Agapito Sobrinho, colunista do Portal Logweb, analisa neste artigo como o acordo entre União Europeia e Mercosul reposiciona a logística brasileira, elevando o nível de exigência em eficiência, sustentabilidade e integração nas cadeias globais.
O acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul marca um ponto de inflexão para a economia brasileira e, especialmente, para o setor de logística. Mais do que um tratado comercial, ele representa uma mudança estrutural no fluxo de mercadorias, na exigência por eficiência e no papel das empresas de transporte nas cadeias globais de valor.
Ao conectar dois dos maiores blocos econômicos do mundo, cria um ambiente de maior previsibilidade e integração, com potencial para ampliar o comércio, atrair investimentos e elevar a demanda por serviços logísticos mais sofisticados, multimodais e sustentáveis.

Estudos utilizados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), com base em análise da Comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu, estimam que o Brasil poderá registrar um aumento de US$ 6,1 bilhões no PIB (+0,3%), US$ 12,9 bilhões nas exportações (+3,8%) e US$ 8,9 bilhões nas importações (+3,7%) no longo prazo.
Para a logística, esses números se traduzem em mais carga, mais rotas e maior complexidade operacional, exigindo expansão de capacidade em portos, rodovias, ferrovias, armazéns e centros de distribuição.
Projeções recentes indicam ainda que as exportações brasileiras podem crescer mais de US$ 7 bilhões no curto prazo, impulsionadas pela redução de tarifas para centenas de produtos. Isso tende a intensificar o uso de corredores já pressionados — especialmente os que ligam o Centro-Oeste e o Sul aos portos do Sudeste e do Sul — e a ampliar a demanda por soluções integradas de transporte rodoviário, ferroviário e cabotagem.
Esse novo cenário também deve acelerar investimentos em frotas modernas, sistemas de rastreabilidade, automação de armazéns e integração digital com clientes e autoridades aduaneiras. O recado para o setor é claro: empresas que não avançarem em capacidade, tecnologia e gestão de riscos terão dificuldade em acompanhar o ritmo imposto pelo acordo.
Logística, elo crítico da competitividade
A redução de tarifas e barreiras não garante, por si só, competitividade. Se o custo logístico continuar elevado, o Brasil corre o risco de perder parte dos ganhos potenciais do acordo. Hoje, o peso da logística no custo final de muitos produtos exportados ainda é um dos principais entraves à competitividade brasileira.
Ao mesmo tempo, o tratado cria uma janela de oportunidade: ao ampliar o acesso ao mercado europeu e incentivar a integração às cadeias produtivas do bloco, ele tende a atrair investimentos em infraestrutura e serviços logísticos, públicos e privados. Empresas que conseguirem oferecer soluções completas — do transporte interno ao desembaraço aduaneiro, passando por armazenagem, consolidação de cargas e gestão de estoques — ganharão relevância estratégica junto a exportadores e importadores.
Nesse contexto, operadores logísticos com presença capilar no território nacional, capacidade multimodal e foco em eficiência operacional estarão em posição privilegiada para capturar esse crescimento. A logística deixará de ser apenas um “custo a ser reduzido” e passará a ser um diferencial competitivo central na relação com a União Europeia.
Um dos pontos mais sensíveis do acordo é a agenda de sustentabilidade. O estudo analisado pela CNI destaca que o tratado dialoga com regulações europeias como o CBAM e o EUDR, tornando a pegada ambiental da cadeia logística um critério de acesso ao mercado. Isso exige descarbonização, rastreabilidade e governança robusta.
Quem enxergar essas exigências apenas como “custo regulatório” perderá espaço. Para as empresas que se anteciparem, a conformidade ambiental e social será um ativo comercial, abrindo portas para contratos de longo prazo com embarcadores globais e cadeias produtivas mais exigentes.
Desafios de curto prazo, visão de longo prazo
É importante reconhecer que os impactos não serão homogêneos nem imediatos. Especialistas lembram que o efeito do acordo se dará em um ambiente global marcado por volatilidade geopolítica, mudanças de governo e oscilações econômicas, o que pode dificultar a percepção clara dos resultados no curto prazo. Além disso, a própria implementação do acordo será gradual, com reduções tarifárias ao longo de vários anos e etapas de aprovação ainda em curso na Europa.
Ainda assim, para o setor de logística, a mensagem estratégica é inequívoca: o acordo inaugura um ciclo em que eficiência, sustentabilidade e integração internacional deixarão de ser opcionais e se tornarão condições de sobrevivência e crescimento. Empresas que permanecerem ancoradas em modelos pouco inovadores, com baixa digitalização e visão limitada ao transporte ponto a ponto, terão dificuldade em capturar o valor dessa nova fase.
As empresas de logística brasileiras enfrentam diariamente o desafio de conectar produção e consumo em um país de dimensões continentais, e o acordo União Europeia–Mercosul se apresenta como um teste de maturidade para o setor, ao exigir preparação para um cenário de maior integração comercial. Isso demanda uma visão que ultrapasse o curto prazo, com investimentos contínuos em produtividade, qualificação, tecnologia e sustentabilidade — um novo patamar de exigência que reposiciona a logística no centro da competitividade internacional.
Se bem aproveitado, o acordo pode transformar a logística de gargalo recorrente em vetor de competitividade, desde que haja coordenação entre empresas, governo e entidades setoriais, além de visão estratégica dos operadores. O tratado não é um fim, mas o início de uma etapa em que a logística brasileira pode ocupar o papel estratégico que há muito lhe cabe nas discussões sobre desenvolvimento, integração internacional e geração de valor.
Fontes:
https://mundologistica.com.br/noticias/acordo-mercosul-uniao-europeia-impacto-logistica?utm_source









