia, sobre os sistemas que regulam os sistemas financeiros, mercados imobiliários e de emissão de licenças e/ou permissões, todas elas, principalmente no que diz respeito à redistribuição de riquezas. Sem qualquer dúvida, uma das prioridades do governo central era, e ainda é, a estabilidade.
E aqui vale outra observação: “a competição entre regiões e a rotação obrigatória de líderes nos níveis provinciais e municipais impediam que os funcionários se unissem contra a autoridade central e explorassem as empresas locais para ganho individual”.
Por outro lado, mesmo considerando-se que a “imprevisibilidade e o papel descomunal do Estado”, como no caso chines, constituíam-se em sérios riscos, a crença, a força e a determinação do povo chinês (5) jamais deixaram de estar presentes enquanto se buscava (e ainda se busca) colocar a China em um lugar de destaque no cenário mundial.
Mesmo aceitando-se que o desejo de orientar e gerenciar todo um povo tem origem milenar e histórica no ‘paternalismo’ chinês, está claro que esse comportamento ainda faz parte do processo que prioriza os interesses da comunidade sobre os interesses pessoais, em evidente contraste com um dos principais valores do mundo ocidental, que enfatiza os indivíduos.
Aliás, como destaca a professora Keyu, “o grande teste do sistema da China no futuro será o de descobrir como uma mistura das mais diversas preferências individuais pode se refletir e agregar resultados coletivos”.
Já se constata, por exemplo, um exagerado aumento na riqueza de poucos privilegiados, com consequente aumento na desigualdade da renda (6), aflorando um problema social que, contido ao longo do tempo, poderá se tornar em problema urgente. Não à toa, o Estado chinês se vê obrigado a “fornecer um nível básico de bem-estar para todos os seus cidadãos”. Missão número 1 do governo chinês, já estabelecida há 40 anos: alcançar a prosperidade comum e dar resposta a um dos grandes dilemas do capitalismo, talvez o maior: “como a harmonia social pode acompanhar o crescimento da riqueza?”
E se está claro, inclusive para o mundo ocidental, que a melhoria do processo de distribuição de renda não pode ser alcançada simplesmente com as ‘soluções de mercado’, ou com o capitalismo na forma como o conhecemos atualmente (7), é chegado o momento de se enfrentar o problema.
Entre os chineses, mesmo que muitos considerem objetivos inconciliáveis, já se definiu como fundamental que se busque um novo equilíbrio entre “maior igualdade e os incentivos de mercado”, entre “segurança e o crescimento” e entre “a autossuficiência e uma interação contínua com o Ocidente”.
Mas, é óbvio que os problemas não se limitam a isso, pois, ao mesmo tempo em que as pessoas tenham melhor acesso à renda, suas prioridades mudam e o equilíbrio entre o trabalho e sua vida pessoal, por exemplo, também se torna importante. Com certeza, a maturidade econômica cria complexidades sociais novas e diferentes e o ‘paternalismo’ começa a dar lugar a “uma representação política maior para todos”.
Pergunta intrigante e importante que a professora Keyu, em seu livro aqui já comentado, fez a si mesma: “o sistema político-econômico da China poderá continuar se adaptando ao panorama em transformação?” E mais: mesmo sendo improvável que a China chegue a uma democracia do estilo ocidental, como ficarão seus cidadãos, agora e mais do que nunca “sintonizados com um ambiente social e legal que leva em conta e protege seus direitos legítimos?” (8).
Henry Kissinger, em seu livro “Ordem Mundial” (9), comentou: “a China percorreu também a trajetória mais complexa, indo de uma antiga civilização, passando por um império clássico, daí para a revolução comunista até atingir o status de uma grande potência moderna – um rumo que acabará por exercer um impacto profundo sobre a humanidade”.
Kissinger tinha razão, pois a China demonstrou que é possível uma economia de mercado ser compatível com o socialismo, como já é com o capitalismo. Foi essa inovação, esse novo modelo, que contribui, de forma objetiva, para a liberação econômica do país. De uma forma bem característica, e própria, a China conseguiu combinar as forças privadas e estatais e adaptá-las à sua situação que, ressalte-se, exige forte participação do governo (9).
