Palmas para os juros

07/06/2008

Então  o Banco Central não decepcionou os especuladores do mercado financeiro e lascou mais meio por cento na Selic, deixando claro que dificilmente esse novo ciclo de alta do custo do dinheiro ficará abaixo dos 14%.

A preocupação de nossos abnegados componentes do conselho monetário nacional está diretamente relacionada com a elevação da inflação nos últimos meses. E o receituário diz que para fazer o velho dragão voltar a dormir, o melhor sonífero chama-se custo do dinheiro elevado.

Bem, agora nem vou falar como economista. Vamos direto ao dicionário. De acordo com o Houaiss, inflação é “desequilíbrio que se caracteriza por uma alta substancial e continuada no nível geral dos preços, concomitante com a queda do poder aquisitivo do dinheiro, e que é causado pelo crescimento da circulação monetária em desproporção com o volume de bens disponíveis”.

Simplificando mais um pouco, o fundamental do conceito de inflação é a alta generalizada dos preços. Mas verdadeiramente, não é isso o que está acontecendo.

Mensalmente, o IBGE divulga o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, que mede nove grupos consumo. De fato, o indicador geral vem mostrando tendência de alta desde dezembro último por conta da alta dos alimentos.

Daquele mês até abril, o indicador mostrou elevação de  2,83%, o que projetado anualmente dá o preocupante percentual de 6,93%. No entanto, tal aceleração não tem nada genérica, sendo muito bem localizada nos gêneros alimentícios. Nos cinco meses em questão, o item alimentação encareceu 6,52%, seguido pelos produtos educacionais com 4,05%, (alta centrada em fevereiro pelo reinício das aulas). Despesas pessoais e artigos do vestuário ficaram acima de 2% no período e os demais itens se mantiveram em patamares reduzidos.

De acordo com esse quadro, fica evidente que alta dos preços não é generalizada, mas vinculada a um fenômeno mundial de escassez de alimentos, em principio associado à opção econômica de transformar comida em bio energia.

Bem, se a questão é global, evidentemente, a alteração dos juros brasileiros não farão nem cócegas no problema.

Nos Estados Unidos, também de dezembro a abril, o Índice de Preços ao Consumidor teve alta de 2,2%, e nem por isso os juros norte-americanos aumentaram dos agradáveis 2% ao ano (apenas 16% do custo básico do crédito brasileiro).

Como comentei recentemente em outro artigo (Inflação e Lorota), o aumento dos juros não tem nada a ver com inflação. O fato é que as contas públicas estão em situação gravíssima, com um déficit em conta corrente mensal acima de US$ 4 bi. Para cobrir esse buraco, nada como remunerar melhor os investidores internacionais, atraindo moeda estrangeira e, de lambuja, prejudicando as exportações.

E essa é a nossa triste história. Se o governo federal, com a receita tributária que possui atualmente, fizesse pelo menos 2 anos de austeridade em sua despesa, o problema fiscal brasileiro estaria muito bem encaminhado para ser resolvido, beneficiando a população com menores pressões de juros e gerando mais empregos pela melhoria da competitividade internacional brasileira… Os impostos também poderiam cair.

Mas o que dá voto são fogos de artifício e palavras bonitas.

Então, palmas para os juros.


Eduardo Starosta é economista: eduardostarosta@uol.com.br

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