A indústria automotiva brasileira passou a recalcular práticas tradicionais para preservar e oxigenar o capital de giro, em um contexto marcado por juros elevados e maior rigor na alocação de recursos. Nesse cenário, padrões consolidados ao longo de décadas, como a manutenção de estoques abundantes de peças para produção e pós-venda, estão sendo revistos com apoio de análise estratégica de dados.
De acordo com estudos realizados pela consultoria Mirow & Co., análises em estoques de montadoras de veículos leves e pesados indicam que até 20% dos volumes armazenados podem ser eliminados por meio de processos de redesenho, sem comprometer a produção nem o atendimento ao mercado de reposição.
“Historicamente, as montadoras mantêm estoques com cobertura acima do necessário para atender às demandas de produção e pós-vendas, visando evitar o desabastecimento do mercado e impactos na marca, além de atrasos na fábrica. A mentalidade sempre foi de ‘não pode faltar’, então as montadoras carregavam nos estoques”, comenta Elmar Gans, sócio da consultoria Mirow & Co.

Além disso, a provisão robusta de peças também se consolidou como forma de mitigar riscos jurídicos. O Código do Consumidor determina que fabricantes e importadores assegurem a oferta de componentes mesmo após o fim da produção ou da importação dos modelos. Embora a legislação mencione apenas um “período razoável de tempo”, a jurisprudência contribuiu para reforçar a prática de estoques elevados.
“Prevalecia a cultura do ‘melhor sobrar do que faltar’. O fornecedor logístico pouco era questionado, caso peças excessivas ficassem obsoletas, mas levava a culpa quando a falta de peças colocava a produção em risco. Ou seja, o estoque nunca foi um problema, mas agora, devido aos juros, passou a ser cobrado”, complementa Gans.
Segundo o consultor, os estoques sempre foram objeto de gestão diligente. No entanto, a normalização do abastecimento após a pandemia, combinada ao aumento do custo do capital, criou condições para buscar mais eficiência na cadeia de suprimentos, uma das áreas que concentram maior volume de recursos na indústria automotiva.
Uma análise orientada por dados permite identificar excessos pontuais e redesenhar a política de reposição sem comprometer a operação. “Não se trata de um simples corte, mas de uma mudança de viés nessa gestão. Há estoques com R$ 400 milhões em reposição que podem continuar com os mesmos resultados, trabalhando com R$ 70 milhões a menos”, explica Gans. Segundo ele, os valores liberados podem ser redirecionados para outros projetos, em um momento de investimentos em novas tecnologias e crédito mais caro.
Capital de giro e redesenho de estoques
O impacto do redesenho é mais relevante nas peças importadas, cujo prazo de entrega pode chegar a seis semanas, o que historicamente justificou volumes maiores. Já as peças nacionais, destaca o especialista, operam em sistemas como Just-in-Time ou exigem menor estocagem, com prazos de entrega entre três e cinco dias. Ainda assim, pequenos ganhos de eficiência nesses itens podem gerar impacto financeiro significativo, já que concentram grande parte do capital investido.
Além do efeito financeiro imediato, as montadoras também avaliam o redesenho dos estoques considerando a transição para a frota eletrificada. “Com a eletrificação, haverá uma troca grande de modelos em circulação. Por muito tempo as montadoras terão que armazenar peças de veículos a combustão, ao lado das peças dos modelos elétricos e dos flex, demandando também espaço”, ressalta Gans.
Enquanto isso, o ambiente de juros altos também afeta o ritmo de vendas. Segundo o consultor, o financiamento de veículos leves e pesados segue restrito, levando consumidores a postergar compras. “A venda de veículos leves tem crescido, mas em curva de crescimento menor. Entre os pesados, a idade média dos veículos de grandes frotistas passou de sete para oito anos”, afirma.
Com isso, não apenas os estoques de peças, mas também os de veículos acabados pressionam a gestão das montadoras, que recorrem cada vez mais aos dados para ajustar volumes, prever demanda e definir o mix de produção mais aderente à realidade do mercado.
Nesse contexto, Gans observa que apenas uma frente permanece fora das revisões mais rigorosas: os semicondutores. “Ninguém vai questionar se esse, em específico, tiver um estoque excessivo e conservador para poder andar mais a distância”, conclui.