Outra observação feita por Keyu: “a combinação entre direção estatal em nível macro e mecanismos de mercado em nível micro explicam os rápidos surtos de crescimento da China e sua ascensão tecnológica em tão curto espaço de tempo”.
Com a morte de Mao, Deng Xiaoping assumiu o poder na China e trabalhou incansavelmente para levar o país ao que ele chamou de “socialismo com características chinesas”: reforma da economia e abertura da sociedade. Os principais enfoques foram: concentração nas mudanças dentro de uma perspectiva evolutiva; estabelecimento de princípios gerais e analise a respeito de cada um deles; manutenção do papel histórico chinês; e o envolvimento com a realidade internacional. Não tripudiar e não proclamar liderança, mas estender a influência da China modernizando tanto a sociedade quanto a economia, evitar a democracia e montar um sistema mais transparente, no qual os resultados deverão ser obtidos muito mais pelos procedimentos legais do que do padrão estabelecido de relações pessoais e familiares, são fatores complementares importantíssimos.
Até conselhos keynesianos foram aproveitados: “uma economia de mercado cuidadosamente gerida pelo governo”. Para se ter ideia, em 2008, em pleno ano de crise, a China realizou gastos cerca de 2,5 vezes maiores do que aqueles realizados pelo governo dos EUA na época do presidente Obama. “A China persistiu, enquanto o restante do mundo se voltou para a austeridade”.
Com relação à soberania de um país, escreveu Deng Xiaoping: “na realidade, a soberania nacional é muito mais importante do que os direitos humanos, mas o Grupo dos Sete (ou Oito) frequentemente viola a soberania dos países pobres, fracos, do Terceiro Mundo. Seu discurso sobre direitos humanos, liberdade e democracia é concebido apenas para preservar os interesses dos países fortes e ricos, que tiram vantagem da sua força para oprimir os países fracos, e que buscam a hegemonia e praticam a política do poder” (10).
Segundo Kissinger, a nova ordem mundial exigirá “um sutil equilíbrio entre moderação, força e legitimidade”. “Na Ásia, ela deve combinar um equilíbrio de poder com um conceito de parceria. Uma definição puramente militar de equilíbrio acabará por se transformar gradualmente em confronto. Uma abordagem puramente psicológica em relação à parceria suscitará receios de uma possível hegemonia”. Ou se alcança esse ponto de equilíbrio ou o desastre se realizará.
Se os processos de concentração de renda se mantiverem (11), se as pessoas não se sentirem caminhando para o bem-estar, se as ameaças ao meio ambiente continuarem, se os conflitos entre pessoas e nações aumentarem e as tensões geopolíticas prosperarem, o mundo colocará em xeque sua própria existência. Ao contrário, caso entendamos que os seres humanos, apesar de suas diferenças, têm muito mais características comuns do que imaginam, será possível evitar o desastre.
Para isso, os países de todo o mundo precisarão se adaptar “às novas realidades e se harmonizarem com elas”. Mudanças e processos de renovação são comuns à vida do ser humano desde o princípio. E a China, com essa constatação, já está buscando um novo manual, no qual as pessoas passam a importar muito mais do que antes (12).
Ainda não sabemos se o modelo chinês pode ser aproveitado, através de processos efetivos de adaptação, por outros países, mas não há qualquer dúvida que destinar mais tempo para compreender as mudanças e os processos de renovação que se apresentam, considerando-as como partes de um processo contínuo, e diminuir esforços de competição, será melhor para todos.
(1) Mesmo considerando que as sociedades igualitárias crescem mais rápidas e melhores, há que se considerar que renda, para as pessoas, não pode ser inteiramente traduzida como bem-estar. Portanto, é necessário que se considere outras variáveis – econômicas, sociais, políticas – como forma mais justa de se avaliar os objetivos a serem buscados. Em termos simples: o objetivo maior será, sempre, maximizar a felicidade e o bem-estar das pessoas. “Os assuntos econômicos só importam quando fazem as pessoas mais felizes”, disse o economista britânico Andrew Oswald.
