Cubagem: quando o espaço também custa

Em seu novo artigo, Paulo Roberto Bertaglia, colunista do Portal Logweb, analisa como a cubagem vai além de uma medida física e se transforma em uma decisão econômica para toda a cadeia de suprimentos, influenciando embalagens, armazenagem, transporte, tecnologia, custos e sustentabilidade.

Quando falamos em cubagem, é comum pensar imediatamente em uma conta relativamente simples. Comprimento, largura e altura determinam o volume ocupado por uma carga. A partir daí, avaliamos quanto cabe em um caminhão, contêiner, palete ou posição de armazenagem.

Matematicamente, não há grande mistério.

Operacionalmente, porém, a história é bem diferente.

Tenho discutido esse tema com profissionais de logística e Supply Chain e algo fica cada vez mais evidente. Cubagem não é apenas uma medida física. É uma decisão econômica.

Um caminhão pode sair dentro do limite de peso e, ainda assim, estar mal aproveitado. Pode também atingir sua capacidade volumétrica muito antes do limite de peso. Entre esses extremos existem inúmeras combinações que determinam quanto a empresa realmente está pagando para movimentar seus produtos.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas “quanto cabe no veículo?”, mas outra, muito mais incômoda.

Estamos transportando produto ou transportando ar?

O custo do espaço que não aparece

Frete aparece claramente nos demonstrativos. Quilômetros rodados podem ser medidos. Combustível, pedágio, manutenção, pneus, motoristas e transportadoras também têm seus indicadores.

O espaço desperdiçado é menos evidente.

Imagine uma operação que consiga melhorar em alguns pontos percentuais a ocupação média de seus veículos. Em uma viagem isolada, talvez o resultado pareça pequeno. Quando multiplicamos essa diferença por centenas ou milhares de embarques ao longo do ano, a perspectiva muda completamente.

Podemos estar falando de menos veículos, menos quilômetros, menor consumo de combustível, menor emissão de CO2 e, naturalmente, menor custo logístico.

O interessante é que essa ineficiência nem sempre nasce no transporte.

Muitas vezes, o caminhão apenas recebe a conta de decisões tomadas muito antes.

A cubagem pode começar na embalagem

Uma embalagem precisa proteger o produto. Isso é indiscutível. Dependendo da mercadoria, ela também precisa atender requisitos de segurança, conservação, manuseio, exposição e experiência do consumidor.

Mas embalagem também ocupa espaço.

Uma caixa alguns centímetros maior do que o necessário parece irrelevante quando observada isoladamente. Multiplique esses centímetros por milhares de caixas, paletes, posições de armazenagem e viagens.

O impacto pode ser surpreendente.

É por isso que decisões de embalagem não deveriam considerar apenas marketing, proteção do produto ou custo do material. Existe uma dimensão logística que precisa entrar nessa equação.

Uma alteração aparentemente pequena pode modificar a quantidade de unidades por caixa, caixas por camada, camadas por palete e paletes por veículo.

A consequência percorre boa parte da cadeia.

O que parecia uma decisão sobre uma caixa transforma-se em uma decisão sobre armazenagem, movimentação, transporte e custo.

Dados ruins também ocupam espaço

Existe outro componente fundamental nessa discussão que nem sempre recebe a atenção necessária.

O cadastro.

Comprimento, largura, altura e peso precisam representar aquilo que realmente existe fisicamente. Além disso, dependendo da operação, outras características precisam ser conhecidas. A carga pode ser empilhada? Existe limitação de altura? A embalagem suporta peso sobre ela? Há restrições de orientação ou manuseio?

Um erro de poucos centímetros no cadastro de um item pode parecer insignificante.

Novamente, a escala muda tudo.

Quando dados incorretos alimentam WMS, TMS, sistemas de roteirização ou ferramentas de otimização de carga, podemos obter uma solução matematicamente excelente para uma operação fisicamente impossível.

Esse é um ponto que considero particularmente importante.

Não existe otimização confiável sem dados confiáveis.

Tecnologia não corrige automaticamente uma realidade que foi cadastrada de maneira incorreta. Em muitos casos, ela apenas processa o erro com maior velocidade.

Peso e volume não são a mesma coisa

Outro equívoco comum é associar capacidade de transporte somente ao peso.

Dependendo do perfil da carga, o verdadeiro limitador pode ser o volume.

Produtos densos tendem a consumir rapidamente a capacidade de peso do veículo. Produtos leves e volumosos podem ocupar praticamente todo o espaço disponível sem chegar perto desse limite.

No transporte aéreo essa relação é particularmente conhecida porque o peso volumétrico pode influenciar diretamente a cobrança do frete. Mas o princípio econômico não pertence exclusivamente à aviação.

Rodoviário, marítimo e outras modalidades também convivem com o desafio de utilizar adequadamente uma capacidade que é limitada simultaneamente por diferentes restrições.

Por isso, cubagem não deveria ser analisada isoladamente.

Ela precisa conversar com o perfil do produto, tipo de embalagem, equipamento utilizado, modalidade de transporte, distância, restrições legais e características da operação.

O caminhão não é um retângulo vazio

Aqui encontramos outra diferença importante entre teoria e prática.

