Transporte Rodoviário de Cargas: eficiência operacional exige mudança estrutural e modelo colaborativo

Por Célio Malavasi*

O transporte rodoviário de cargas no Brasil atravessa um dos períodos mais desafiadores de sua história recente. Responsável por cerca de 65% da movimentação de mercadorias no país, segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT), o modal rodoviário segue como a espinha dorsal da logística nacional, mas opera sob forte pressão econômica, regulatória e operacional.

Nos últimos anos, o debate entre transportadores têm sido praticamente consensual em alguns pontos: a necessidade de aumento de produtividade, o avanço da tecnologia, o uso de inteligência artificial para transformar dados em informações estratégicas, a complexidade da burocracia fiscal e as exigências cada vez maiores por parte dos embarcadores. Esses fatores impactam diretamente os custos e a competitividade das empresas, especialmente das pequenas e médias transportadoras, que representam a maior parte do setor.

Ao mesmo tempo, cresce a insatisfação com a forma como a regulação tem sido aplicada. Embora necessária para garantir segurança, conformidade e equilíbrio concorrencial, a regulamentação frequentemente ignora as diferentes realidades operacionais do mercado. Exigências padronizadas acabam impondo sacrifícios que nem sempre são viáveis para empresas com menor escala, capital limitado e menor acesso a tecnologia.

Entretanto, ao observar a essência do problema, percebe-se que muitos dos entraves não estão apenas na regulação, na tecnologia ou na carga tributária. O setor disputa intensamente preços, prazos de pagamento, previsibilidade de demanda, recorrência de uso de frota, flexibilidade no gerenciamento de riscos e estabilidade das rotas. Ainda assim, frequentemente deixa de atacar o que, na prática, é um dos maiores geradores de eficiência e rentabilidade: rodar o veículo pelo maior tempo possível, com a maior taxa de ocupação possível.

O setor tende a buscar soluções cada vez mais complexas para mitigar os efeitos desse desequilíbrio, quando a raiz do problema está na falta de organização estrutural e integração entre os agentes da cadeia logística. Nesse contexto, torna-se indispensável o envolvimento direto do embarcador como parte interessada e corresponsável pela eficiência do sistema.

Uma alternativa estratégica que ganha relevância é o compartilhamento de recursos logísticos entre diferentes embarcadores, desde que estruturado em um modelo colaborativo real e não sob a lógica da concorrência direta. Ao integrar volumes, rotas e frequências, o transporte deixa de ser apenas um serviço contratado isoladamente e passa a operar como uma solução integrada de entregas, com ganhos de escala, previsibilidade e sustentabilidade econômica.

Esse tipo de abordagem tem potencial para alterar as bases da atual matriz operacional do transporte de mercadorias, promovendo uma evolução concreta em termos de competência operacional, técnica e financeira. Mais do que uma tendência, trata-se de um caminho possível e necessário para que o transporte rodoviário de cargas de forma estruturada, equilibrando eficiência, competitividade e viabilidade para todos os elos da cadeia.

*Célio Malavasi, diretor Executivo da MXP Transportes

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