Reforma Tributária e subcontratação: quando a cadeia invisível começa a aparecer na margem

*Por José Ricardo Fernandes

Mais do que adaptar sistemas ao IBS – Imposto sobre Bens e Serviços e à CBS – Contribuição sobre Bens e Serviços, as transportadoras precisarão conhecer com maior profundidade quem realmente executa suas operações, como essas contratações estão estruturadas e quanto essa cadeia custa ao negócio.

A Reforma Tributária coloca o setor diante de uma discussão que vai além da substituição de tributos. Ela traz para o centro da gestão algo que, durante muito tempo, permaneceu diluído na complexidade operacional: a visibilidade sobre toda a cadeia utilizada para entregar o transporte vendido ao cliente.

O transporte de cargas sempre dependeu de flexibilidade. Frota própria convive com transportadores autônomos, agregados, empresas terceirizadas, subcontratação, redespacho e parceiros utilizados conforme região, demanda, especialidade ou disponibilidade de capacidade.

Esse modelo não tende a desaparecer. Ele é parte da dinâmica do setor e continuará sendo importante para sua competitividade. A questão está em como essa rede é administrada.

Terceirizar não é, por si só, o problema. O risco aparece quando a empresa perde a capacidade de saber exatamente quem executou a operação, sob qual relação de contratação e com quais reflexos fiscais, tributários, regulatórios e econômicos.

Quando operação e informação precisam contar a mesma história

CT-e, MDF-e, NF-e e outros registros eletrônicos ampliaram significativamente a quantidade de dados estruturados disponíveis sobre uma operação de transporte. Com a evolução dos sistemas fiscais e a Reforma Tributária, a consistência dessas informações passa a ter ainda mais importância.

Emitir o documento corretamente continua sendo necessário, mas já não resume o problema.

Operação física, contratação, documentação fiscal, tratamento tributário e obrigações regulatórias precisam guardar coerência entre si.

É nesse ponto que surge uma questão importante: a transportadora conhece toda a cadeia utilizada para executar o frete que vendeu?

Um embarcador contrata uma transportadora. Essa transportadora pode utilizar outra empresa ou um autônomo para realizar a operação. Dependendo do desenho logístico, outras relações podem surgir ao longo do percurso.

Depois da primeira contratação, porém, a visibilidade nem sempre permanece no mesmo nível.

Saber quem executou cada trecho, identificar corretamente a relação existente entre as partes, vincular veículos, documentos, valores e pagamentos e conseguir reconstruir posteriormente aquela operação deixam de ser preocupações exclusivas do departamento fiscal.

Passam a fazer parte da governança do negócio.

O custo que não aparece também consome margem

Existe um efeito econômico importante nesse processo.

Por muitos anos, determinados riscos fiscais, regulatórios, documentais e operacionais não foram considerados diretamente na formação do preço do frete. Enquanto não se materializavam, a percepção era de que a margem estava preservada.

O problema é que risco não contabilizado não deixa de existir.

Uma operação aparentemente rentável pode mudar de resultado quando surge uma contingência, um recolhimento não previsto, a necessidade de corrigir uma contratação, recuperar documentação, implantar controles adicionais ou rever processos que não estavam adequadamente estruturados.

Por isso, uma pergunta que precisa chegar definitivamente às áreas de Pricing é: quanto custa executar corretamente a operação que estamos vendendo?

A resposta não está apenas no custo do veículo ou no valor pago ao terceiro. Precisa considerar também impactos financeiros, tributários, regulatórios, tecnológicos, documentais e de controle.

Quanto menor o conhecimento sobre a cadeia utilizada, maior a chance de esses custos aparecerem somente depois, pressionando caixa ou reduzindo uma margem que, até então, parecia adequada.

Compliance passa a fazer parte da formação de preço

Esse cenário também aproxima áreas que tradicionalmente trabalharam de maneira mais independente.

Governar terceiros tem custo. Homologar fornecedores, controlar documentos, acompanhar viagens, integrar informações e criar rastreabilidade exigem processos, pessoas e tecnologia.

A ausência desses controles, entretanto, também tem custo — e muitas vezes ele é maior e menos previsível.

Por isso, compliance deixa de ser uma agenda restrita ao fiscal, jurídico ou tributário e passa a influenciar diretamente a operação, o Pricing e o comercial.

Quando parte desse custo precisar ser refletida no frete, não bastará comunicar ao embarcador que o preço aumentou. Será necessário explicar o que aquela estrutura entrega: previsibilidade, rastreabilidade, segurança documental e redução de exposição para toda a cadeia.

Essa discussão também vale para quem compra transporte.

Preço, capacidade operacional e nível de serviço continuarão sendo critérios fundamentais, mas talvez já não sejam suficientes para avaliar isoladamente um fornecedor. A forma como a operação será executada, o perfil dos participantes da cadeia, sua capacidade documental e tributária e o controle existente sobre terceiros podem alterar o custo econômico final daquela contratação.

