Renovação de frota: crédito chega, mas empresas recorrem ao consórcio para escapar dos juros

*Por Silvana Simões Pessoa

A ampliação do programa Move Brasil, com o aporte de R$ 21,2 bilhões via BNDES para a renovação de frotas de caminhões e ônibus, anunciada no último dia útil de abril, é um movimento necessário, ainda que ocorra sob o rótulo de “medida eleitoreira” em alguns setores. Para além do debate político, o fato é que o Brasil transporta mais de 60% de sua carga por rodovias e faz isso com uma frota perigosamente envelhecida.

Os dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT) revelam um cenário crítico: 54,9% da frota de caminhões de frete tem mais de 15 anos. O que é mais grave: 25,4% possuem mais de 25 anos de estrada, e 11,8% foram produzidos antes de 1989, operando fora das normas modernas de emissões (Proconve).

Para as grandes transportadoras, esse envelhecimento ultrapassa a barreira mecânica e entra na esfera do ESG. Manter veículos obsoletos é um passivo ambiental que compromete as metas de descarbonização e pode gerar danos reputacionais irreversíveis perante embarcadores e investidores. Além disso, existem os custos invisíveis: retrabalho, retorno de clientes e paradas não planejadas que corroem a eficiência logística.

Enquanto o governo articula o BNDES Renovação de Frota, o mercado brasileiro já consolidou uma alternativa estratégica para fugir das taxas de juros bancárias: o consórcio.

Dados da ABAC (Associação Brasileira das Administradoras de Consórcios) do primeiro trimestre de 2026 mostram a força dessa modalidade. Dos 12,93 milhões de participantes ativos no sistema, o segmento de veículos pesados já soma 905,36 mil consorciados, representando 7% do mercado total.

As empresas descobriram que o consórcio, que é uma tecnologia financeira genuinamente brasileira, atua como uma ferramenta de governança. Pois permite o planejamento da renovação de ativos sem penalizar o fluxo de caixa com o custo imediato do crédito tradicional, garantindo a atualização necessária para cumprir exigências de conformidade e segurança.

Cada vez mais empresas estão recorrendo ao consórcio na hora de planejar a compra de ativos diversos e não seria diferente no segmento de transportes, tão carente de linhas de crédito possíveis de serem usadas. 

A nova etapa do Move Brasil, que agora inclui ônibus e implementos rodoviários, permite inclusive a aquisição de seminovos para autônomos. É um fôlego bem-vindo, mas a prudência recomenda que o empresário avalie os trade-offs. O crédito público pode trazer burocracias que o mercado de consórcios já simplificou.

A modernização da frota é, acima de tudo, uma questão de perenidade do negócio. Seja via BNDES ou via consórcio, o importante é que o transporte brasileiro deixe de carregar o peso de veículos com quase quatro décadas de uso.

Modernizar não é apenas trocar máquinas; é proteger a reputação e garantir a conformidade em um mercado cada vez mais rigoroso e exigente com a saúde financeira e com a perenidade dos negócios. 


*Silvana Simões Pessoa é advogada especializada em risco jurídico, governança corporativa e compliance, com mais de 30 anos em contratos bancários, recuperação de crédito e consórcios.

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