Na era da integração logística e da competição em redes, as empresas já não disputam mercado apenas por preço ou qualidade. Neste artigo, Elcio Grassia, colunista do Portal Logweb, analisa como a gestão da cadeia de suprimentos passou de função operacional a elemento central da estratégia competitiva, destacando o papel da colaboração, da tecnologia e da visão de longo prazo na construção de vantagens sustentáveis.
Durante décadas, aprendemos que preço, qualidade, variedade e atendimento ao cliente são os pilares fundamentais da competição empresarial. A lógica era simples: oferecer o melhor produto, ao melhor preço, com maior conveniência, ganhava o cliente. No entanto, essa lógica está sendo desafiada por uma nova realidade: a gestão da cadeia de suprimentos tornou-se um diferencial competitivo central.

A SCM como estratégia e vantagem
Com a evolução da logística, planejamento e operações, a cadeia de suprimentos passou de uma função operacional para uma alavanca estratégica. No Brasil, vemos isso na importância crescente de processos como S&OP, IBP e planejamento colaborativo. Empresas que integram com excelência fornecedores, produção, logística e demanda estão superando aquelas que operam de forma isolada ou reativa.
Os custos logísticos no país ultrapassam os 15% do PIB. Isso, longe de ser apenas um desafio, representa uma enorme oportunidade de ganho competitivo para empresas que dominam seus fluxos logísticos.
A nova competição: bloqueio ou construção?
Hoje, as empresas podem usar suas cadeias de suprimento de duas formas:
1. Como instrumento positivo de competitividade, gerando valor com inovação, colaboração e eficiência;
2. Ou como ferramenta de bloqueio, monopolizando insumos, espaços logísticos ou acessos de mercado, impedindo a atuação de concorrentes.
Esse segundo caminho leva a um ambiente tóxico, onde contratos exclusivos, bloqueio de fornecedores ou ocupação agressiva de infraestrutura criam barreiras artificiais ao mercado. Mesmo que tais práticas não sejam ilegais, são eticamente questionáveis e não constroem valor duradouro.
Cooperação como força competitiva
Em contraste, empresas que apostam em cooperação estratégica estão colhendo frutos. A prática de Planejamento, Previsão e Reposição Colaborativos (CPFR) vem ganhando espaço, viabilizada por tecnologias digitais, redução de custos e maior maturidade nos relacionamentos de Supply Chain.
Essas empresas compartilham dados em tempo real, integram previsões com parceiros e planejam em conjunto. Os benefícios são claros:
– Redução de estoques e rupturas
– Ganho de previsibilidade e agilidade
– Aumento da confiança e sinergia na rede de valor
Exemplos reais envolvem desde indústrias de bens de consumo até players do setor farmacêutico e de eletroeletrônicos.
Mentalidade de fronteiras abertas
A digitalização da cadeia de suprimentos exige uma mentalidade mais aberta. Isso significa:
– Colaboração, mesmo entre concorrentes, em temas como transporte, armazenagem e compartilhamento de dados
– Criação de indicadores (KPIs) que valorizem o ganho coletivo
– Uso de contratos responsivos, com incentivos dinâmicos, apoiados por inteligência artificial
Empresas que compartilham frotas ou Centros de Distribuição, ou que abrem suas plataformas de previsão e reabastecimento a fornecedores estratégicos, estão liderando essa transformação.
O caminho para o crescimento sustentável
Num país com desafios estruturais e alta complexidade operacional, a colaboração na cadeia de suprimentos é um caminho de crescimento sustentável. Empresas que planejam com visão de longo prazo, investem em tecnologia e constroem redes confiáveis se posicionam melhor frente à instabilidade e às mudanças de mercado.
O verdadeiro capitalismo de longo prazo não se baseia em bloqueios, mas sim em construir vantagens duradouras com base em confiança, transparência e inovação compartilhada.









