Riscos de uma inflação maior

08/06/2008

A inflação está na berlinda. As preocupações estão em todos os lugares: no atacado, no varejo, nas expectativas dos agentes. Não admira, portanto, que os últimos índices de inflação ao consumidor tenham surpreendido (para cima) os analistas de mercado, surpresas estas que motivaram nova rodada de revisão de expectativas de inflação para 2008 e para 2009.

Os preços internacionais do petróleo – que têm atingido recordes sucessivos de alta – permanecem como risco inflacionário de grande proporção, a curto e médio prazo, não só no Brasil, como no exterior. Por exemplo, a ata da última reunião do Fomc deixou clara a preocupação do comitê com a inflação, cujas projeções foram novamente revistas para cima, em grande medida pelas altas dos preços do petróleo.

Isso significa que a inflação no Brasil está à beira de sair do controle? A resposta é negativa. As expectativas de inflação para 2009, embora em deterioração, ainda assim deverão se estabilizar pouco acima do centro da meta, o que representa posição, por assim dizer, confortável, tendo em vista as séries de choques que atingiram os índices de preços desde o final do ano passado, particularmente no que tange aos alimentos.

Na projeção do IPCA-2009, estamos considerando que a variação anual acumulada dos preços dos alimentos será menor do que a verificada neste ano, tanto no atacado, quanto no varejo. Mas, e se os riscos inflacionários se exacerbarem? O Banco Central subirá o juro além dos trezentos pontos previstos em nosso cenário básico? Medidas monetárias adicionais são prováveis? O governo seria capaz de adotar ações de caráter, mais heterodoxo?

Começando pela última indagação, o governo já adotou medidas pontuais de desoneração tributária – sobre produção e/ou importação – para produtos específicos, cujos preços estão em alta devido a problemas de oferta (o trigo e seus derivados são até agora os maiores beneficiados). Sabemos que estas ações são pouco eficazes. Nem sempre é possível saber de fato quem delas se beneficia, se o comprador ou o vendedor, já que isto depende das elasticidades das curvas de oferta e demanda dos produtos em questão. Porém, o governo provavelmente continuará insistindo com medidas pontuais desta natureza. Mas pára aí.

Caso o Banco Central perceba que aumento significativo, mas não exagerado do juro não bastará para conter as expectativas de inflação, medidas complementares ao aumento do juro básico são prováveis. Dado que o crédito é um dos principais combustíveis da demanda agregada atualmente, medidas para conter sua expansão estariam, naturalmente, à disposição da autoridade monetária. Aumento das alíquotas de depósito compulsório e/ou alterações da regras da Basiléia para conter o nível de alavancagem do sistema são as principais candidatas, embora a opção mais provável seria mexer nos compulsórios dos bancos.

Deixar de mirar o centro da meta, de forma a acomodar choques de custos, é outra medida de elevada probabilidade, no caso de cenário mais sombrio para a inflação. No entanto, como já argumentamos em várias ocasiões, tal ação não deveria ser acionada precipitadamente, mas somente no caso de a expectativa de inflação superar substancialmente o centro da meta, o que não é o caso atual. Por ora, o melhor a fazer é conduzir a política monetária mirando o centro da meta, de forma a manter as expectativas sob controle, como aliás acaba de garantir o presidente do BC.

Enfim, muito se tem falado sobre elevação do superávit primário. Apesar das dificuldades não triviais para se atingir maior economia fiscal, de todas as medidas disponíveis, esta é, sem dúvida, a melhor.

Fonte: www.dcomercio.com.br

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