Em uma planilha, podemos dividir o volume total da carga pelo volume disponível no veículo e chegar a uma taxa de ocupação aparentemente excelente.

Mas o caminhão real não funciona dessa maneira.

As caixas possuem formatos diferentes. Existem produtos frágeis, cargas que não podem ser sobrepostas, limitações de peso por eixo, requisitos de estabilidade, incompatibilidades entre produtos e restrições relacionadas à descarga.

Há ainda a sequência de entrega.

Imagine um veículo com excelente aproveitamento volumétrico, mas carregado sem considerar a ordem das entregas. O motorista chega ao primeiro cliente e precisa movimentar parte da carga para acessar aquilo que deveria descarregar.

Ganhamos cubagem e perdemos produtividade.

A melhor ocupação matemática, portanto, nem sempre representa a melhor solução logística.

Cubagem eficiente precisa ser executável.

Tecnologia ajuda. E muito

Ferramentas especializadas conseguem hoje trabalhar com grande quantidade de variáveis e simular alternativas que seriam extremamente difíceis de construir manualmente.

Podem combinar dimensões, pesos, veículos, paletes, restrições de empilhamento e diferentes configurações de carga. Algumas soluções permitem visualizar tridimensionalmente a disposição dos produtos antes mesmo do carregamento.

Isso representa uma evolução importante.

Mas existe uma condição que não pode ser ignorada.

O algoritmo precisa conhecer as restrições reais da operação.

Caso contrário, voltamos ao mesmo problema. O sistema otimiza um cenário que funciona na tela, mas não funciona na doca.

A inteligência da tecnologia precisa encontrar a experiência de quem conhece a operação.

É nessa combinação que aparece o verdadeiro ganho.

Cubagem também é sustentabilidade

Há ainda uma dimensão que merece maior atenção.

Melhor utilização da capacidade significa potencialmente transportar a mesma quantidade de produtos com menos viagens.

Menos viagens significam menos quilômetros.

Menos quilômetros podem significar menor consumo de combustível, menor desgaste dos ativos, menor congestionamento e menos emissões.

Nesse sentido, cubagem também pode contribuir para objetivos de sustentabilidade.

É interessante perceber como eficiência econômica e ambiental podem caminhar juntas. Não porque sustentabilidade seja consequência automática de qualquer projeto de cubagem, mas porque eliminar capacidade desperdiçada frequentemente elimina também consumo desnecessário de recursos.

Transportar ar custa dinheiro. E também consome energia.

Cubagem é uma decisão de Supply Chain

Talvez esse seja o ponto central.

Cubagem não deveria pertencer exclusivamente à expedição ou ao transporte.

Ela começa potencialmente no desenvolvimento do produto e da embalagem, passa pelo cadastro de materiais, armazenagem, unitização, formação de paletes, planejamento de cargas, escolha dos veículos e modalidades, carregamento e distribuição.

Isso exige integração.

Quando cada área otimiza apenas sua própria parcela, a empresa corre o risco de produzir uma solução localmente eficiente e globalmente cara.

A embalagem pode ficar mais barata e aumentar o custo de transporte. O transporte pode maximizar ocupação e prejudicar a descarga. A armazenagem pode favorecer determinado padrão de palete que não aproveita adequadamente o veículo.

Supply Chain existe justamente para conectar essas decisões.

Por isso, antes de celebrar uma taxa de ocupação ou instalar mais uma ferramenta de otimização, talvez valha fazer algumas perguntas simples.

Nossos dados dimensionais são confiáveis? Nossas embalagens foram analisadas também sob a perspectiva logística? Estamos utilizando o veículo adequado para o perfil da carga? As restrições reais estão refletidas nos sistemas? Estamos otimizando somente o transporte ou o fluxo como um todo?

Cubagem parece falar de centímetros, metros cúbicos e quilogramas.

Na realidade, fala de CAPACIDADE, CUSTO e DECISÃO.

Toda empresa sabe quanto paga pelo transporte.

Poucas sabem quanto desse custo está sendo utilizado para transportar espaço vazio.

E talvez seja justamente aí que esteja uma oportunidade importante de eficiência que continua viajando todos os dias diante dos nossos olhos.

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Paulo Roberto Bertaglia

Paulo Roberto Bertaglia

Fundador e Diretor Executivo da Berthas, empresa de consultora especializada em supply chain e cofundador da Aveso, organização que atua conectando o ecossistema de startups, investidores e empresas em busca de soluções. Atuou nas empresas: IBM, Unilever, Hewlett-Packard e Oracle. Ao longo da carreira tem se especializado nas áreas de Supply Chain Management, Gestão estratégica de Negócios, Liderança, Vendas e Terceirização de Serviços. Professor de pós-graduação em Logística, Gestão Estratégica de Negócios e Tecnologia da Informação. É Autor de vários livros, entre eles Logística e Gerenciamento da Cadeia de Abastecimento – Editora Saraiva, 4ª edição – 2020. Realiza palestras de temas estratégicos, cadeia de abastecimento e liderança empresarial para empresas e instituições educacionais, além de consultorias e mentorias. É fundador da Prosa com Bertaglia, movimento voluntário para a educação cujo acesso é: https://bit.ly/3VW9Anp

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