O fornecedor com menor tarifa nem sempre representará o menor custo total da operação.

A gestão da frota estendida

Há ainda um conceito que merece maior atenção: o da frota estendida.

A capacidade de uma transportadora não está limitada aos veículos próprios ou diretamente administrados. Ela inclui todos os terceiros utilizados para cumprir os compromissos assumidos com seus clientes.

Sob a ótica de governança, é necessário conhecer essa estrutura.

Quem efetivamente realizou a viagem? Qual foi a condição de contratação? Quais empresas, autônomos e veículos participaram? Que documentos sustentam essas relações? Como os pagamentos se conectam aos serviços executados?

Mais do que responder a essas perguntas individualmente, a empresa precisa ser capaz de relacionar essas informações.

Em operações de grande volume, depender de planilhas isoladas, e-mails, controles descentralizados e verificações posteriores tende a se tornar insuficiente.

A gestão de terceiros passa, portanto, por integração de dados, definição de processos, tecnologia e monitoramento contínuo.

A Reforma expõe uma discussão que já existia

A Reforma Tributária não criou as fragilidades da cadeia de contratação.

Subcontratações com pouca visibilidade, informações fragmentadas, diferenças entre aquilo que ocorre fisicamente e aquilo que é documentado e custos não considerados na formação do preço já fazem parte dos desafios do setor.

O que muda agora é a importância dessas informações dentro da equação econômica e tributária da operação.

Preparar uma transportadora para esse novo ambiente não deveria significar apenas configurar sistemas para IBS e CBS. É também uma oportunidade para rever o desenho da operação, mapear a cadeia de contratação, classificar corretamente as relações, conhecer os terceiros utilizados, revisar contratos, melhorar a rastreabilidade e entender quanto tudo isso efetivamente custa.

Talvez a pergunta mais relevante para uma transportadora, portanto, não seja somente quanto pagará de novos tributos.

Antes disso, vale perguntar: quando toda a cadeia utilizada para executar nossas operações estiver visível, documentada e economicamente mensurável, a margem que temos hoje continuará sustentável?

Responder a essa questão antes que os custos apareçam no resultado pode fazer uma diferença importante nos próximos anos.

A flexibilidade continuará sendo indispensável ao transporte brasileiro. O que muda é que, cada vez mais, ela precisará estar acompanhada de governança para continuar produzindo margem, segurança e competitividade.

*José Ricardo Fernandes é sócio da FR Consultoria e Inovação e atua em temas relacionados à estratégia, governança, compliance, gestão de riscos e competitividade no transporte de cargas. A FR contribui para o desenvolvimento de análises e soluções voltadas à evolução da gestão operacional, fiscal e regulatória da cadeia logística, apoiando empresas na transformação de requisitos de conformidade em processos mais seguros, eficientes e sustentáveis.

Compartilhe:
Fulwood investe R$ 240 milhões na expansão de condomínios logísticos em Minas Gerais
Fulwood investe R$ 240 milhões na expansão de condomínios logísticos em Minas Gerais
Movimentação de cargas de saúde animal cresce 56% no primeiro quadrimestre na Libraport
Movimentação de cargas de saúde animal cresce 56% no primeiro quadrimestre na Libraport
Selbetti cria nova estrutura de liderança com foco Brasil e SP para crescer em automação e gestão de estoque
Selbetti cria nova estrutura de liderança com foco Brasil e SP para crescer em automação e gestão de estoque
Chegada do navio Beautiful Future ao Brasil reforça estratégia logística da Braskem Trading & Shipping
Chegada do navio Beautiful Future ao Brasil reforça estratégia logística da Braskem Trading & Shipping
Estação de biometano em Paulínia, SP, amplia uso de combustível renovável no transporte pesado da Ultragaz
Estação de biometano em Paulínia, SP, amplia uso de combustível renovável no transporte pesado da Ultragaz
Azul Logística amplia transporte aéreo de cargas com operação semanal para Lima, no Peru. E lança nova campanha
Azul Logística amplia transporte aéreo de cargas com operação semanal para Lima, no Peru. E lança nova campanha

As mais lidas

01

Despoluir ultrapassa 5,3 milhões de avaliações ambientais e amplia inteligência para o transporte sustentável
Despoluir ultrapassa 5,3 milhões de avaliações ambientais e amplia inteligência para o transporte sustentável

02

Inteligência artificial e infraestrutura impulsionam empresas brasileiras, aponta levantamento da DP World
Inteligência artificial e infraestrutura impulsionam empresas brasileiras, aponta levantamento da DP World

03

Algodão do Matopiba ganha nova rota de exportação por ferrovia até o Porto de Santos com Brado e SLC Agrícola
Algodão do Matopiba ganha nova rota de exportação por ferrovia até o Porto de Santos com Brado e SLC Agrícola