Dados na operação: por que ainda usamos empilhadeiras “cegas”?

*Por Yuri Santos

Sem dados, a operação logística ainda roda no feeling, e isso custa caro. A frase descreve uma contradição que persiste mesmo em plena era da Indústria 4.0: enquanto empresas digitalizam vendas, finanças e produção, boa parte da frota que move o produto dentro do galpão continua operando no escuro, sem informar quanto trabalha, quando vai falhar ou como está sendo conduzida. São, na prática, empilhadeiras cegas.

O paradoxo fica claro quando se olha o potencial já mensurado. A transformação digital não é promessa vaga. Estudo da McKinsey estima que processos ligados à Indústria 4.0 podem reduzir custos de manutenção de equipamentos entre 10% e 40%, cortar o consumo de energia entre 10% e 20% e elevar a eficiência do trabalho entre 10% e 25%. São ganhos conhecidos há anos. Ainda assim, a movimentação interna segue como uma das últimas fronteiras a serem conectadas.

A tecnologia que resolve isso existe e está madura. Sensores de IoT instalados em empilhadeiras monitoram uso, consumo, horas de operação e intervalos de manutenção. A telemetria transforma a máquina em fonte contínua de dados sobre produtividade, desgaste e condução. Integrada a sistemas de gestão de frota e de armazém, essa camada permite manutenção preditiva, controle de acesso por operador e identificação de gargalos que, sem medição, passam despercebidos. Não é tecnologia experimental, é padrão disponível no mercado.

Então por que o atraso? Três fatores explicam a inércia do setor. O primeiro é cultural: a empilhadeira ainda é tratada como ferramenta de força bruta, não como ativo de dados. O segundo é a falsa economia: equipamento sem telemetria parece mais barato, mas esconde custo de parada não planejada, manutenção corretiva e baixa utilização. O terceiro é a fragmentação: muitas operações não sabem quantas horas reais cada máquina trabalha, o que torna difícil justificar o investimento sem o dado que só a conexão geraria.

O custo do escuro é concreto. Sem telemetria, é praticamente impossível identificar desperdício, antecipar falha ou comparar desempenho entre equipamentos e operadores. A manutenção vira reativa, mais cara e mais demorada. A decisão de compra, renovação e dimensionamento de frota passa a se apoiar em percepção, não em evidência. Em um setor de margens apertadas, gerir no escuro é uma desvantagem que não aparece na planilha, mas aparece no resultado.

O Rio Grande do Sul ilustra o ponto. O estado concentra indústria de transformação, agro e operadores logísticos com forte sazonalidade, perfil em que conhecer a hora exata de uso de cada equipamento é o que separa frota dimensionada de frota inflada.

A conclusão é direta. A pergunta do título não é técnica, é de gestão. A tecnologia para enxergar a operação já existe, é acessível e tem retorno documentado. O que ainda falta, em grande parte do setor, é tratar o dado da movimentação interna como ele realmente é: não um detalhe operacional, mas a base de decisões que custam, ou economizam, milhões.    

                                                                        

*Yuri Santos é CEO da Carmak. Com formação em Administração pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e MBA em Finanças pela Fundação Getulio Vargas (FGV), também possui certificação em Gestão e Estratégia pelo G4.

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