(2) Segundo dados do Ministério da Educação da China, dos 5 milhões de estudantes que concluíram seus estudos no exterior entre 2000 e 2019, aproximadamente 86% voltaram para a China (“A Nova China – Para além do Socialismo e do Capitalismo”, livro publicado por Keyu Jin).
(3) Como devidamente observado, “embora a competição seja essencial para as economias de mercado, é difícil manter campo de jogo nivelado, o que vale para todas as economias, inclusive as ocidentais, em que as grandes corporações dispõem de vantagens injustas e de um poder de influência que é usado para suprimir a concorrência”: Keyu Jin (“A Nova China – Para além do Socialismo e do Capitalismo”, livro publicado originalmente em 2023 pela Edipro).
(4) Segundo informações publicadas por Keyu, na China de hoje, o setor privado é responsável por 60% da produção nacional, 70% da riqueza do País e 80% das vagas de emprego no setor urbano. Há “uma fusão única das economias estatal e de mercado, alcançando um equilíbrio entre Estado e indústria, a coordenação e os incentivos de mercado, o comunitarismo e o individualismo”.
(5) Pesquisa Mundial de Valores 2017/2020 – 95% dos participantes chineses tinham alta confiança em seu governo, contra 33% nos EUA e 45%, em média, no resto do mundo. Em 2022, 91%, contra 39% nos EUA. (“A Nova China – Para além do Socialismo e do Capitalismo”, livro de Keyu Jin).
(6) “A metade inferior da população chinesa reúne, em termos de distribuição de renda, apenas 15% da renda do país. Em comparação com 12% nos EUA e 22% na França” (“A Nova China – Para além do Socialismo e do Capitalismo”, livro de Keyu Jin).
(7) “Crenças e princípios econômicos que costumávamos valorizar precisam ser questionados e, como a mão invisível do mercado continua nos decepcionando, alguns entendem que a tese de uma intervenção governamental direcionada é cada vez mais convincente” (“A Nova China – Para além do Socialismo e do Capitalismo”, livro de Keyu).
“Mas a revolução dos mercados foi longe demais. Nos EUA e em outras nações desenvolvidas, ela chegou em detrimento da igualdade econômica, da saúde, da democracia liberal e das futuras gerações” (“A hora dos economistas”, Binyamin Appelbaum, livro editado pela Sextante, 2023).
(8) “Sob a Lei de Procedimento Administrativo, as pessoas podem processar instituições governamentais por violação de seus direitos pessoais e têm ganhado causas em tribunais civis” (“A Nova China – Para além do Socialismo e do Capitalismo”, livro de Keyu Jin).
(9) “Ordem Mundial”, livro de Henry Kissinger, publicado pela Objetiva em 2015.
(10) “A Nova China – Para além do Socialismo e do Capitalismo”, livro de Keyu Jin.
(11) “O governo já protege os americanos do mercado de várias formas – mas essas proteções são concedidas com mais frequência a americanos ricos, às custas de todas as outras pessoas”. “Os EUA são o único país entre as nações desenvolvidas a permitir que a renda determine quem terá acesso a atendimento médico. Ou considere que, na maioria das áreas metropolitanas, uma vaga em boa escola pública é obtida comprando uma casa em um bairro rico nos arredores do centro urbano” (“A hora dos economistas”, Binyamin Appelbaum, livro editado pela Sextante, 2023).
(12) O crescimento econômico como objetivo maior, inicialmente caracterizado na China, já foi substituído por um modelo que enfatiza a melhoria dos indicadores do desenvolvimento, tais como manter o ambiente mais limpo, obter mais segurança alimentar e melhor qualidade de vida. Ou seja, um crescimento mais moderado, ordenado, regulado e monitorado. A eficiência econômica pode não ser desejável socialmente, principalmente quando não garante o bem-estar geral da nação.









