Em certos momentos falamos, ou até escrevemos, por impulso. Normalmente, isso acaba em burradas. O melhor é esperar uns dias para organizar as idéias e aí sim soltar a verve.
Então, quando na semana passada a agência de avaliação de risco Standard & Poors colocou o Brasil em um patamar de elevada confiabilidade para investimento (investment grade), foi uma grande festa no meio dos políticos e economistas, diríamos, mais entusiasmados com elogios, tapinhas nas costas e coisa e tal.
Cá para nós, receber elogios é bacana. Mas é importante ter ao menos um pouco de “se mancol” para aceitar certas bajulações. E nesse caso, podemos começar a introduzir o contexto no qual o Brasil segue, depois de anos, Coréia do Sul, México e Rússia como novos oásis de confiabilidade para o dinheiro internacional.
Os argumentos da Standard & Poors: “contínua melhora dos indicadores econômicos do país e os sinais de comprometimento do governo em seguir com esse processo", segundo a diretora da instituição, Lisa Schineller. Por outro lado ela mesmo salienta que problemas como o péssimo perfil do endividamento público brasileiro e os altos gastos do governo seriam considerados aspectos impeditivos para a obtenção do status em questão. Assim, em nome de uma aposta no futuro, a regra acabou sendo flexibilizada a favor do Brasil.
Será que é mesmo a favor? Bem, para entender a situação como um todo, em primeiro lugar somos obrigados a lembrar que a carga fiscal brasileira vem subindo de maneira absurda nos últimas décadas e mesmo assim os recursos retirados da sociedade em favor do consumo estatal não tem sido suficientes para sanear as contas públicas, já que a fome pelo aumento do custeio parece ser insaciável. Em resumo, o esforço de arrecadação que poderia ser utilizado para sanear as contas nacionais, não está tapando buraco existente, o qual parece estar inclusive aumentando.
Pelo lado internacional, as turbulências financeiras continuam, afetando a credibilidade de países até pouco tempo imunes a dúvidas de capacidade de pagamento de suas obrigações, como os EUA, por exemplo, com seu dólar capenga e contas nacionais prestes a entrar para o clube dos pandarecos.
E cá para nós: será que num planeta em que os principais países do mundo estão mostrando alguma característica econômica mais podre, logo o Brasil iria bancar o Joãozinho do Passo Certo e melhorar sua credibilidade? Difícil de acreditar.
Na semana passada, comentando sobre o assunto com o jornalista César Fonseca, ele alertou para a coincidência da conquista do grau de investimento pelo nosso país, ao mesmo tempo em que o banco central norte-americano sinalizava mais queda de juros, mesmo com inflação em alta.
Ainda mais: o custo do dinheiro brasileiro havia subido semanas antes, e ainda persiste com viés de alta, nos consolidando mais uma vez como campeões mundiais de juros. Pela tradição dos velhos manuais de economia, uma nação aumenta a remuneração dos seus títulos públicos para evitar inflação ou tentando seduzir aplicadores a aceitar o risco elevado em troca de ganhos atrativos.
No caso do Brasil, o que vale é o segundo argumento. Assim, não dá para deixar de avaliar como um contra-senso a avaliação da agência de risco, quando os principais indicadores objetivos estão direcionados para o lado oposto.
O elogio aparentemente cínico, traz efeitos colaterais notadamente sérios para a economia nacional. Em primeiro lugar, o que todo mundo que tem dinheiro quer é aplicar seus recursos em lugar seguro e com alta remuneração. Pela Standard & Poors o Brasil virou esse paraíso.
Como conseqüência, a dívida interna aumentará ainda mais, paralelamente à intensificação da defasagem cambial. Se exportar produtos industriais já estava difícil, com a nova perspectiva de valorização do real, desistir do mercado internacional pode ser a melhor solução em vários casos, lamentavelmente.
Em outras circunstâncias seria muito bom saber que o Brasil é um país de baixo risco de investimentos. Mas lamentavelmente os fatos mostram que ainda estamos muito longe disso. O diagnóstico do país pela Standard & Poors é ingenuamente equivocado.
Ou existem terceiras intenções na classificação em foco? Isso o tempo dirá.
Eduardo Starosta é economista: eduardostarosta@uol.com.br







