Preparando o terreno para a alta dos juros

27/03/2008

Sinto muito dizer isso, mas acho que em breve os juros brasileiros vão subir. Teoria da conspiração? Talvez.

Entretanto, há alguns indícios de que o governo federal está tramando isso.

Vamos aos sinalizadores: desde a semana passada as autoridades econômicas estão falando em reduzir o prazo de financiamento dos automóveis, em nome de evitar uma alta inflacionária. Se isso não for possível, o “plano B” será aumentar a Selic.
 
Aí tem truta: em primeiro lugar, os preços dos carros não mostram sinais de subir (no mês passado até caíram 0,02% e tendem a continuar na descendente em março); em segundo lugar os estoques das montadoras estão recheados de veículos, sendo impossível nos próximos meses ocorrer alguma inflação por falta de produto; em terceiro lugar, não existe comprovação cientifica comprovada de que o crédito mais longo seja inflacionário… o que pode acontecer é aumento da inadimplência, mas não alta dos preços. E em quarto lugar, os economistas do governo não são burros a ponto de acreditar realmente nisso.

Pensando politicamente e sabendo da preferência do brasileiro em parcelar suas compras até o limite do salário, o governo dizer que ao invés de cortar o prazo do crédito, vai subir os juros pode até parecer um bom negócio para esse povo.

Mas por que subir juros? Consumo não; evasão de recursos sim; e balança comercial sim.

Vejamos os dados: no primeiro bimestre do ano, o déficit das transações brasileiras no exterior chegou a US$ 12 bilhões. Esse é o resultado mais negativo em 61 anos. Em parte a situação foi causada pela redução do superávit da balança comercial, mas o forte mesmo foi a remessa de dinheiro para o exterior, de investidores saindo da bolsa São Paulo, na busca de mercados mais seguros ou para cobrir prejuízos em outros lugares do mundo.

O problema é que se esse fluxo de saída continuar, a estabilidade econômica vai para as cucuias. A lógica da questão é bem simples: mesmo com recordes de arrecadação, o governo federal tem sido extremamente mão aberta em comprometer a sua receita com a contratação de novos funcionários por concurso público, cargos em comissão, ou consultorias, fazendo com que a dívida interna continue subindo.

E para financiar esses papagaios, títulos públicos são lançados pagando as taxas de juros reais mais altas do mundo. Com a balança comercial  em vias de se tornar deficitária (mais a saída de recursos financeiros), a tendência é que o dólar suba, provocando inflação interna e desinteresse do investidor internacional pelos papéis brasileiros.

Vamos supor que alguém invista um milhão de dólares no país por uns dias. O dinheiro vai para o Banco Central e é convertido em reais, algo em torno de R$ 1,72 milhão. Se depois de uma semana, na hora do resgate, a cotação da moeda norte americana estiver em 1,80, por exemplo, o aplicador recebe de volta US$ 955 mil, mais alguns trocos de juros que não revertem o prejuízo, caso ele não tiver seguro cambial. E se o dinheiro que já está aplicado começar a sair, como está realmente acontecendo, aí a coisa fica preta: o real fica sujeito a fortes desvalorizações, causando inflação e tirando do governo sua principal fonte de recursos para financiar a dívida interna.

Quais as alternativas? A primeira seria deixar a coisa livre, aceitar um período de inflação mais alta, mas recuperar a competitividade do setor produtivo brasileiro no mercado internacional. Diga-se de passagem, um câmbio realista não poderia ficar abaixo de R$2,60 por dólar, mesmo com a atual crise da moeda norte-americana. Mas é claro, os marqueteiros políticos do governo teriam dificuldades de eleger os candidatos à prefeito da base aliada com um contexto da alta dos preços no centro da ribalta dos debates.
 
A segunda alternativa, freqüentemente usada nos governos passados para combater crises cambiais, é simplesmente aumentar as taxas de juros básicas para seduzir os investidores a deixar seu dinheirinho no Brasil.

Mas como fazer isso sem cair nas desgraças do povo? Ora, é só adaptar Maquiavel ao terceiro milênio: faça uma ameaça daquelas bem rabugentas para assustar; e um pouco depois apareça com cara de bonzinho na mídia, falando em alguma alternativa não tão dolorida.

Quando o governo ameaçou cortar o crédito do carro, sonhos de consumo desabaram; mas foram logo reconstruídos com o desmentido. E dentro desse contexto, para os ingênuos, juros mais altos é um problema tolerável, se a prestação continuar cabendo dentro do salário.

As conseqüências da alta da Selic começarão as ser sentidas meses depois; mas daí as eleições municipais já serão coisa do passado e os gestores públicos federais terão dois anos para recuperar a situação que causa desemprego, dentre outros males. E nesse meio tempo o Brasil continuará com desempenho econômico pífio.

E pensar que não precisávamos estar perigando passar mais uma vez por esse ciclo histórico. Bastaria o governo deixar de gastar de forma tão pródiga o dinheiro a mais que arrancou do contribuinte. Pelo jeito, os juros vão subir, sim.

 

Eduardo Starosta é economista e pós-graduado em filosofia. Desde 1999 é Diretor da Estplan Assessoria e Planejamento Econômico LTDA, empresa especializada em inteligência de mercado, análise de conjuntura e cenários, com atuação central em entidades empresariais. Uma de suas obras de maior destaque é “Agrocenários, Desafios e Oportunidades” – 2006, elaborada em conjunto com o ex-ministro da agricultura, Francisco Turra. Contato: eduardostarosta@uol.com.br

 

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