Quando a busca exagerada por eficiência fragiliza a logística

Neste artigo, Paulo Roberto Bertaglia propõe uma reflexão crítica sobre a busca exagerada por eficiência na logística e seus impactos sobre a resiliência, o nível de serviço e a sustentabilidade das cadeias de suprimentos em um ambiente cada vez mais volátil e imprevisível.

Durante décadas, eficiência foi tratada como o principal objetivo da logística. Reduzir estoques, enxugar ativos, eliminar folgas, acelerar fluxos e operar com o menor custo possível tornaram-se metas quase sagradas. Em um ambiente relativamente previsível, essa lógica funcionou e gerou ganhos relevantes de produtividade e competitividade.

O problema é que o contexto mudou, mas o discurso permaneceu o mesmo.
Hoje, as cadeias de suprimentos operam em um cenário de volatilidade permanente. Oscilações bruscas de demanda, eventos climáticos extremos, conflitos geopolíticos, rupturas de fornecimento, restrições de capacidade e pressão crescente por níveis de serviço mais elevados fazem parte do cotidiano. Ainda assim, muitas empresas continuam perseguindo eficiência como se o mundo fosse estável.

Nesse novo cenário, surge uma constatação incômoda: operações excessivamente eficientes tornaram-se estruturalmente frágeis. Quanto mais ajustado o sistema, menor a margem de reação. Qualquer desvio, por menor que seja, transforma-se rapidamente em crise.

Neste artigo proponho uma reflexão necessária e atual: em que momento a busca exagerada por eficiência deixa de gerar valor e passa a comprometer a resiliência, o nível de serviço e os resultados do negócio?

Eficiência não é sinônimo de robustez

Eficiência mede o quanto se faz com menos recursos. Robustez mede o quanto o sistema suporta variações sem colapsar.
Na prática, muitas operações logísticas foram desenhadas para operar no limite: estoques mínimos, frotas com utilização máxima, armazéns sem folga operacional e equipes dimensionadas para o dia “perfeito”.

Esse modelo funciona bem quando tudo ocorre conforme o planejado. O problema é que o mundo real raramente se comporta dessa forma.
Quando não há margem, não há opção. E quando não há opção, qualquer imprevisto se transforma em urgência.

Uma logística robusta não é aquela que opera sempre no menor custo possível, mas aquela que equilibra eficiência com capacidade de absorção.
Folgas inteligentes, alternativas de fornecimento, capacidade adicional planejada e decisões antecipadas não representam desperdício. Representam proteção do negócio.

Confundir eficiência com excelência operacional foi um erro comum. Excelência exige equilíbrio.

O custo invisível da eficiência exagerada

Grande parte dos custos gerados pela eficiência extrema não aparece diretamente nos relatórios logísticos. Eles surgem de forma pulverizada e, muitas vezes, são atribuídos a fatores externos.

Rupturas de estoque geram vendas perdidas. Atrasos comprometem a experiência do cliente. Fretes emergenciais aumentam o custo unitário. Horas extras, retrabalhos e decisões improvisadas consomem energia da organização.
Nada disso costuma ser associado à estratégia de eficiência. Mas deveria.

Quando a logística perde elasticidade, cada exceção vira um evento crítico.
O custo real não está apenas no frete mais caro ou no estoque adicional, mas na incapacidade de responder com agilidade e inteligência às variações do mercado.

Eficiência exagerada reduz o custo médio, mas aumenta o custo da exceção. E, em um mundo volátil, exceções deixaram de ser raras.

Planejamento frágil gera logística frágil

Muitas fragilidades atribuídas à logística têm origem fora dela. Previsões excessivamente otimistas, decisões comerciais tardias, campanhas mal sincronizadas, ausência de consenso entre áreas e falta de governança de planejamento empurram a logística para um papel reativo.

A logística acaba funcionando como amortecedor das falhas de planejamento.
E quanto mais eficiente ela tenta ser, menos capacidade tem de absorver esses desvios.

Não existe logística resiliente sem planejamento integrado. Processos como S&OP e IBP não são rituais burocráticos, mas mecanismos de proteção da cadeia. Eles criam alinhamento, antecipam conflitos e permitem decisões conscientes.

Eficiência operacional não corrige decisões estratégicas desalinhadas. Apenas posterga o impacto.

Resiliência não é ineficiência, é inteligência

Existe um equívoco recorrente que associa resiliência a desperdício. Na prática, resiliência é capacidade de escolha.

Ter múltiplos fornecedores críticos, políticas de estoque ajustadas ao risco, alternativas logísticas mapeadas, cenários simulados e decisões tomadas com antecedência não significa operar de forma pesada. Significa operar de forma consciente.

A logística moderna precisa equilibrar três dimensões: custo, nível de serviço e risco. Ignorar qualquer uma delas fragiliza o sistema como um todo.

Empresas mais maduras deixaram de perguntar apenas “quanto custa?” e passaram a perguntar “quanto risco estamos assumindo ao operar dessa forma?”. Essa mudança de mentalidade é decisiva para a sustentabilidade do negócio.

O novo papel da logística: orquestrar decisões

A logística deixou de ser apenas execução. Ela se tornou um sistema de decisões sob incerteza.
Seu papel não é apenas mover produtos, mas sinalizar riscos, provocar debates, questionar planos e ajudar a empresa a escolher melhor.

Isso exige líderes logísticos com visão sistêmica, capacidade analítica e influência transversal. Exige também que a alta liderança abandone a visão simplista de eficiência como objetivo isolado.

A logística forte não é aquela que promete milagres operacionais, mas aquela que traz a realidade para a mesa de decisão antes que a crise apareça.

A pergunta central não é se devemos ser eficientes.
A pergunta é: eficientes para quê, para quem e a que custo?

Considerações finais

A busca por eficiência continuará sendo necessária. Mas, quando exagerada e desconectada do contexto, ela fragiliza a logística e compromete o próprio negócio.

Em um mundo de incertezas permanentes, a verdadeira vantagem competitiva não está em operar no limite, mas em decidir melhor antes de chegar a ele.

Eficiência sem resiliência é ilusão operacional.
Logística forte é aquela que entrega resultado mesmo quando o cenário muda.

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Últimas obras publicadas:

– Logistica e Gerenciamento da Cadeias de Abastecimento

– Supply Chain, Logística e Liderança: O futuro é hoje

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Paulo Roberto Bertaglia

Paulo Roberto Bertaglia

Fundador e Diretor Executivo da Berthas, empresa de consultora especializada em supply chain e cofundador da Aveso, organização que atua conectando o ecossistema de startups, investidores e empresas em busca de soluções. Atuou nas empresas: IBM, Unilever, Hewlett-Packard e Oracle. Ao longo da carreira tem se especializado nas áreas de Supply Chain Management, Gestão estratégica de Negócios, Liderança, Vendas e Terceirização de Serviços. Professor de pós-graduação em Logística, Gestão Estratégica de Negócios e Tecnologia da Informação. É Autor de vários livros, entre eles Logística e Gerenciamento da Cadeia de Abastecimento – Editora Saraiva, 4ª edição – 2020. Realiza palestras de temas estratégicos, cadeia de abastecimento e liderança empresarial para empresas e instituições educacionais, além de consultorias e mentorias. É fundador da Prosa com Bertaglia, movimento voluntário para a educação cujo acesso é: https://bit.ly/3VW9Anp

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