No seu novo artigo para o Portal Logweb, o colunista Victor Adriano Tavares analisa, por meio de uma analogia com o futebol, os desafios enfrentados pelos gestores de logística em ambientes onde a opinião informal muitas vezes se sobrepõe à análise técnica, aos dados e à visão sistêmica da operação.
No Brasil, diz-se que todo cidadão nasce com dois talentos inatos: o de técnico de futebol e o de gestor público. Curiosamente, existe um terceiro “diploma informal” que muitos carregam sem saber: o de especialista em logística.
Basta um caminhão atrasar, um pedido não chegar no prazo ou um estoque ficar negativo para que surjam análises rápidas, diagnósticos definitivos e soluções milagrosas — geralmente formuladas sem acesso aos dados, às restrições ou às responsabilidades reais da operação.
Assim como no futebol, onde milhões opinam sobre escalação, esquema tático e substituições, a logística é uma área altamente exposta. Ela conecta produção, transporte, estoque, tecnologia, fiscal, financeiro e atendimento ao cliente. Quando funciona bem, passa despercebida. Quando falha, vira o centro das atenções. É nesse contexto que surge o “técnico de arquibancada logístico”: aquele que observa o resultado final e acredita compreender todo o jogo.

O fenômeno da visão de superfície
A semelhança entre futebol e logística não é apenas retórica. Ambas são atividades de alta visibilidade e baixo perdão ao erro. Um gol perdido ou uma entrega atrasada são eventos públicos, mensuráveis e emocionalmente carregados. Porém, o que raramente é percebido é a quantidade de variáveis que antecedem aquele resultado.
O “palpiteiro” logístico costuma analisar a operação de forma fragmentada, focando em um único indicador ou evento isolado. Se o frete aumentou, a conclusão é imediata: “negociação ruim”. Se o estoque está alto, a sentença vem rápida: “falta de planejamento”. O que fica fora da análise são fatores como:
– Janelas fiscais e tributárias, que obrigam antecipações ou postergações de embarques;
– Restrições de circulação urbana, como rodízios, zonas de restrição e horários controlados;
– Lead times internacionais, impactados por câmbio, portos, alfândega e geopolítica;
– Capacidade limitada de fornecedores e transportadores em períodos sazonais;
– Custo de oportunidade do capital imobilizado, que exige equilíbrio entre disponibilidade e caixa;
– Níveis de serviço (SLA) acordados com clientes estratégicos, que muitas vezes justificam custos maiores.
Assim como no futebol, onde o torcedor vê apenas o chute final, o palpiteiro ignora todo o trabalho tático, físico e estratégico que acontece antes da bola chegar ao atacante.
A gestão de dados vs. o “feeling do corredor”
O futebol moderno abandonou há muito tempo as decisões puramente intuitivas. Hoje, clubes utilizam análise de desempenho, GPS, mapas de calor, estatísticas avançadas e ciência de dados para orientar decisões técnicas. Na logística, o caminho é o mesmo.
Gestores profissionais operam com:
– TMS (Transportation Management System) para roteirização, custos e performance de transporte;
– WMS (Warehouse Management System) para controle de estoque, picking, acuracidade e produtividade;
– BI e Analytics para análise de tendências, gargalos e previsibilidade;
– KPIs claros, como OTIF, nível de serviço, giro de estoque, custo por pedido e taxa de avarias.
O “técnico de arquibancada”, por outro lado, se apoia no chamado feeling do corredor: percepções informais, experiências pontuais e comparações simplistas. Seu argumento costuma começar com frases como “na empresa onde trabalhei…” ou “isso sempre foi feito assim”.
O desafio do gestor logístico está justamente em sustentar decisões técnicas em um ambiente onde a opinião muitas vezes fala mais alto que o dado — especialmente em culturas organizacionais pouco maduras em gestão.
O jogo real: planejamento vs. imprevistos
Mesmo o melhor planejamento não elimina o imprevisto. A logística, assim como o gramado, é viva e dinâmica. Greves, panes mecânicas, acidentes, eventos climáticos extremos, falhas de sistema e mudanças regulatórias fazem parte do jogo.
É nesse intervalo entre o plano e a execução que o palpiteiro encontra espaço para questionar toda a estratégia. Um atraso pontual vira “prova” de incompetência. Um custo extraordinário vira “erro de gestão”. O que não se considera é que eficiência logística não é a ausência de problemas, mas a capacidade de absorvê-los, mitigá-los e resolvê-los com o menor impacto possível no cliente e no negócio.
O gestor experiente entende que:
– Nem todo desvio é falha;
– Nem toda contingência é previsível;
– Nem toda decisão barata é sustentável.
Seu papel é proteger o SLA, preservar a integridade da malha logística e garantir a continuidade operacional — mesmo sob pressão.
Governança, comunicação e cultura
Um dos maiores antídotos contra o “palpite de arquibancada” não é o confronto, mas a governança bem estruturada e a comunicação clara. Assim como técnicos bem-sucedidos explicam seus projetos à diretoria e à torcida, gestores logísticos precisam traduzir a complexidade da operação para a organização.
Isso inclui:
– Indicadores bem definidos e compartilhados;
– Rituais de acompanhamento (S&OP, reuniões de performance);
– Transparência sobre riscos e trade-offs;
– Educação logística para áreas não técnicas.
Quando a empresa entende o jogo, o barulho da arquibancada diminui.
Conclusão: O placar final
Logística e futebol são movidos por paixão, urgência e pressão constante. Mas são vencidos por estratégia, disciplina e consistência. O palpiteiro sempre terá a vantagem de opinar sem carregar o peso do KPI, do orçamento ou da responsabilidade legal e fiscal.
Ao gestor logístico cabe o papel mais difícil: ouvir a arquibancada com filtro, identificar possíveis insights escondidos nas críticas, mas jamais abandonar o plano tático baseado em dados, experiência e visão sistêmica.
No final do campeonato, o que mantém o técnico no cargo — e o gerente de logística no comando — não é a ausência de críticas, mas a consistência dos resultados, a resiliência da operação e a confiança construída ao longo da temporada.
E como no futebol, títulos não se ganham com gritos da arquibancada, mas com trabalho silencioso, estratégia bem executada e time alinhado dentro de campo.









